Opinião

Quando fui a Benguela...

Arsénio Chilala

Hoje, de volta ao trabalho, depois das férias, estou a me imaginar sentado numa carteira, numa sala da 4ª classe

25/09/2022  Última atualização 07H56

E assim, nesse recuo no tempo, se o professor pedisse que fizéssemos uma redacção sobre as férias, tenho a certeza de que a minha começaria assim: Quando fui a Benguela, no início do mês de Agosto, cinco anos depois da última viagem que fiz à minha terra, parecia que era a primeira vez que lá ia. Estava tão ansioso por chegar que tive vontade de sair do autocarro e voar, voar até à Morena, mas só depois de rever os flamingos com as cabeças imersas nos mangais do Lobito.  No entanto, como ainda não tenho asas - espero tê-las um dia - tive de me conformar com a marcha lenta do autocarro da Macon. Contudo, como na vida nem sempre tudo está mal,  fui desfrutando a paisagem que, entretanto,  parecia mais fascinante.

Verdes  pradarias estendiam-se da estrada até às montanhas  onde se podia divisar de cima a baixo o serpentear de riachos prateados. À entrada da Canjala, uma manada de bois, apascentada por uma rapariga de seus 14/15 anos, atravessava a estrada e então tivemos que parar. A menina, um tanto preocupada, corria atrás dos animais, obrigando-os a  sair depressa da estrada.

O meu filho, o Zé, meu companheiro nessa aventura, comovido, perguntou-me se ela, a pequena, conseguia levar a pastar aqueles bois todos. Respondi que sim, mas que aquilo não era trabalho para uma criança.

No Lobito, fomos recebidos como se príncipes fôssemos. Minha mãe não cabia em si de contente, posto que fazia cinco anos  que não via  ”tão ilustres visitantes”.

No dia seguinte , levei o miúdo a passear pelas ruas do meu Lobito. Nos mangais que restam, alguns flamingos, com as cabeças mergulhadas na água, "pescavam”. Na ponta da Restinga,  mostrei ao Zé o histórico barco Zaire, que levou o saudoso Presidente Zé Du ao Congo. O rapaz não queria acreditar, mas convenci-o depois de uma rápida pesquisa na Net. E como não podia deixar de ser, fui mostrar ao ndengue a escola Comandante Valódia, no Compão, onde fiz a 5ª e 6ª classes, só para ele ver a distância que o pai dele percorria a pé para chegar à escola. O miúdo ficou de boca aberta. Então, lhe falei só já assim:

"Pois é, filho, no meu tempo não havia táxi nem Kupapata. Agora vocês, até para ir à cozinha se servir, querem apanhar mota”.

Visitada que estava a cidade em marcha do Lobito, no outro dia rumámos para a acolhedora cidade das acácias rubras, onde nos esperava a brisa da refrescante e renovada praia Morena.

Como estava um frio de rachar, só cumprimentámos as águas da Moreninha, molhando os pés, tendo ela respondido à saudação com uma gigantesca onda, que veio espalhar-se espumando pela praia toda.

Depois,  em visita ao Cavaco, desci a sua pedregosa margem e fui deitar-me preguiçosamente no meio do seu leito, pois que nessa altura do ano, o rio estava sem água, e portanto, não havia o risco de ser atacado por um jacaré. Quando, enfim, chegou o tão esperado dia 17 desse friorento mês de Agosto, dia em que completei os meus 50 anos, a família juntou-se para a festa. Recebi tantas declarações de carinho que, às tantas, não consegui segurar as lágrimas e chorei. Chorei, mas aquele choro sabia à felicidade.

E então, pronto... Terminaram as férias, peguei nas minhas vikwatas e vim mbora pra Luanda, mas o canuco não quis vir comigo. Queria curtir mais um pouco a terra que viu o pai dele nascer.

Catê mais. 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião