Reportagem

Quando a Net é usada para burlar, chantagear e ofender pessoas

André da Costa

Jornalista

Em Angola, centenas de casos dão entrada nos piquetes do Serviço de Investigação Criminal e da Polícia Nacional com casos do género, tendo-se detido muitos indivíduos, dos quais alguns aguardam julgamento

08/02/2022  Última atualização 08H05
© Fotografia por: DR
Noite de sábado, 5 Janeiro. Aldemiro João, 50 anos, recebe um pedido de amizade através da rede social facebook, de Ana Patrícia. A foto bonita da jovem, exibida no perfil, chama atenção de Aldemiro que, sem hesitar, aceita de imediato, convencido ser alguém sincera e honesta, rara nos dias que correm em Luanda.

Trocam mensagens abordando a vida quotidiana. Ana Patrícia pergunta se o novo amigo é casado ou tem compromisso, pelo que Aldemiro responde positivamente. Os dias passam e ambos falam diariamente já com alguma intimidade.

Numa quarta-feira, de noite, os novos amigos transformados em namorados virtuais, trocam fotografias intimas. Aldemiro envia fotos a exibir os órgãos genitais, como pénis erecto, e Ana, por sua vez, envia fotos das suas partes íntimas.

Convencido que tem uma nova paixão e já com as condições para o primeiro encontro, em Viana, o inesperado acontece: logo pela manhã, Aldemiro João recebe um telefonema de Yano Macuenda, alegando ser tio de Ana Patrícia, acusando-o de andar a assediar a sobrinha menor de 14 anos e prometendo levar o caso à Polícia Nacional e Serviço de Investigação Criminal ou  divulgar várias fotos trocadas com a sobrinha, nas redes sociais, caso não pagasse.

Aldemiro congela, perde as forças e pede algum tempo para arranjar o tal dinheiro. No dia seguinte, Aldemiro recebe outro telefonema de um suposto comandante de Polícia, alegando estar em posse de uma queixa-crime que compromete a vida de Aldemiro.

Os dias correm e Aldemiro já não consegue dormir, nem trabalhar em condições, com receio de ver exposto a sua intimidade na internet. O falso tio exige oito milhões de kwanzas para abafar o caso. Aldemiro só tem seis. Vende alguns pertences e transfere o dinheiro para o suposto tio. Aldemiro foi incentivado pela suposta namorada para assim o fazer e se livrar dele. Afinal era tudo combina.

Os dias passam e de um dia para o outro Aldemiro emagrece de tanto pensar. A internet virou pesadelo. Decide contar o caso à esposa, que estava preocupada com o emagrecimento acelerado do marido, que não come em condições há vários dias. O casal vai ao SIC-Luanda e apresenta queixa-crime. Os investigadores concluem tratar-se de uma burla.  O suposto tio desligou os telefones e a suposta namorada apagou a conta no facebook e desligou os telefones. As investigações estão em curso para esclarecer o caso.

Há, também, o registo de vários cidadãos vítimas de burla por intermédio do cartão multicaixa express. O SIC-Luanda reporta o caso de um empresário cuja conta sofreu um ataque cibernético, depois de os burladores pedirem, mediante mensagem telefónica, para actualizar o cartão Multicaixa Express.

Sem desconfiar, o empresário forneceu os dados para actualização do cartão multixcaixa express. Os burladores clonaram o cartão, fazendo pagamentos e transferências no valor de 68 milhões de kwanzas.

No princípio do mês de Janeiro, Arlete de Fátima viu retirada na conta da sua empresa de construção civil a quantia de 18 mil dólares, via transferência bancária de forma fraudulenta.
A acção foi feita por três cidadãos, que, através das redes sociais, conseguiram ter acesso aos dados pessoais da empresária  e depois transferiram os valores.


  Crimes mais badalados

A internet é o conjunto de redes de computadores espalhados por  todas as regiões do planeta, onde as pessoas conseguem trocar dados e mensagens. Este protocolo compartilhado pela internet é capaz de unir vários usuários particulares, entidades de pesquisa, órgãos culturais, institutos militares, bibliotecas e empresas de todos os tipos em um mesmo acesso.

A internet traz uma extensa gama de recursos de informação e serviços, possuindo um alcance e abrangência, ajudando  médias electrónicas e impressas, uma vez que uma informação pode ser acessada de qualquer lugar do mundo e a qualquer hora. Se por um lado ela é vantajosa porque permite que a informação estaja próxima, as pessoas de má-fé usam-na  para o mundo do crime, como burlar cidadãos.

Quer em Angola, quer em outras partes do mundo, a internet que veio revolucionar e aproximar a comunicação entre as pessoas, empresas e instituições, está a ser aproveitada por indivíduos de má-fé para prejudicar  vários  cidadãos honestos.

Nos dias que correm em Angola, essencialmente Luanda, são vários os crimes cometidos por intermédio da Internet, via redes sociais como facebook, instagram, watsap, com destaque para  roubos, burlas, assédios sexuais, atracção de jovens para a prostituição, falsos perfis de mulheres e empresários e entidades publicas. Há ainda falsos perfis sobre venda de carros, de eletrodomésticos, telefones e actualização de multicaixa express.
 
De acordo com informações disponibilizadas pelo SIC-LUANDA, alguns dirigentes e responsáveis de empresas apresentaram queixa crime , por verem criados perfis falsos nas redes sociais.
José Santana, 50 anos, foi participar o desaparecimento da filha Camila Santos, de 17 anos, ao SIC-Luanda. A adolescente foi para à escola e não regressou.

Segundo o SIC-Luanda, ela foi atraída por uma falsa publicação nas redes sociais, de uma agência de modelo. Posta no local, a adolescente Camila Santos foi feita refém e obrigada a prostituir-se.
O Serviço de Investigação Criminal dá conta, também, dos casos de duas jovens que acabaram mortas depois de marcarem encontros por via do facebook, na Ilha de Luanda e no Cazenga. Antes foram violadas.   
   
O mau uso dessa ferramenta por parte de alguns  jovens e grupos de marginais   tem prejudicado muitos cidadãos, que, num ápice, deparam-se com a invasão da sua vida privada, mediante publicação dolosa ou não da sua vida íntima.

Há homens que se fazem passar por mulheres, criando falsos perfis. Há casos em que algumas raparigas simulam, através das redes sociais, o seu próprio sequestro, quando, afinal, estão em casa do namorado, como sucedeu com a jovem Neusa Matilde, 18 anos, que saiu para trabalhar e simulou sequestro duas semanas depois , tempo que esteve com o namorado.

De acordo com o SIC-Luanda, são vários crimes cometidos por intermédio das redes sociais ,sendo também o caso de ultraje contra Políticos, dirigentes, jovens exibindo armas de fogo e prometendo morte de pessoas, apelando à violência, à  rebelião e à desordem pública.


Detidos por crimes cibernéticos

A burla de 12 milhões de kwanzas em duas pessoas, através da internet, causou a detenção de um jovem de 34 anos. O golpe às contas dos pacatos cidadãos foi feita mediante pedido de actualização do cartão multicaixa express. Um dos lesados tem 60 anos. O crime ocorreu no dia 19 de Outubro do ano passado, depois de os  lesados fornecerem dados pessoais ao detido, que clonou o cartão multicaixa e fez transferências bancárias.

No dia 25 de Dezembro, o mesmo jovem e seu grupo burlaram um cidadão e uma em-presa, perfazendo 12 milhões de kwanzas.  
As diligências realizadas pelo Serviço de Investigação Criminal têm resultado no desmantelamento de grupos de criminosos que praticam crimes informáticos, através das redes sociais.

O Jornal de Angola sabe que a maior parte dos cidadãos que se dedica a esse tipo de crimes é proveniente da província de Cabinda.
Os investigadores desconfiam que a aproximação e convivência com os cidadãos da República Democrática do Congo, com habilidades em informática, pode estar na origem dessa realidade.


Da província de Cabinda para Luanda para burlar 

Centenas de casos de burla através das redes sociais chegaram ao conhecimento do SIC e Polícia Nacional, sendo que muitos foram esclarecidos e os processos encaminhados a Tribunal para julgamento. Os departamentos de combate ao crime organizado e crimes informáticos do  SIC-LUANDA  estão a dar  tratamento a  vários casos, muitos dos quais já esclarecidos.

Na semana finda, cinco cidadãos com idades entre 20 e 32 anos foram detidos numa residência, em flagrante delito, no Distrito Urbano da Samba, em Luanda, por  envolvimento numa rede criminosa, que se dedicava à criação de perfis falsos nas redes sociais Facebook e Instagram.

O grupo saiu propositadamente de Cabinda para Luanda com a finalidade burlar várias pessoas. Criavam perfis falsos de governantes, empresários, instituições públicas e privadas. Também criavam websites falsos da Empresa Emis, com aplicativos do Multicaixa Express falso, com o qual realizam diversas burlas.

A rede foi descoberta quando uma jovem de 20 anos, integrante do grupo, acabou detida  no dia 29 de Janeiro, por falsificar o Bilhete de Identidade de uma outra cidadã, com o qual pretendiam ter acesso à segunda via do número telefónico.

A mesma foi detida com a colaboração da operadora móvel Unitel. Os restantes quatro integrantes do grupo foram detidos segunda-feira, 31 de Janeiro. O grupo arrendou uma casa na Samba, que funcionava como "quartel general", onde os mesmos, com vários telemóveis, cartões SIM, cartões Multicaixa, bilhetes de identidade falsos e um dispositivo de clonagem de cartões, burlavam várias pessoas..

O porta-voz do SIC-Geral Manuel Halaiwa, acentuou que a rede geria duas páginas falsas do Website da Emis,  com aplicativo Multicaixa Express,  a partir do qual enviavam para o Facebook um formulário falso para renovação do aplicativo Multicaixa Express, por via do qual acessavam várias contas bancárias e subtraíam dinheiro.

O grupo de malfeitores geria uma página falsa de uma suposta empresa de venda de viaturas e mobiliário denominada "Target Comex Lda". Geriam ainda perfis falsos no Facebook, sendo dois em nome dos ministros da Agricultura e Pescas, António Francisco de Assis, e dos Transportes, Ricardo Viegas de Abreu, que por sinal fez uma queixa-crime por existência de mais de oito   perfis falsos criados em seu nome, e um em nome do Empresário António Sassova Laurindo.

Há ainda uma outra conta da rede social Instagram em nome do então director executivo da Taag, Rui Carreira. Com estás contas os indivíduos contactavam várias pessoas com o único objectivo de burlar. Foram  apreendidos quatro telemóveis, nove cartões multicaixa de diversos bancos, oito  cartões SIM, bilhetes de identidade falsos e um dispositivo de clonagem de cartões.


Conselhos a reter

O SIC alerta aos cidadãos utentes de aplicativos de pagamentos ou movimentos de contas bancárias a terem cuidado na utilização, para não serem alvos de burlas. O SIC apela aos cidadão no sentido de denunciarem às autoridades os indivíduos  que criaram falsos perfis nas redes sociais em seu nome.

O SIC alerta, igualmente, no sentido de evitarem pedidos de amizades de pessoas estranhas e  fornecerem dados pessoas a desconhecidos. O SIC entende que vários cidadãos estão a tomar consciência das burlas e andam mais atentos, sendo que muitos que tentam burlar são logo desencorajados.


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