Opinião

Quando a amizade sabe à manga

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Tínhamos a mesma idade quando, com onze anos, a polpa de uma manga que o seu irmão mais velho (ou alguém qualquer da sua família) trouxe de Cuba uniu-nos para sempre. Estudávamos a quinta classe, no Colégio São José do Cluny, em Luanda: os dois éramos ainda uns meninos.

22/11/2022  Última atualização 05H45

Ela chamava-se Bernadeth. Desde o primeiro instante pareceu-me que, mesmo estando inscrito no modismo da época, tínhamos nomes de senhores mais velhos o que, por si só, impunha responsabilidade e pressão sobre nós, desde tão terna idade. Ela sentava-se imediatamente atrás de mim, já que eu era o último aluno com um nome que começa coma letra A e ela a primeira dos que tinha o nome que começava com a letra B.

A primeira vez que, estando na minha carteira olhei para trás, vi-a a sorrir e chamou-me atenção o seu aspecto de menina saudável, com a cara arredondada. Depois descobri que era uma pessoa serena, com uma alegria contida e falava num tom baixo de voz como se murmurasse. Não me recordo se, ainda petizes, alguma vez ela terá tentado fazer-me festinhas à cabeça ou cócegas ao ventre nem se, para além de nos vermos na sala de aula, ainda em Luanda, teremos coincidido em qualquer outro sítio que não fosse nos corredores na escola.

Aquela manga carnuda não passou despercebida: o tamanho da fruta era muito maior do que todas as outras que eu já tinha visto e comido antes. Por isso, eu quero sempre recordar que o tamanho dela emulava com o tamanho da minha cabeça. Se ao longo de muitos anos, de quando em vez, recordávamos o espanto que a manga nos causou, era porque ela resultou ser o prenúncio de uma amizade que durou quarenta e três anos. Conhecemo-nos em Luanda, em 1979. Quatro anos depois, em 1983, ela foi para Cuba. Eu já estava lá a estudar.

Ainda me recordo da alegria que sentimos quando nos reencontramos longe da nossa terra, na maior dentre as ilhas do mar Caribe: fundimo-nos num abraço, enquanto pensávamos na cor, na textura e no sabor da fruta que degustámos anos antes. Soube que tinha mais duas irmãs, a Ruth e a Zizi com quem, como as "Três Graças”, lhe via a andar sempre, de um lado para o outro fazendo brotar amizade, sentido de alegria e claridade onde querque passassem.

Da Ilha da Juventude ao Instituto Superior de Ciências Agrárias de Havana (ISCAH) e, depois, em Luanda e na cidade de Valencia, em Espanha, onde viveram e estudaram durante alguns anos, a Deth, o Camilo José e a família que ambos formaram estiveram sempre, de certa forma, por perto, no nosso radar.

A brincar e com alguma nostálgica presunção, até hoje, eu ainda chamo Camilo Cienfuegos ao Camilo José e ele, não sei bem porque razão, - intuo que seja por eu ter sido um adolescente falador e resmungão -, ele chama-me por Fidel. Quando nos ouvisse a brincar, a Deth ria-se e ria-se das nossas parvoíces: nesse gozo, entre o mau gosto e a admiração, em que substituímo-nos àqueles guerrilheiros cubanos de intermináveis falas, a nossa amizade foi tendo muito mais peso e significado do que o de partilhar uma manga ao lancharmos, no intervalo da escola. 

Nos últimos anos, já em Luanda, com a azáfama que o dia-a-dia nos impõe, fazia muito tempo que não ouvia a voz sussurrante da Bernadeth: quando ela soube que estava doente optara pela ausência e pelo recolhimento. Daí que, eu que não sabia nada disso assustei-me quando, de repente, a colega e amiga Tina Mendes, comentou a terrível notícia sobre o falecimento da Deth. 

Ela ainda testemunhou em vida o Outubro Rosa deste ano. Lamentavelmente, depois de vários anos de discreto sofrimento, faz hoje dezasseis dias desde que Bernadeth Beatriz Guilherme Alexandre José (Deth) morreu, por causa de um cancro de mama: para além da família, a notícia comocionou os membros da "Associação Os Caimaneros” e, particularmente, daqueles que a conheceram.

Quanto a mim, se vos contei esta história foi, por um lado, para recordar às mulheres que todos os dias são rosa e que a despistagem do cancro de mama é primordial. Por outro, fi-lo para homenagear uma das primeiras amigas sinceras que tive na vida, no dia em que também encerro este ciclo de crónicas sinceras, testemunhas do meu olhar e das minhas interpretações a quente sobre as realidades sociais, políticas, económicas e culturais com que me fui confrontando, ao longo dos últimos quatro anos.

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