Sociedade

Psicóloga e sociólogo defendem que violência contra a mulher seja considerada questão de saúde pública

Edna Mussalo

Jornalista

“Uma em cada três mulheres, aproximadamente 736 milhões, já sofreu algum tipo de violência física ou sexual, praticada pelo parceiro, diz a psicóloga Suzana Diogo, acrescentando que numa sociedade tão africanizada como a nossa é quase inadmissível uma mulher abster-se da prática sexual com esposo, por alguma indisposição física ou psicológica.

25/11/2021  Última atualização 08H50
© Fotografia por: DR
 Para o sociólogo António Catemba, o assunto deve ser discutido todos os dias e talvez reforçado nos currículos das escolas do ensino secundário, de modo a termos uma melhor consciência colectiva”. À reportagem. A violência contra a mulher deve ser vista como uma questão de saúde pública, defendeu, esta quarta-feira(24), em Luanda, a psicóloga Suzana Diogo, acrescentando que, lamentavelmente, ainda vivemos numa sociedade carente de princípios éticos e morais.

"É pena que a grande maioria entende a violência doméstica como sendo apenas actos físicos, mas é importante refazer esse conceito, incutindo nas pessoas que todo acto, desde o mais subtil ao mais evidente, que lese a moral, psicológica ou fisicamente outrem constitui acto de violência", reforçou.

Suzana Diogo disse ser importante referir que, além da violência doméstica, existirem outras formas de agressão contra a mulher, como a exploração e abuso sexual, mutilação genital, casamento forçado ou precoce, relacionamentos abusivos e outros.

A psicóloga adiantou que, com base em dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada três mulheres, aproximadamente 736 milhões, já sofreu algum tipo de violência física ou sexual, praticada pelo parceiro.

"Podemos dizer que toda acção violenta contra a mulher tem efeitos sobre a sua saúde mental. Todo acto de violência interfere com a vida da vítima directa e indirectamente, como por exemplo as crianças, que, segundo estudos, aprendem por observação e acabam traumatizadas, ao ver a mãe ou a irmã a ser agredida", explicou.

Acrescentou que existem outras formas e actos de violência contra a mulher que têm tido pouca atenção. "Embora seja um assunto tão popular, ainda estamos muito longe de erradicar a violência, pois vivemos cada vez mais numa sociedade repleta de machismo, preconceitos e discriminação contra a mulher".

Em Angola, lamentou, a justiça ainda não pesa tanto sobre os agressores, fazendo com que muitas vítimas permaneçam em silêncio, por falta de apoio legal, psicológico e até médico. "Uma forma silenciosa de violência doméstica é o abuso sexual no relacionamento, caracterizado pelo sexo não consentido. Numa sociedade tão africanizada como a nossa é quase inadmissível uma mulher abster-se da prática sexual com o esposo por alguma indisposição física ou psicológica. Quando ela consegue ter uma certa autonomia corporal, infelizmente é vista como desrespeitosa ou ainda acusada de traição", criticou.

Em muitas sociedades, acrescentou, as mulheres vivem com estereótipos e caso não sigam o padrão de comportamento estabelecido são encaradas como anti-sociais ou autoritárias.

"A mulher vítima de violência pode se tornar agressiva e nalguns casos recorrer ao suicídio ou homicídio, como forma de acabar com o sofrimento", sublinhou Suzana Diogo, que  acredita que nem todas as mulheres entendem quando estão diante de um relacionamento abusivo, por desconhecimento total do fenómeno ou porque o "parceiro" faz questão de justificar as acções como demonstração de amor.

"A OMS reforça que a violência conjugal é a forma de violência contra a mulher mais recorrente no mundo e afecta 641 milhões de vítimas".

No país, destacou, muito se fala de violência psicológica, moral e outras, mas, na realidade e ao que parece, as únicas puníveis são a física e a sexual, facto que é lamentável. "É importante que cada mulher vítima de violência saiba procurar ajuda e cada uma se doe ao diálogo com alguém de confiança e nunca manter-se calada", apelou.

Sociólogo é a favor da divulgação da Lei 

O sociólogo António Catemba considera negativa a violência contra a mulher, que não deve ser recordada apenas no dia 25, altura em que se celebra o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher.

Geralmente, explicou, o fenómeno tende a ter dimensões mais amplas em comunidades ou em sociedade, cujas famílias são muito vulneráveis.

O grupo etário mais afectado é o das mulheres dos 15 aos 39 anos. "É neste grupo alvo onde se verifica maior número de assédios e violações sexuais contra as mulheres. "Actos do género envergonham o sistema judicial angolano, que muitas vezes não presta atenção especial às mulheres mais vulneráveis", lamentou.

Para António Catemba, a data deve servir para se fazer um trabalho profundo na moralização da sociedade, para a construção de um homem novo. "Infelizmente, só relembramos quando avizinha-se a efeméride", criticou, acrescentando que há necessidade de maior democratização de informação, de modo a salvaguardar os direitos das mulheres.

"Precisamos fazer mais para que os infractores sintam que viver em sociedade requer respeito das normas sociais. O assunto deve ser discutido todos os dias e talvez reforçado nos currículos das escolas do ensino secundário, de modo a termos uma melhor consciência colectiva", concluiu.


Surgimento da efeméride


O Dia Internacional de Combate à Violência contra as Mulheres celebra-se todos os anos a 25 de Novembro. A data visa alertar a sociedade para os vários casos de violência contra as mulheres, nomeadamente casos de abuso ou assédio sexual, maus tratos físicos ou ­psicológicos.

Em 1999, as Nações Unidas (ONU) designaram oficialmente o dia 25 de Novembro como Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. Desde então tem sido comemorada no mundo.

A data está relacionada com a homenagem às irmãs Pátria, Maria Teresa e Minerva Maribal, presas, torturadas e assassinadas em 1960, a mando do ditador da República Dominicana Rafael Trujillo. As irmãs tornaram-se um símbolo mundial de luta contra a violência que vitimiza mulheres.
 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Sociedade