Especial

Psicóloga critica resistência à consulta de saúde mental

Edna Mussalo

Jornalista

A especialista considera urgente a implementação de um gabinete psico-pedagógico em todas as instituições de ensino, para que os utentes, alunos, professores e colaboradores, sejam devidamente acompanhados”

30/08/2021  Última atualização 08H45
© Fotografia por: DR
A psicóloga clínica Suzana Diogo critica os tabus sociais, como a resistência de muitas pessoas em consultar profissionais de saúde mental, em casos de doenças deste foro entre os seus entes.Em muitas sociedades, em particular a angolana, disse, as pessoas preferem evitar esses serviços, para não sofrerem discriminação preferindo o silêncio.
"Quando alguém diz vou ao psicólogo ou marcar uma consulta com o psiquiatra, a primeira ideia que surge, na maioria dos casos, é que esta pessoa está maluca, louca ou prestes a enlouquecer”, exemplificou.Em Angola, informou, há um número muito reduzido de instituições de ensino e não só, onde se verifica a presença do psicólogo."É urgente a implementação de um gabinete psico-pedagógico em todas as instituições de ensino, para que os utentes, alunos, professores e colaboradores, sejam devidamente acompanhados”.
A especialista acrescentou ser necessária, também, a avaliação psicológica nos concursos públicos, "de forma a certificar as condições psicológicas dos participantes”.Com o surgimento da pandemia, adiantou, a incerteza e o medo em relação ao futuro tomaram conta da maioria das pessoas que viveu ou ainda vive esta realidade, fazendo com que haja um aumento nos níveis de stress e ansiedade.
"Uma das condições impostas, com a chegada da pandemia, é o isolamento social, que, por um lado, salvou vidas, mas, por outro, prejudicou a saúde mental. O isolamento social contínuo é prejudicial à saúde mental e é capaz de desencadear fortes emoções, como raiva, medo, irritabilidade, ansiedade e depressão”, disse.
A especialista esclareceu que os profissionais da linha da frente, parentes de doentes, pessoas que perderam ente-queridos devido à Covid-19, têm maior probabilidade de desenvolver a perturbação do "stress pós traumático”, devido aos longos períodos de exposição em situações stressantes e que envolvam mortes.Associado a este facto, revelou, estão os inúmeros casos de violência doméstica e desemprego, que aumentaram com o aparecimento da pandemia.
"Dados da OMS apontam que todas as pessoas sofrem directa ou indirectamente os efeitos psicológicos da doença, não apenas pelo medo de serem contagiadas, mas também pelo stress provocado pelas desigualdades socioeconómicas e pelo confinamento”.

Indiferentes às idades
Os transtornos psicológicos e psiquiátricos, ou qualquer outra anormalidade relacionada à saúde mental, esclareceu Suzana Diogo, podem acometer-nos em qualquer idade."Há transtornos diagnosticados em crianças muito pequenas, como o de apego reactivo, do luto complexo, assim como em pessoas mais velhas, como as demências e a depressão”.
A psicóloga adianta que existem falsos conceitos em torno da saúde mental que precisam de ser eliminados e uma forma de o fazer é pela partilha do conhecimento."Quando se ouve falar de saúde mental, associa-se imediatamente à loucura. Mas, como referi, o conceito mais acertado está longe desta realidade. Para uns, a saúde mental ainda é entendida como desnecessária, um processo caro e moroso. Para outros, questões do género são solucionadas por amigos, kimbandeiros, curandeiros, líderes religiosos e tradicionais, que não garantem cientificidade nesta matéria, apesar do papel crucial no processo de recuperação”, esclareceu.
Para a psicóloga, há quem acredite que cuidar da saúde mental é sinónimo de fraqueza ou de falta de autonomia, mas é errado. Suzana Diogo contou  que, dentre os problemas mais comuns, decorrentes da actividade laboral, o stress, a depressão e a "Síndrome de Burnout”, caracterizada pelo esgotamento físico e mental, fruto do trabalho prestado, enquanto profissional."Uma empresa que pretender ser produtiva deve cuidar, promover e proteger a saúde mental do capital humano”, reforçou.


Mais atenção
A OMS - Organização Mundial da Saúde tem trabalhado no sentido de promover e cuidar da saúde mental a nível mundial.Dévora Kestel, directora do Departamento de Saúde Mental e Uso de Substâncias da OMS, ressalta a necessidade de investir cada vez mais em saúde mental, garantir fácil acessibilidade e capacitação constante dos recursos humanos para que possam oferecer saúde mental de qualidade.
A organização tem trabalhado no sentido de melhorar a saúde a nível mundial, encorajando os países na adopção de medidas mais acertadas possíveis para evitar os riscos inerentes à saúde pública e garantir qualidade de vida.A depressão, por exemplo, é um dos problemas de saúde mental que mais afecta a população mundial. Segundo dados, é a segunda causa principal de suicídio no mundo em pessoas com idade entre 15 e 29 anos.
Os dados estimam ainda que mais de 300 milhões de pessoas, independente da idade, tenham depressão, sendo a maioria do sexo feminino. É uma questão de saúde pública que deve ser encarada com seriedade.A depressão surge de forma silenciosa: começa com sintomas leves, como desinteresse por actividades que antes se fazia com muito prazer, mudanças no apetite, tristeza, isolamento e outras alterações, que, nalguns casos, são encarados como "frescura” ou "capricho de quem sente”. A depressão, em casos mais graves, pode levar ao suicídio.

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