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Protestos nas ruas de Londres contra medidas de Liz Truss

Milhares de britânicos saíram, este sábado, às ruas de Londres em protesto contra o aumento do custo de vida, após uma semana de caos nos mercados financeiros.

02/10/2022  Última atualização 06H30
Milhares de pessoas estiveram ontem nas ruas da capital inglesa para se manifestarem contra as medidas económicas © Fotografia por: DR

"O novo Governo conservador de Liz Truss havia prometido acção imediata para lidar com a crise, mas o anúncio na semana passada de cortes de impostos destinados aos mais ricos, provocou mais raiva e incompreensão do que qualquer outra coisa”, escreve a agência France-Presse.

Os manifestantes que ontem convergiram para Westminster, no Centro de Londres, que responderam ao apelo de várias organizações, exibiram cartazes com mensagens como "Apoie as greves”, "Congelam os preços, não as pessoas” ou mesmo "Impostos para os ricos”.

Lily Holder, uma manifestante de 29 anos, disse que "as pessoas estão fartas” e "o Inverno, que promete ser rigoroso para muitas famílias que lutam para pagar suas contas, vai mostrar a real crueldade” do Governo.

"Não posso pagar, não vou pagar”, gritavam manifestantes do lado de fora da estação de King's Cross, enquanto queimavam reproduções de contas de energia.

Activistas climáticos do grupo "Just Stop Oil”, que participaram no protesto, bloquearam várias pontes de Londres, pedindo ao Governo conservador que "resolva a crise do custo de vida e a crise climática, interrompendo novos investimentos em petróleo e gás”.

Os conservadores reúnem-se a partir de hoje em Birmingham, para o seu Congresso anual e, de acordo com a imprensa britânica, já estão a chegar cartas contra Liz Truss.

"Alguns conservadores ficaram surpresos com os anúncios orçamentários imprecisos que ela fez, enquanto outros já sentem falta do ex-Primeiro-Ministro Boris Johnson, apesar das suas travessuras e mentiras”, refere a France-Press.

De acordo com a agência noticiosa francesa, a maioria dos britânicos saudou friamente o "mini-orçamento” apresentado pelo Governo na semana passada.

Os anúncios também deixaram os mercados em pânico e levaram a libra esterlina a uma baixa histórica, levando à intervenção do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Inglês (Bank of England).

O ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, disse, na sexta-feira, para justificar os cortes maciços de impostos, que "não fazer nada não era uma opção”.

"Imagine o custo para a economia do Reino Unido o desemprego em massa, um colapso no consumo e as empresas a fechar”, afirmou.

Kwarteng prometeu um plano para reduzir a dívida no médio prazo, mas a agência de classificação Standard & Poor's foi céptica, revendo para baixo a sua previsão para a sustentabilidade da dívida soberana britânica.

As mobilizações de protesto, que se multiplicaram desde Junho em todos os sectores, foram retomadas após uma trégua observada após a morte de Elizabeth II, em 8 de Setembro.


  Primeira-Ministra admite falhas

Liz Truss admitiu que o anúncio do seu plano fiscal para estimular o crescimento causou "alterações” na economia nacional, mas insistiu que actuou "de forma decisiva” para controlar as finanças do país.

Em declarações divulgadas, ontem, pelo jornal The Sun, citadas pela EFE, a Primeira-Ministra britânica voltou a justificar o polémico programa com o qual pretende promover o crescimento económico no Reino Unido, que tem causado instabilidade nos mercados e afundado a libra.

"Vou fazer as coisas de forma diferente. Isso implica tomar decisões difíceis e implica causar alterações de curto prazo”, reconheceu Truss ao jornal.

A líder conservadora também reiterou o seu compromisso de "fazer a economia crescer” com medidas para estimular o crescimento em oito áreas: regulação de negócios, agricultura, habitação e planeamento, imigração, conexões móveis e de banda larga, serviços financeiros, creches e energia.

Truss também disse ao tabloide que manterá "um punho de ferro sobre as finanças nacionais”.

Quando o Governo britânico revelou os detalhes do chamado "mini orçamento”, com cortes maciços de impostos, não apresentou, como é habitual neste tipo de declaração, os balanços económicos para a economia do país, algo que preocupou investidores e obrigou o Banco de Inglaterra a intervir, anunciando uma compra de emergência de títulos soberanos.

Até agora, a Primeira-Ministra rejeitou pedidos de vários sectores para reverter os cortes, embora tenha indicado, esta semana, que divulgará as perspectivas do órgão fiscalizador do país, o Gabinete de Responsabilidade Orçamental , em 23 de Novembro, no mesmo dia em que se espera que o ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, divulgue mais planos para a economia.

O plano de Liz Truss prevê a reversão do aumento da contribuição para a Segurança Social, em vigor desde Abril e o cancelamento da subida prevista para os impostos sobre as empresas.

O plano contempla ainda a extinção, em 2023, do escalão superior de 45% dos impostos sobre os rendimentos de pessoas singulares, a descida de 20% para 19% no escalão mais baixo e um desconto imediato no imposto sobre a compra de habitação.

O custo da maior intervenção fiscal em décadas foi estimado em cerca de 45.000 milhões de libras (51.000 milhões de euros), ao qual acresce 60.000 milhões de libras (68.000 milhões de euros) do pacote de apoio para a energia só nos primeiros seis meses, tudo suportado pelo Estado.

Estas medidas não foram acompanhadas por previsões económicas independentes do OBR nem planos para reduzir a despesa, o que levantou dúvidas de economistas e agências de rating sobre a sustentabilidade da dívida pública, actualmente em 96,6% relativamente ao Produto Interno Bruto (PIB).

Os juros da dívida britânica a 10 anos aumentaram 325% este ano, tornando muito mais caro ao Governo vender obrigações para financiar políticas.

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