Opinião

Proteger o património

Cândido Bessa

Director Adjunto

Um património histórico, arqueológico, natural ou ambiental tem um valor incalculável. Não se troca por milhões de dólares. Principalmente quando tem reconhecimento mundial, como é o caso da cidade histórica de Mbanza Kongo, fundada no século XIII.

25/07/2021  Última atualização 09H12
O nosso até agora único local com estatuto de Património Mundial da Humanidade (em África são mais de 90) reúne um conjunto de valores: histórico, arqueológico, natural e ambiental. Até de manifestações e rituais, de importância mundial incalculável. Por isso, é dever de todos preservá-lo e publicitá-lo. É preciso lutar para que outros mais patrimónios espalhados por todo o território nacional, alguns já reconhecidos  internacionalmente, ganhem, igualmente, o prestigioso selo da UNESCO. São os casos do Cuito Cuanavale, o Corredor do Cuanza e o Morro do Tchitundo Hulo, no município do Virei, no Namibe, com as suas gravuras e pinturas rupestres, consideradas das mais belas da Pré-História existentes em Angola. Os locais podem já ser candidatos no próximo ano. O selo da UNESCO dá a locais históricos acesso a fundos de conservação da ONU, além de aparecer em guias turísticos em todo o mundo.

Vem tudo isso a propósito da retirada da cidade de Liverpool da lista de Património Mundial da Humanidade. Não é que Mbanza Kongo corra este risco. Desde que recebeu o selo, as autoridades angolanas "lutam” para cumprir as recomendações feitas, em 2017, pela Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura, na altura do reconhecimento.

Recentemente, foi notícia de que mais de 50 por cento das exigências já foram cumpridas. Por exemplo, foram retiradas as antenas de Rádio, Televisão e Comunicações do perímetro da capital do antigo Reino do Kongo. É notável a preservação do cemitério, onde repousam os antigos reis do Kongo, da árvore secular conhecida por Yala-Nkuwu, que, segundo o mito, verte sangue quando sofre corte, numa alusão à coloração vermelha da seiva. Conservadas, também, estão as 12 fontes de água encontradas na circunscrição por Nimy a Lukeny (fundador e primeiro rei do reino), no século XIII, que simbolizam as 12 tribos do antigo Reino do Kongo. Há, agora, o compromisso de garantir condições de funcionamento eficaz dos sectores da educação, saúde, energia eléctrica, rede viária e, também, a transferência, até ao próximo ano, do actual aeroporto para fora da "zona tampão” do Património Histórico-cultural da Humanidade. Ficou, ainda, estabelecida a realização de estudos científicos, através de escavações arqueológicas, para aprofundar o conhecimento sobre a antiga cidade, dividida em seis províncias, que ocupavam parte das actuais República Democrática do Congo, República do Congo, Angola e Gabão.

A preservação destes locais históricos é indispensável para a prestigiada distinção. O "esquecimento” do valor incalculável ditou o destino da cidade dos Beatles, que há 17 anos entrou na lista. Motivo: "os novos edifícios prejudicaram a atractividade das docas vitorianas”.  Reconhecido pelo seu papel como um dos portos mais importantes do mundo durante os séculos  XVIII e XIX e pela beleza arquitectónica, Liverpool tornou-se no terceiro local a ser retirado da prestigiosa lista. Antes, tiveram igual sorte o santuário de vida selvagem em Omã, que ficou sem o título em 2007, após a caça ilegal e perda de habitat, e o vale do Elba, em Dresden, na Alemanha, em 2009, quando uma ponte de quatro pistas foi construída sobre o rio.

Depois de várias advertências, a organização cultural das Nações Unidas concluiu que os novos edifícios em Liverpool estavam a minar a "autenticidade e integridade” da cidade. Já as autoridades inglesas manifestaram surpresa. Falaram em decisão injusta, "incompreensível” e alegaram que o local "nunca esteve em melhores condições, tendo beneficiado de centenas de milhões de libras em investimentos”. Em nome da modernidade, a cidade perdeu o estatuto ganho em 2004, juntamente com a Grande Muralha da China, o Taj Mahal e a Torre Inclinada de Pisa.

Que a realidade de Liverpool ajude a reflectir sobre a forma como tratamos dos nossos vários patrimónios espalhados pelo país. Penso, por exemplo, no valor (pouco ou nada reconhecido) da região de Massangano e o local da célebre batalha de Angoleme Aquitambo, onde, em 1590, o Rei Ngola Kiluanje juntou cerca de um milhão de homens dos exércitos do Reino no Kongo, Matamba, Ndongo e Jagas, para derrotar os portugueses, liderados por Luís Serrão. Ou ainda a localidade de Mukulu-a-Ngola, município de Marimba, cerca de 226 quilómetros da cidade de Malanje, onde estão localizadas as sepulturas do Rei Ngola Kiluanji, da Rainha Njinga Mbandi e do irmão Ngola Mbandi. Local procurado por pesquisadores estrangeiros, ainda é quase desconhecido dos nacionais. Um historiador de cá contou, recentemente, ao jornal "Angoleme”, ter sido testemunha de uma brasileira que se deslocou do seu país para, em Mukulu-a-Ngola, realizar trabalhos de investigação sobre os soberanos do Ndongo. Sem hotéis ou sequer uma casa de passagem para os turistas pernoitarem, a investigadora brasileira encontrou abrigo na casa do soba, onde permaneceu durante os três dias de trabalho.

Em Luanda, também há histórias de arrepiar. Em nome da modernidade, edifícios e traços seculares são susbtituídos. O Palácio de Ferro, edifício histórico que se crê ser da autoria de Gustave Eiffel, o mesmo que desenhou a Torre Eiffel, em Paris, França, quase desapareceu.  As calçadas na Baixa de Luanda sumiram e há até um shopping a rivalizar com o Museu Nacional de História Militar (a antiga e célebre  Fortaleza de São Miguel), estrutura integrada  no sistema de Defesa Áerea de pontos sensíveis da capital. É verdade que o shopping  se tornou num marco no comércio na zona da Baixa de Luanda, pelos serviços modernos que traz: cinemas e lojas com marcas mundialmente reconhecidas.

Mas um shopping como o Fortaleza podia muito bem ser erguido no Cazenga, Viana ou noutro local da capital, por exemplo, e levar a concentração de comércio de qualidade diferenciada aos bairros, criando empregos locais e valorizando os vastos espaços hoje degradados.

Diante da perplexidade quase geral, não admira que, em nome da modernidade, surja alguém com a célebre ideia de eliminar o mar da Baía de Luanda para ampliar as construções e substituir a água por um piso de betão pintado em azul.

 

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