Reportagem

Projecto Cadeias de Valores é desenvolvido em Cabinda

Leonel Kassana

Jornalista

Em causa, está o Projecto Cadeia de Valores Agrícolas, que tem um financiamento do Banco Africano de Desenvolvimento, (BAD). No total, o valor ascende aos 123 milhões de dólares, dos quais 82 milhões do próprio banco e 16 milhões do Governo de Angola.

20/05/2022  Última atualização 07H00
Projecto Cadeia de Valores Agrícolas © Fotografia por: Edições Novembro

"Por conseguinte, está-se, aqui, a dizer que nem todo o valor é contribuição do BAD”, refere o coordenador do projecto, Josè Luís Fernandes, em declarações ao Jornal de Angola.

O engenheiro agrónomo adianta que, no essencial, o projecto está alinhado com duas componentes fundamentais, a primeira das quais o cumprimento dos  objectivos do Plano de Desenvolvimento Nacional, (PDN) até 2022. Está, também, em linha com alguns dos principais pliares, como a electrificação, desenvolvimento e industrialização da África.

"Essas são as componentes que nós temos que ter em conta para a implementação desse projecto”, sublinha José Fernandes.

Os beneficiários do projecto entram com uma pequena contribuição, considerada mesmo residual e que, no essencial, está mais ligada a despesas com a preparação dos campos agrícolas e todo o processo de limpeza dos caminhos para passagem dos tractores e equipamentos técnicos.

"Essa é a parte que tem a ver com o seu engajamento no Projecto Cadeias de Valores Agaricolas de Cabinda”, explica o seu coordenador José  Fernandes.

 

 A vez das culturas comerciais

Numa província considerada auto-suficiente em áreas como a produção da mandioca e banana, o Projecto Cadeia de Valores Agrícolas colocou no topo das prioridades o desenvolvimento das culturas comerciais, como o café, cacau e palmar, com o que se pretende levar as famílias a aumemtar a sua renda.

Entre essas culturas, o cacau, sobretudo, hoje é uma unanimadade em Cabinda quanto aos produtos com potencial para trazer à província mais investidores, em paralelo com uma aposta mais ousada dos empreendedores locais em pequenas unidades de transformação.

A cultura de cacau em Cabinda não é de hoje. No tempo colonial já tinha alguma visibilidade, com muita gente a trabalhar em fazendas, mas depois da independência houve um sério retrocesso, senão mesmo abandono, algo que começou a ser resgatado, por assim dizer, em 2019, havendo, hoje, já um resgisto notável de produtores nos quatro municipios.

Em 2021, pelo menos 252 unidades estavam ligadas à produção de cacau  em Cabinda, numa área de 300 hectares de que se esperavam uma safra de 150 toneladas. Belize é quem liderava com noventa unidades, com noventa e seis hectares, seguindo de Buco Zau, com oitenta e duas unidades totalizando mais de 81 hectares.

Quarenta propriedades agrícolas no município de Cabinda, com mais de 75 hectares também investiram na cultura do cacau, em 2021. Mais modestos foram os empreendedores de Lândana (Cacongo), com apenas 45 hectares na produção do cacau, mesmo envolvendo quarenta unidades.

Actualmente, estão envolvidos na produção do cacau pelo menos 1.200 produtores, num total de 580, dos quais 50 a 300 de médios agricultores, 10 a 50 para os de pequeno porte, enquanto propriedades familiares ocupam entre um a 10 hectares.

Para esse ano, preve-se a colheita de pelo menos 337 toneladas, segundo o coordenador do Projecto Cadeias de Valores Agrícolas de Cabinda, que adianta terem sido distribuídas 550 mil mudas de cacau.

Estes são cifras que estão muito longe, mas muito longe mesmo, de rivalizar com grandes produtores mundiais do cacau, como  a Côte d’Ivoire (2, 2 mil toneladas por ano), Ghana (811, 7 mil), Indonésia (784 mil), Nigéria (350,1 mil), Equador (283, 7 mil) ou Caramarões ( 280 mil). Só a  Côte d’Ivoire, que lidera o raking mundia, tem mais de 2 milhoes 851 mil hectares destinados à produção do cacau e o Ghana 1 milhão 683. 765 hectares. 

Porém, os números de Cabinda mostram uma clara aposta a indicar o início de um caminho que pode  trazer importantes recursos às famílias, que é, como se diz mais acima, o objectivo da Cadeia de Valores Agrícolas, numa altura de grande procura dos derivados do cacau, hoje mais valorizados no mercado internacional em relação ao café.

Aos produtores do cacau o Governo tem vindo a desenvolver, com sucesso notável, um programa de distribuição de mudas, a exemplo do café e palmar, precisamente por serem culturas para a comercialização, como acentua o coordenador da Cadeia de Valores Agrícolas de Cabinda.

Dir-se-ia mesmo que em Cabinda a reactivação da produção do cacau, em grande escala, está na ordem do dia. Neste altura, estão no Ghana técnicos e produtores em formação, como  explica José Fernandes.

Ele próprio acabava de regressar daquele país, que é só o segundo maior produtor mundial de cacau.

"O projecto tem uma componente muito forte, ligada  ao treinamento. Neste momento temos uma equipa de produtores dos municípios do Buco Zau, Cacongo e Belize, que estão a ser treinados para melhorarem as suas culturas e obterem melhores rendimentos”, explica José Fernandes, acrescentando que preve-se a criação de pequenas indústrias de transformação na província.

"Tudo isso vai de encontro com aquilo  que são os objectivos principais do projecto, mas tendo em conta o plano e as necessidades do crescimento e aumento da produção agrícola na província de Cabinda”, diz José Fernandes.

O projecto está, igualmente, a   introduzir modernas  tecnologias de produção, como equipamentos para a preparação de terras, sementeira, colheita e, pela pela primeira vez, trabalha com pequenos com médios agricultores, para aumentarem a produção de cereais e quantidades significativas de ração.

 

Fomento pecuário

Pode dizer-se, em bom rigor, que assiste-se em Cabinda a uma reviravolta para, progressivamente, prover a a província de um efectivo animal, capaz de melhorar o  acesso da população à proteína animal.

Está-se, aqui, a falar da carne de vaca, porco, cabrito, galinha, ovos e outros produtos, de que Cabinda ainda é manifestamente deficitário e com preços proibitivos, apesar de ligeiras melhorias que se esperam com os últimos passos na navegação.

Nesse segmento, o Projecto Cadeias de Valores Agrícolas privilegia o fomento da criação de animais, algo que é feito com o que é chamado de melhoramento genético das espécies locais. "Estamos, a esse propósito, a trabalhar com três linhas de animais locais, nomeadamente galinhas, porcos e cabritos”, revela o engenheiro José Fernandes.

Como a antecipar-se à nossa pergunta, ele entra em detalhes: "Em relaçao às galinhas, nós pegamos numa espécie sul-africana, chamada bocheveld, que é uma galinha muito resistente às condições locais e pouco exigente em termos de ração. Ela produz bastamte carne e ovos”.

Da África do Sul, segundo explica o coordenador do projecto, foram adquiridas encubadoras, que vieram juntar-se à outras duas, que já garantiam a produção mensal de 10 mil ovos num  centro  centro satélite, na Apolónia, arredores da cidade de Cabinda.

Daí saem todos os meses 10 mil pintos. Tal representa um total de 120 mil galinhas, que são distribuídas aos criadores familiares dos municípios de Cabinda, Buco Zau, Cacongo e Belize.

O processo de multiplicação de galinhas começou há cinco meses, uma  parceria público-privada, tal como na criação de porcos e caprinos, em que são assinalados sucessos.

"A média por família é de distribuirmos cerca de 25 galinhas. E como elas se adaptam facilmente às condições locais, rapidamente multiplicam-se e isso melhora substancialmente a renda das pessoas”, palavras de José Fernandes, optimista com o sucesso do projecto.

Sobre o melhoramento de porcos e cabritos, o gestor do projecto adianta que foram adquiridos animais resistentes às adversidades climáticas, em províncias como a Huíla,  Huambo, Bié e Cunene.

Sobretudo nesta última, chegaram cabritos muito robustos, como da raça  fhona, que sobressaem pela pela sua resistência à seca, como pudemos constatar, recentemente, no município do Curoca.

"Entre porcos e cabritos, o projecto já adquiriu mais de 4.000 animais geneticamente melhorados e o processo para a sua multiplicaçao aqui em Cabinda já começou”, assegura José Fernandes, notando que, tal como para as galinhas, foram criados centros satélites para a sua multiplicação, para a sua distribuição às comunidades.

Em média, cada família recebe três fémeas e um macho, com a responsabilidade de beneficiarem outros membros da comunidade, sempre que nascem novos animais, eslarece o  engenheiro José Fernandes.

Parcerias Público-Privadas

José Fernandes diz ser um sucesso a parceria do projecto com os empresários e destaca a assinatura de acordos com os produtores de galinhas, cabritos e porcos.

"A estratégia é o estabelecimento de parcerias público-privadas, para que as acções de sustentabilidade após o fim do projecto estejam garantidas”, refere José Fernandes.

Refere que foram assinados acordos com um criador de aves no centro da Apolónia, município de Cabinda, outro para criação de caprinos  com a Mandarim (Fazenda Hall), em Cacongo e com a Fazenda Luís, na área da criação de porcos, na capital da província.

Segundo José Fernandes, como resultado dessas percerias público-privadas, 650 cabritos e igual número de porcos, todos de raça geneticamente melhorada e estão prontos para serem lançados na Cadeia de Valores Agrícolas de Cabinda.

Com o repovoamento animal que se assiste actualmente, a expectativa dos promotores do projecto é de que, até 2024, Cabinda possa, eventualmente, tornar-se auto-suficiente na produção de carne, estando prevista a montagem de quatro matadores modulares nos municípios de Cabinda, Belize, Buco Zau e Cacongo.

"Exactamente para acomodar as condições de higiene, abate e comercialização da carne”, como adianta o coordenador do projecto, que reafirma preocupações crescentes com a qualidade dos alimentos.

 

Transformação dos produtos

Como se diz noutro espaço, Cabinda é hoje auto-suficiente em alguns segmentos da cadeia produtiva,como a banana e a mandioca, que são exportados, sobretudo para os dois Congos, de resto os mercados mais próximos da província.

A exportação continua a ser feita em bruto e isso é algo que não agrega valor substancial aos produtos, mesmo que permita um embolso de algumas divisas. Esse é, pois, um cenário que as autoridades querem inverter, com a montagem de indústrias de pequeno porte, capazes de garantir a transformação local.

José Fernandes esclarece que o projecto prevê, por exemplo, a aquisição de equipamento para a tranformação da banana.

"A forma como exportamos actualmente não traz muito valor acrescentado à banana”, reconhece,  explicando já estarem disponíveis em armazém as linhas de beneficiamento desse produto, para as quais o Governo indicou uma área para a sua montagem. "Esse ano, estamos em condições de avançar com a instalação da indústria para a transformação da banana”, disse, confiante, o coordenador do projecto.

Adianta haver, também, a previsão da  instalação de uma indústria de transformação da mandioca, para a produção de amido e farinha de bombóm, sempre a  pensar na exportação em grandes quantidades.

"Nota que com a introdução de variedades melhoradas de mandioca, vão aumentar a produção actual para cerca de 450 toneladas por ano. Essa produção deverá ser transformada localmente numa indústria de nível médio”, palavras do coordenador do projecto.

   Distribuição de sementes para aumentar rendimentos agrícolas

Perguntamos sobre aquilo que são as culturas que entram, digamos, directamente na cadeia alimentar das populações.

José Fernandes não poderia  ser mais assertivo: "Sobre as culturas alimentares, o projecto está a introduzir na província de Cabinda variedades melhoradas de milho, feijão, feijão macunde, soja,  batata-doce e mandioca”, diz, esclarecendo que neste momento já estão devidamente mecanizados cerca de 2  mil 100 hectares, para as diferentes comunidades.

Mais directo, José Fernandes adianta que até agora foram distribuídas 227 toneladas de sementes melhoradas de milho, feijão, amendoim, feijão macunde , soja, 1.500 estacas de mandioca (resistentes ao vírus do mosaico e mais precoses).

Ele  destaca, também, a entrega de 500 mil mudas de batata-doce (polpa amarela), essencial no processo nutricional das crianças, 550 mil de café, 350 mil de palmar e 55 mil de fruteiras, sobretudo manga e citrinos.

"A disponibilidade de sementes e de mudas diversas permitiu o aumento, para 17 mil hectares de área cultivada, passando cada familiar a deter pelo menos um hectar, contra os 0,6 no passado”, clarifica.

  Aumento da produção de cereais deve levar à indústria de rações

Por tratar-se de um projecto integrado, o seu coordenador explica que a produção de culturas alimentares vai potenciar a produção de rações para o gado, que está a ser introduzido na província, já que em Cabinda há um reconhecimento de um elevado défice em todas as espécies animais.

Um quadro que as autoridades querem inverter, com uma aposta mais ousada num ambicioso programa de repovoamento animal, que para já conta com o concurso da região Sul de Angola, que possui enorme potencial, apesar das cíclicas secas.

"Esse é, de facto, um programa integrado. Cabinda não tem uma forte tradição na produção de milho, normalmente cultiva-se milho fresco. Ora, no âmbito do Projecto Cadeias de Valores Agrícolas, estamos a incentivar a produção de milho, para permitir às famílias terem a ração para os animais”, afirma José Fernandes, destancando a  soja, como "elemento importante” nesse segmento.

Ele faz contas e argmenta que se forem introduzidas as sementes melhoradas pretendidas, espera-se por um rendimento de 1.100 quilos por hectare, algo que pode resultar em  210 toneladas de cereais, num espaço de 200 hectares.

"Tudo para servir para alimentação humana e animal”, sublinha, indicando que em relação à soja a expectativa é de colher cerca de oitenta toneladas anuais.

Na produção da mandioca, como se diz mais acima, um segmento em que Cabinda é auto-suficiente, as expectitivas são elevadas, com as variedades melhoradas que estão a ser introduzidas.

Optimista, o coordenador do projecto fala num rendimento 3.600 toneladas anuais.

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