Reportagem

Professores de Inglês actualizam conhecimentos

Há 10 anos como professora de Inglês, Brígida Célia Mavondo começou a trabalhar no município dos Gambos, 150 quilómetros a sul da cidade do Lubango, província da Huíla. Actualmente a leccionar no Liceu nº 692, Brígida Célia Mavondo padece de cancro do útero e da mama. Na procura da cura da doença, diagnosticada em 2019, já fez consultas e tratamentos médicos em Angola, Namíbia, África do Sul e Zimbabwe.

23/10/2022  Última atualização 09H10
Docentes de Inglês da província Huíla participaram de um curso intensivo de actualização © Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro
O diagnóstico do cancro, segundo ela, mudou o seu estilo de vida e o domínio da língua inglesa lhe serve como veículo de comunicação com os médicos no tratamento.

Ainda muito jovem, Brígida segue à risca as recomendações médicas, apesar de reconhecer ser um tratamento muito caro e que precisa de ajuda do Governo, das pessoas de boa fé e da família.

A falta de um centro de oncologia na Huíla, reconheceu, faz com que as suas deslocações à capital do país, e ao exterior, sejam frequentes, com gastos avultados. O domínio do inglês, explicou, tem lhe ajudado e encorajado a perceber em que fase da doença está, mediante as consultas médicas de rotina.

 

O regresso à Huíla

Depois de um longo período em países da África Austral (Namíbia, Zimbabwe e África do Sul), Brígida está de volta à Huíla, onde é membro da associação dos professores de Inglês. O seu estado de saúde despertou a atenção dos professores de Língua Inglesa do I e II Ciclos do ensino secundário e de instituições universitárias das províncias da Huíla, Benguela e Cuanza-Sul, que participaram de um curso intensivo de actualização de conhecimentos sobre a disciplina, financiado pela Embaixada dos Estados Unidos de América. O curso, com duração de cinco dias (10 a 14 de Outubro), teve a participação, igualmente, de coordenadores de Inglês. 

O estado de saúde de Brígida Célia Mavondo motivou os participantes do curso intensivo de Inglês  a orarem, no encarramento,  o "Pai Nosso”. Em entrevista ao caderno Fim-de-Semana, Brígida Célia Mavondo manifestou-se bastante comovida pelo gesto.

 

"Ser professora é interessante”

"Não temos centros de oncologia no Lubango, o que exige pessoas com este diagnostico a viajarem sempre. Algumas vezes fica difícil, mas estamos a gerir”, disse, acrescentando que "o Inglês que sei falar e escrever está a ajudar bastante nas consultas que tenho realizado. Sinto-me muito segura. Não preciso de tradutores. Entendo o que os médicos falam e orientam. Quando viajo não preciso ser acompanhada. Consigo falar e investigar sozinha sobre a minha doença e me informar ainda mais. O Inglês está a ensinar-me bastante”, encorajou-se.

Disse que ser professora de Inglês é algo muito interessante, apesar das dificuldades de ser uma língua estrangeira, que não é leccionada na base. Reconheceu que a realidade é diferente em relação ao passado. "Acho que actualmente é mais fácil leccionar inglês porque os estudantes são mais curiosos e aprendem com facilidade mediante as tecnologias de informação e comunicação”.

Brígida Mavondo atribuiu uma mais valia ao seminário intensivo de actualização, realizado na semana finda e frisou que o Inglês deve, também, ser aprendido para outros fins. 

"A vida não é só feita em Angola. Não podemos ensinar aos alunos apenas para aprovarem na escola, mas sim, para a vida”, afirmou, acrescentando que o Inglês pode ser usado em consultas e tratamento médico, em compras e para interagir com o mundo. "E com o domínio do Inglês evita-se gastar dinheiro nas traduções”, referiu, exemplificando com o facto de que quem vai à Namíbia por questões de saúde, se não souber falar Inglês vai precisar pagar a um tradutor.

 

A forma invertida de ensinar

Rosália Tembo Zeca lecciona Inglês na Escola 27 de Março, na cidade do Lubango. Reconheceu que o curso intensivo permitiu-lhe despertar as técnicas que estavam adormecidas.

"Muitos de nós terminamos a formação há muitos anos e, se calhar, temos dado aulas empiricamente. Com essa formação, pudemos rever, reforçar e despertar os conhecimentos que estavam adormecidos”, disse.

Salientou que durante o curso aprendeu também a forma invertida de ensinar, que, segundo disse, há muito tempo não se praticava. "Já podemos mandar algumas actividades para os alunos resolverem em casa e vermos em conjunto na escola. É uma forma divertida porque os alunos serão autónomos na investigação e a partilhar os conhecimentos na sala de aula”.

Azenate Munga Quintino é professora do Liceu 133 do Nambambi e lecciona Inglês desde 2012. Ela disse que, para os professores, a formação serviu para lembrar algumas coisas que estavam semi-adormecidas. "Despertaram os conhecimentos para promover o equilíbrio entre os professores e os estudantes”.

 

A experiência de Adérito Sicato

Adérito Sicato é professor do magistério secundário nº 135 Comandante Liberdade, do Lubango. Professor desde 1995 e a leccionar as cadeiras de Metodologia de Ensino da Língua Inglesa desde 1998, reconheceu que a formação foi importante, uma vez que os temas abordados têm a ver com a metodologia de ensino da língua Inglesa.

      "A formação permitiu refrescar conhecimentos que muitos de nós, se dominamos, pelo tempo, já não aplicávamos muitos deles. Penso que com base nesta formação, saímos daqui munidos de ferramentas que vão permitir melhorarmos a qualidade da nossa prestação de serviço enquanto professores”.

Adérito Sicato defendeu a promoção de mais seminários e  que se estendam aos professores dos municípios e comunas, essencialmente para os que  surgiram de outras áreas de formação e não tiveram bases a nível do ensino médio ou superior.  Para Sicato é importante munir os professores com mais conhecimentos em matéria de metodologia de ensino da língua Inglesa. Como dificuldades, lamentou a falta de materiais de apoio, nomeadamente  manuais, dicionários, gramáticas e outros.

Afirmou que é preciso actualizar os livros de Inglês usados nas diferentes instituições, principalmente, nas escolas de formação de professores. Disse ainda que é preciso dar oportunidade aos professores e alunos, beneficiando-os com bolsas de estudos em países de expressão Inglesa. "Precisamos interagir com os nativos da língua e promover concursos de ensino da língua Inglesa e jornadas científicas para actualizarmos e melhorarmos os métodos de ensino, além de reunir mais a comunidade de língua Inglesa, a nível de professores e alunos, sem esquecer a necessidade de se melhorar os programas de ensino”.

 

Atribuição de bolsas

Joaquim Graciano, professor de Inglês do magistério secundário nº 135 Comandante Liberdade, também defendeu a atribuição de bolsas de estudo. "As lamentações dos professores têm sido frequentes. Depois de terminarem a sua graduação não têm tido oportunidade de refrescar os conhecimentos, como forma de recordar os conteúdos apreendidos durante a formação”.

Para Joaquim Graciano  a formação foi interessante porque abriu a mente dos participantes para o mundo. "Quando somos jovens e terminamos a licenciatura, a tendência é progredir e corresponder às expectativas”, indicou. Destacou também que "os professores da nossa região nunca têm o privilégio de fazer o mestrado por falta deste curso no ISCED-Huíla”, acrescentando que a alternativa tem sido recorrer ao ISCED-Luanda para fazer o mestrado em língua ou literatura em língua Inglesa.

Os custos para suprir tal sonho, segundo disse, são elevados, o que desmotiva. "Uma bolsa seria o realizar de um sonho não só do estudante, mas também da comunidade onde esta inserido”.

Daniel Gando Jacob, professor há 31 anos e coordenador de Inglês do Liceu 792, reconheceu que o ensino é dinâmico e ninguém sabe tudo. Por isso, os cursos de formação e capacitação intensiva são sempre bem-vindos. "Sou professor desde 1991 e os meios de ensino que se usavam naquele período, muito deles, estão fora da actualidade, razão pela qual é importante a criação de acções de formações”.

 

Apoio da Embaixada americana

O coordenador da formação, Délcio Tweuhanda, enalteceu a cooperação do ISCED-Huíla, através do Departamento de Inglês, com a Embaixada dos Estados Unidos de América. Esclareceu que a formação visou estreitar a cooperação com a Embaixada norte-americana em Angola, que tem sido bastante útil, não só para o ISCED-Huíla, mas, também, para outras instituições no fornecimento de material didáctico e na disponibilização de professores cooperantes.

O responsável explicou que para o sucesso da referida formação, a Embaixada disponibilizou 6.830 dólares, não sendo o primeiro apoio que o ISCED/Huíla recebe do Governo americano para a capacitação e formação de professores da disciplina de Inglês. Até agora, segundo Délcio Tweuhanda, mais de 300 professores, incluindo do Namibe, já beneficiaram de formação semelhante. 

Além dos cursos intensivos de curta duração, os professores de Inglês do ensino secundário e superior têm recebido material didáctico como suporte da actividade, daí esperar-se que o seu desempenho seja de qualidade.

 

Importância das bolsas

Délcio Tweuhanda frisou que com base na cooperação com a Embaixada americana professores e estudantes têm beneficiado de formações de curta duração e participação em conferências  nos Estados Unidos.

"O nosso objectivo é que essa cooperação abranja, futuramente, cursos de mestrado e doutoramento, com bolsas atribuídas pelo Governo, em parceria com os Estados Unidos”, disse Délcio Tweuhanda.

O coordenador do curso realçou, ainda, que no passado, o Reino Unido também financiou a formação de professores do ISCED-Huíla, e não só, a nível do mestrado e pós-graduação.

O chefe de Departamento de Línguas e Ciências Humanas do ISCED-Huíla, Alexandre Sakukuma, reconheceu que a formação de professores de Inglês "é de extrema importância, por ajudar a capitalizar e a dar inputs aos docentes”.

As novas metodologias e técnicas de ensino da língua Inglesa, os programas cooperativos, bem como o uso das tecnologias de comunicação e informação na sala de aula são, entre outros, os temas constantes da formação dos professores.

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