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Problemas mil à espera de solução

Arão Martins | Lubango

Jornalista

A Mitcha, que está dividida em 26 zonas, é um dos vários bairros visitados recentemente pelo governador provincial da Huíla, Nuno Mahapi Dala, no quadro da governação participativa.

15/08/2021  Última atualização 10H44
Lourdes Domingos, administradora do bairro da Mitcha, disse que apesar das dificuldades tem se procurado corresponder às expectativas dos moradores. Lamentou a falta de recursos humanos e as más condições da infraestrutura que acomoda a Administração.

Mitcha possui uma cozinha comunitária que funciona junto da Administração, onde são atendidas 402 mulheres, 109 homens, 81 crianças e 87 pessoas com deficiência. As refeições são servidas às segundas, quartas e sextas-feiras.

A rede escolar, referiu a administradora, é constituída por seis escolas públicas, três das quais do ensino primário, uma do II ciclo do ensino secundário, além do Instituto Técnico de Saúde. Mas ainda são insuficientes as escolas do ensino primário, do I e do II ciclos, em todas as zonas, com destaque para as zonas 22 a 26.

A rede sanitária é constituída pelo hospital Ana Paula, para onde acorre a maioria dos habitantes da zona norte do Lubango, e não só. O posto médico da Tandavala, já em ruínas, e o posto fixo de saúde, com três enfermeiros, são insuficientes para atender a demanda.  As zonas 22, 23, 24 e 26 são consideradas "cinzentas”, por não possuírem energia eléctrica. Os populares solicitaram à Administração local uma especial atenção a esta preocupação.

Lourdes Domingos informou que o bairro da Mitcha nunca foi contemplado com a canalização de água para todos. "A falta de água é grave nas zonas 6, 9, 22, 23, 24 e 26, por não possuírem sondas”, disse, acrescentando que nestas zonas as populações sobrevivem de cacimbas, poços e lagoas.
As vias secundárias e terciárias, defendeu a administradora, carecem de uma terraplanagem, principalmente a que dá acesso ao condomínio da Mitcha.
 
Makas comuns

A falta de energia, água, saneamento básico, vias de acesso, segurança pública e espaços públicos para prática de desportos e actividades recreativas e culturais é comum noutros bairros visitados pelo governador Nuno Mahapi Dala.


O administrador de Bula-Matadi e Lalula, José Maria, informou, por exemplo, que os dois bairros albergam mais de 73 mil habitantes que carecem de electrificação nas residências. José Maria referiu a necessidade da reabilitação dos postos médicos das zonas da Kaluva e Lalula, a terraplanagem e a reabertura de algumas vias terciárias no interior dos bairros, bem como a colocação de pontecos, incluindo nos troços Matadouro-Escola de Sargentos, bem como no que liga os bairros da Mitcha e do Bula Matadi.  


O administrador dos bairros Bula-Matadi e Lalula falou também do aproveitamento dos espaços considerados reserva do Estado para construção de infra-estruturas sociais, bem como da asfaltagem do troço que vai do Centro Médico Bula-Matadi até à rotunda do João de Almeida, passando pela Administração. José Maria realçou a colocação de quebra-molas e passadeiras nas vias recém-reabilitadas no âmbito das obras de infra-estruturas integradas da cidade do Lubango.
O soba Evaristo Fernando queixou-se da falta de água potável e salientou a importância da iluminação pública nos bairros, a segurança junto às escolas e a escassez de centros médicos. Defendeu a colocação de esquadras policiais móveis nos dois bairros, tendo em conta a delinquência que tende a aumentar.

Já o administrador do bairro Nambambe, Feliz Kundi, reclamou da falta de energia, acrescentando que há funcionários da Empresa Nacional de Distribuição de Energia que estão a instar a população a fazer manifestações para beneficiar da ligação de energia eléctrica da rede pública. Os problemas referenciados são extensivos, entre outros, aos bairros Joaquim Kapango, Chioco, Ferrovia, Kwaua, Tchavola e Tchituno.


Divisão por distritos

O município do Lubango é constituído pelas comunas do Hoque, Arimba, Huíla e Quilemba. A comuna sede, que nunca foi constituída de facto, possui os seguintes bairros: Bula Matadi e Lalula, Nambambe, Kwaua, Tchavola, Mitcha, Hélder Neto, Mapunda, Comandante Cowboy, Dr. António Agostinho Neto e Comandante Nzagi, A Luta Continua e Lucrécia, Patrice Lumumba, 14 de Abril e Dack Doy, Ferrovia, Comandante Valódia e Joaquim Kapango, Chioco, Eiva e Centralidade da Quilemba.

Lubango, pela sua dimensão geográfica, deve ser dividido por distritos urbanos, segundo o administrador municipal Armando Vieira, para facilitar a sua gestão administrativa. "A nossa fundamentação está também no facto de os bairros da cidade do Lubango serem grandes e densamente povoados”, disse.

O gestor da capital huilana referiu que a divisão distrital do Lubango deve compreender o distrito urbano Dr. António Agostinho Neto, integrado pelos bairros Comercial, Comandante Cowboy, Hélder Neto, A Luta Contínua e Lucrécia, Ferrovia, Joaquim Kapango, Valódia e Dack Doy, Patrício Lumumba, 14 de Abril e Chioco. Indicou que o distrito urbano dois, da Mapunda, deve integrar os bairros da Mapunda, Mitcha e Tchavola,  enquanto o distrito urbano da Quilemba compreenderia a Centralidade da Quilemba e a povoação da Quilemba. 


A Arimba, referiu Armando Vieira, deve transformar-se no distrito com o mesmo nome. Já o último distrito, segundo o responsável, deve ser o de Nambambe, composto pelos bairros Bula-Matadi, Lalula, Kwaua e Eiva.
O administrador do Lubango defendeu a necessidade de se aprovar o estatuto orgânico da centralidade da Quilemba, de modo a permitir a criação de um corpo administrativo legal para a sua gestão, "já que actualmente isso é feito de forma adaptada”. O mesmo processo, acrescentou, deve acontecer na centralidade da Eiva.

Nos últimos tempos, cresce o número de equipamentos e bens do Estado vandalizados na cidade do Lubango. Segundo o administrador municipal, "urge reflectir, sob pena de se perder o que já foi conquistado, no âmbito das obras das infraestruturas integradas da cidade”.

A situação do abastecimento de água nos bairros periféricos é igualmente preocupante, reconheceu o administrador municipal, que deu a conhecer que a Administração Municipal controla 263 pequenos sistemas, dos quais 111 estão avariados. 


Ao todo 567 famílias cadastradas pela Administração Municipal vivem em zonas de risco. No âmbito do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), está em curso a construção de 150 casas evolutivas para beneficiar a população que vive nas zonas de risco. O número é manifestamente insuficiente, pelo que, segundo Armando Vieira, na sua distribuição será utilizado o critério da primazia dos mais vulneráveis.
 
Mobilidade e comércio

Com a requalificação da cidade do Lubango e a injecção de mais autocarros, a mobilidade de pessoas e meios tem melhorado significativamente. Mas o administrador municipal disse estar preocupado com  o aumento da circulação de motoqueiros no centro da cidade, muitos deles sem licenciamento.

Face às reclamações de cidadãos individuais e associações empresariais que alegam haver concorrência comercial desleal por parte de cidadãos de outras nacionalidades, o administrador municipal do Lubango informou que foi criada uma comissão multissectorial, em que estão incluídas a Administração Geral Tributária, a Administração Municipal, a Associação Agropecuária, Comercial e Industrial da Huíla e outras entidades. A missão da referida comissão é "aprimorar” as questões da legalidade e das boas práticas.

Lubango conta com 307 comissões de moradores, das quais apenas 35 já estão registadas e cadastradas no sistema. Estão constituídos 40 conselhos de moradores, dos quais só quatro registados e cadastrados. Pela importância das comissões de moradores no processo autárquico, segundo Armando Vieira, "urge imprimir maior dinâmica na inserção dos dados no sistema, não obstante os constrangimentos”, com realce para a falta de bilhetes de identidade de muitos membros das comissões e, também, a má qualidade da internet, que "não permite fazer o trabalho com a celeridade que se impõe”.
 
Muitos desafios


O governador provincial da Huíla reconheceu que os desafios na cidade do Lubango são consideráveis.


"É nossa obrigação resolver os problemas básicos da população”, assumiu.   "Vamos continuar a auscultar as pessoas para podermos elaborar o orçamento de 2022, que se vai repercutir na melhoria da qualidade de vida das populações”, salientou.

Nuno Mahapi Dala frisou que as dificuldades financeiras são uma realidade, "mas é preciso acreditar em dias melhores”.
Constrangimento na Senhora do Monte
A Administração Municipal do Lubango enfrenta dificuldades na gestão do Complexo Turístico da Nossa Senhora do Monte, informou Armando Vieira. O complexo tem uma direcção e alguns trabalhadores de base, mas não tem um estatuto orgânico próprio nem orçamento, o que tem causado problemas à Administração Municipal, no dizer de Armando Vieira, que sugeriu que o ideal seria entregar a gestão do Complexo a um privado. Mas coloca-se a questão da rentabilidade do espaço sob gestão de terceiros. "Precisamos de reflectir de como fazer a sustentabilidade daquela parcela turística”, defendeu.

Festas da Nossa Senhora do Monte e dos cem anos da Capelinha
 
"É para nós motivo de alegria e honra termos procedido à abertura das festas de Nossa Senhora do Monte, Padroeira da cidade do Lubango, em especial, neste ano de 2021, altura em que se celebra o centenário de existência da Capelinha da Senhora do Monte”, disse o arcebispo do Lubango D. Gabriel Mbilingi, ao intervir na abertura da 119ª edição das Festas de Nossa Senhora do Monte, que este ano registam algumas restrições devido a Covid-19.

Para os crentes, disse D. Gabriel Mbilingi, é jubileu, mercê de Deus, pelo que impõe-se, a vários títulos, que seja feita a celebração, acrescentando que, se os lubanguenses se calassem, as pedras da cordilheira da serra do Lubango gritariam o feio pecado da ingratidão que pesaria sobre os presentes. "Espera-se não merecermos, nunca, este reparo”, disse.

Na medida limitada dos recursos e das exigências impostas pela realidade da Covid-19, adiantou, evoca-se a gesta luminosa dos que, movidos pelo dom da fé, fundaram o Lubango com a matriz cristã e mariana. Referiu que, desde a aurora desta urbe, a Senhora do Monte foi colocada e constituída como a sua padroeira, mãe, guia e protectora, sobretudo, nos momentos mais difíceis, como este em que se vive a pandemia da Covid-19.

As Festas de Nossa Senhora do Monte são como que o ícone da identidade da cidade do Lubango, reconheceu o prelado católico. Como sempre, referiu, se constituem estas festas como o reencontro da família e oportunidade para celebrar com gratidão a festa da Mãe, independentemente das diversidades culturais, crenças e responsabilidades sociais. Frisou que é também forma de projecção do Lubango, na vertente turística, económica, cultural e desportiva em todos os continentes e em todas as civilizações.
 
"Tudo passa”
Os lubanguenses continuam a "sonhar” com a basílica da sua padroeira, informou D. Gabriel Mbilingi, para quem os peregrinos e turistas que "nos visitam com ênfase no mês de Agosto, não têm onde possam ser acolhidos com comodidade de vida, para realizarem as suas devoções”.

"Estamos na etapa de reavivar o sonho e mobilizar vontades para o compromisso de trabalho em equipa”, disse, salientando que um santuário, com estrutura de acolhimento de peregrinos, proporciona à comunidade que acolhe incalculáveis benefícios, por isso, segundo afirmou, a contribuição para a sua construção é, antes de tudo, um investimento que se faz, com benefícios, igualmente, de valor incalculável, tanto para a presente como para as futuras gerações.

Este é o desafio que o arcebispo do Lubango quer prantear aos lubanguenses, aos crentes notáveis e a todas as forças vivas da bela cidade. "Que nestas festas sejamos pessoas de bem, para dar e pedir o melhor à nossa Mãe, a fé e a esperança”, salientou, encorajando os lubanguenses: "Não percamos a fé. Melhores dias virão com certeza. Sejamos homens e mulheres de bem, protegendo as nossas vidas e as dos outros, cumprindo as medidas de biossegurança, que nos são impostas neste momento para o bem de todos nós. Tudo passa. Só Deus permanece”.

"Em nome da Arquidiocese do Lubango, cumpre-me expressar a nossa gratidão a quantos conhecidos e anónimos nestes 100 anos de capelinha de Nossa Senhora do Monte, foram cooperadores de Deus, em manter a chama da fé pelo centenário”, sublinhou D. Gabriel Mbilingi.
 
Festas possíveis
O administrador municipal do Lubango, Armando Vieira, disse que estas festas são as possíveis, pois não haverá todos os habituais atractivos, como o desporto motorizado, o carrossel e outros, devido à Covid-19, que obriga a restrições, pelo que pediu a compreensão de todos. Não obstante isso, afirmou, existem outros atractivos que irão dignificar as festas, como a Expo-Huíla, a Feira Agro-pecuária, o Tiro aos Pratos e o Miss-Huíla.

As Festas de Nossa Senhora do Monte, segundo Armando Vieira, para além do carácter festivo e religioso, são também uma oportunidade para a convivência entre as pessoas oriundas de vários pontos do país. Indicou que a higiene é um imperativo que se impõe a todos, apelando a quem puder pintar a sua casa a fazê-lo e assim "contribuir para se ter uma cidade mais alegre e bonita”.

A feira é uma oportunidade de negócio, por isso, os expositores e prestadores de serviços, incluindo os pequenos hoteleiros, proprietários de roulottes, artesãos, agentes culturais e pequenos empreendedores deverão aproveitar para ganhar algum dinheiro. 


A indústria de salsicharia tem na feira, como é tradição, uma oportunidade para aumentar a sua facturação, já que, como é da praxe, quem vem ao Lubango gosta de comer um bom chouriço caseiro.

Capela cheia de história
A Capela da Nossa Senhora do Monte, localizada num dos topos da Serra da Chela, é, a par da estátua do Cristo Rei, o grande ex-líbris da cidade do Lubango. Além de santuário de peregrinação religiosa que se reveste de grande simbolismo e importância para a comunidade católica, a Capela é um importante activo turístico e histórico.


A construção da capela primitiva foi orientada pelo pedreiro Jacinto Rodrigues e o carpinteiro João da Silva. Em 15 de Agosto de 1902 o pároco celebrou uma missa campal junto à inacabada ermida, usando uma imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Reza a história que foi Venâncio Ferreira Rodrigues quem adquiriu no Porto (Portugal), a imagem de Nossa Senhora do Monte, em cumprimento de uma promessa. Essa imagem chegou ao Lubango em 29 de Junho de 1903. Concluída a primitiva capela, o novo pároco, Padre José Martins, em nome do Bispo de Angola e do Congo, abençoou-a a 14 de Agosto de 1903. A partir do dia seguinte (15 de Agosto), a população do Lubango passou a dirigir-se à capela numa romaria que se tornou tradicional.

Em 1919, João Henrique de Azevedo idealizou e desenhou uma capela mais ampla, que foi inaugurada em 1921. A partir de 1930 a imagem da Nossa Senhora era trazida processionalmente da capela para o parque, pois muitos madeirenses, já idosos, não tinham forças suficientes para subir ao local da capela. Houve várias interrupções nas romarias, sendo que a última aconteceu em 1975, com o advento da independência de Angola, tendo reiniciado apenas em 1986, segundo Sousa, 2013.

Apesar de ter sido construída outra capela no cimo da Serra da Chela, o local continuou a ser insuficiente para albergar o grande número de fiéis que a ela acorria. Assim, no sentido de acomodar mais fiéis, o arquitecto Frederico Ludovic concebeu um projecto a céu aberto num espaço mais abaixo, onde ainda são hoje realizadas as missas do mês de Agosto, altura em que o fluxo de fiéis é maior.


O acesso à capela é feito através de uma estrada asfaltada que serpenteia a serra numa distância aproximada de 300 metros até ao espaço destinado à missa campal. Seguidamente, observa-se uma escadaria de 200 metros em direcção à capela construída na serra. De um lugar inicialmente elitizado (predominância de portugueses) passou a ser um espaço de adoração frequentado por fiéis de várias nacionalidades e estratos sociais.


A capela constitui hoje um símbolo do catolicismo no Lubango e o mês de Agosto representa o ponto mais alto das celebrações da ascensão de Nossa Senhora, Mãe de Jesus.


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