Sociedade

Problemas cardíacos são um flagelo para muitas das famílias angolanas

Alexa Sonhi

Jornalista

Quem a vê pela primeira vez, facilmente fica contagiado pelo sorriso meigo de Verónica Tchilombo. Pelo corpo, a breve impressão é que padece de anemia falciforme. Mas não. A adolescente, de 15 anos, sofre de uma Insuficiência Mitral Reumática, uma doença do coração, causada, geralmente, por constantes infecções das vias respiratórios superiores, chamada de amigdalites ou anginas de repetição.

29/09/2022  Última atualização 06H00
Complexo Hospitalar Alexandre do Nascimento © Fotografia por: Contreiras Pipa| Edições Novembro

Como consequência da doença do coração, diagnosticada pela primeira vez, aos nove anos, na província do Huambo, onde nasceu e vive com a família, a adolescente de 15 anos pesa, apesar da idade, apenas 28 quilos.

Verónica é a primeira de cinco irmãos e filha de Adelina Brito e João Tchilombo, dois agricultores familiares, que fazem deste ofício a fonte de renda familiar, para custear as despesas dos filhos, desde a alimentação, à escola e saúde. 

Com base nas informações da mãe, Adelina Brito, Verónica nasceu saudável, com 3.500 quilos de peso. Apesar das dificuldades financeiras dos pais, ela vivia bem e sem grandes problemas. Mas, aos oitos anos, os primeiros sintomas da doença começaram a aparecer. "Ela começou a perder o apetite. Tinha febres altas, passou a perder peso e ficava cansada facilmente ao fazer pequenos esforços físicos, ou percorrer distâncias, antes feitas com normalidade”, explicou.

Preocupados, os pais a levaram à consulta de clínica geral, no Hospital do Huambo. O médico que as atendeu percebeu irregularidades no organismo da menina, sem precisar ser era nos pulmões ou no coração. "Os exames feitos na altura, os de gota espessa, febre tifóide e tuberculose, deram negativo. Devido ao crescente cansaço, ela foi encaminhada, um ano depois, a um cardiologista, que por meio de exames de electrocardiograma e ecocardiograma detectou a anomalia no coração da menina”.

O cardiologista, contou a mãe, disse que a menina tinha Insuficiência Mitral Reumática, uma doença do coração muito grave, cuja melhoria passava por uma operação cirúrgica. "Nunca tinha ouvido falar da doença. Nem sei como a minha filha contraiu esta doença. Ninguém na família sofre deste mal”, lembra, ainda com lágrimas nos olhos.

Delfina Brito, de 33 anos, pegou num pano para limpar as lágrimas. Depois de ficar calma, disse, que o médico explicou que a patologia de Verónica afectava a válvula mitral do coração, causando a perda da competência e função de encerramento deste órgão, ou seja haviam fugas de sangue (regurgitação) do ventrículo para a aurícula (no sentido contrário ao fluxo normal do sangue).

Como não percebemos nada do que ele disse, contou, apenas queriam saber quando a menina faria a operação. "O médico disse que o Hospital do Huambo não faz cirurgias cardíacas e era preciso ir à Luanda, no Hospital Josina Machel, por ser o local de referência para este tipo de operação”, revela, acrescentando que desde a data passou a ter "picos” de pressão alta.

 

Em Luanda

Quando chegaram ao Josina Machel, os pais de Verónica foram informados que as cirurgias cardíacas estavam temporariamente suspensas, mas que a paciente seria transferida à Clínica Girassol, por meio de uma junta médica, totalmente financiada pelo Estado angolano.

"Uma luz no fundo do túnel acendeu”, conta. Meses depois, disse, a menina, na época com nove anos, foi operada ao coração. "Foi em 2016, na Clínica Girassol. Os médicos colocaram uma válvula de pouca duração. Apenas cinco anos, findo os quais tinha de ser novamente intervencionada”.

O problema, confessa, é que depois do prazo, os sintomas pioraram. "A menina foi encaminhada ao Complexo Hospitalar de Doenças Cardio-Pulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento, onde se verificou que além da válvula, Verónica tinha uma pressão pulmonar de 110 mmHg, quando a normal para a idade dela seria menor de 35 mmHg”.

 

A par disso, recorda a mãe, a equipa médica, que a acompanhava notou vários trombos e coágulos dentro do coração da menina. "Eles disseram que as cavidades estavam muito dilatadas e isso, tornava a situação dela gravíssima, ao ponto de uma segunda cirurgia ser muito complexa. Mas defendiam que tinha de ser feita, porque de contrário, ela morreria”, relembrou.

Com tudo nas mãos de Deus e dos médicos cirurgiões, confessou, a menina entrou para o bloco operatório as 8h00, da quarta-feira da semana passada, dia 23. A cirurgia durou, quase, cinco horas e foi possível substituir a válvula e tratar as demais anomalias do coração com sucesso. "Hoje, ela está ainda numa das enfermarias do Complexo Hospitalar a espera de alta médica”, conta, mais aliviada.  

 

O coração

Tal como Verónica Tchilombo, vários outros pacientes são operados ao coração ou têm outras patologias que afectam, significativamente, o funcionamento normal deste órgão, um dos mais importantes do corpo humano.

O chefe dos Serviços Cardiovasculares e Torax, do Complexo Hospitalar Dom Alexandre do Nascimento, o cirurgião Valdano Manuel, define o coração como um órgão muscular oco, em forma de cone, que pesa entre 250 gramas, em crianças, e 300 gramas, nos adultos.

O coração, explicou, tem a função de bombear o sangue por todo o corpo. "Ele funciona como uma bomba dupla. O lado esquerdo bombeia sangue oxigenado (arterial), para diversas partes do corpo, enquanto o direito bombeia sangue venoso para os pulmões. Todo este processo é feito de forma continua”, aclarou.

O médico informou que há várias patologias cardíacas, quer clínicas como cirúrgicas, capazes de afectar o bom funcionamento do coração, dentre estas constam a hipotensão arterial, a fibrilação intra-auriculares, a hipertensão arterial, a hipertrofia ventricular e as arritmias cardíacas.

Quanto as patologias cardíacas cirúrgicas, explicou que as mais comuns são as febres reumáticas, devido a válvula mitral, doenças da aorta, os tumores do coração, a revascularização do miocárdio, as endocardites, as arritmias cardíacas, a aterosclerótica coronariana e as doenças congénitas do coração.

Entre as doenças congénitas do coração, sublinhou, as mais frequentes são a Comunicação Interventricular e Intra-Auricular, a Tetralogia de Fallot, o defeito do septo atrioventricular, mais frequente nos pacientes com Síndrome de Down.

  Mais de 120 cirurgias são realizadas em nove meses

O chefe dos Serviços Cardiovascular e Torax do Complexo Hospitalar informou que, desde a inauguração até hoje, o Complexo Hospitalar de Doenças Cardio-Pulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento já realizou um total de 129 cirurgias, das quais 27 em crianças.

No mesmo período, disse, foram colocados um total de 56 dispositivos, de marca passos, em pacientes com problemas de arritmias cardíacas, no caso mais lentas, e foram realizados 200 cateterismo, procedimento que permite diagnosticar com precisão obstruções nos vasos sanguíneos conectados ao coração.

Valdano Manuel adiantou que, em média, são atendidos, nas consultas externas, 400 pacientes. A demanda, explicou, é pelo facto de muitos destes pacientes terem ficado cinco ou mais anos a espera de uma cirurgia cardíaca. "Esta espera, piorou, muito, o estado clínico de alguns”.

"Muitos chegam ao bloco operatório num estado bastante avançado da doença, situação que influencia significativamente nos resultados nas cirurgias cardíacas. Por isso, o complexo registou, desde a inauguração até hoje, um total de nove mortes”, frisou.

O grau de mortalidade no complexo, justificou, está dentro do esperado, tendo em conta que a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece como taxa de referência na mortalidade uma abaixo dos 10 porcento. "A do complexo é de 7 por cento, porém, mesmo assim, a meta é reduzir a mortalidade o máximo possível. Outro objectivo da instituição é realizar, de forma regular, 300 cirurgias ao ano”, revelou.

Anteriormente, as únicas unidades do país que realizavam cirurgias cardiovasculares eram o hospital Josina Machel e a Clínica a Girassol. Mas, com o passar dos anos, a unidade hospitalar pública parou de fazer as cirurgias em 2018. A Girassol era a única a atender os pacientes.

Com a criação do Complexo Hospitalar de Doenças Cardio-Pulmonares Cardeal Dom Alexandre do Nascimento, em Dezembro de 2021, várias pessoas passaram a ser operadas com sucesso, a custo zero, por uma equipa de jovens médicos, maioritariamente angolanos.

 

 Transplantes

O cirurgião cardiovascular considera urgente a realização de transplantes de órgãos, em particular do coração, a nível do país. "Temos tido caso, às vezes, de pacientes que precisam, urgentemente, deste procedimento. São pessoas com fracção de injecção cardíaca muito baixa, para quem um transplante seria a solução”, defendeu.

Para Valdano Manuel, o transplante cardíaco deve ser sempre a última opção dos pacientes com doenças do coração, pelo facto do processo ser moroso e muito complexo. "Exige uma logística grande, assim como uma medicação cara que deve ser tomada com regularidade pelo resto da vida, para se evitar a rejeição do novo órgão”.

Só a medicação, explicou, é muito difícil de aparecer no país. "Quando aparece é extremamente cara. Logo, caso a realização de transplantes se torne uma realidade, é preciso criar uma forte estrutura organizacional, um comité com vários especialistas e regularizar quem deve doar e sob quais circunstâncias”, realçou.

A equipa de médicos especializados em cirurgias cardíacas, continuou, também deve ser mais ampla. "O processo de remoção do órgão, transporte e implante precisa ser bem definido, de forma que não hajam falhas durante o processo, cuja duração máxima é de quatro horas”.

A par disso, prossegue, o país deve ter, também, laboratórios de ponta, capazes de realizar testes de compatibilidade de órgãos, biopsias, mensais, semestrais e anuais, para evitar uma possível rejeição dos órgãos.

 

País carece de cardiologistas

O país tem 300 especialistas em cardiologia, inscritos na Ordem dos Médicos, um número insuficiente para atender os mais de 30 milhões de habitantes, muitos dos quais com problemas sérios de hipertensão arterial, informou, ontem, o presidente da Sociedade Angolana de Doenças Cardiovascular e Hipertensão.

Para Gade Miguel, que falava à imprensa por ocasião do Dia Mundial do Coração, celebrado hoje, é importante existir, no mínimo, um cardiologista para cada mil habitantes. "Desta forma já seria possível melhoria do atendimento.  Por meio de consultas de rastreio seria possível ter melhor noção da incidência da hipertensão arterial entre a população”, destacou. 

Antes, sublinhou, o país já teve problemas de falta de cardiologistas, mas hoje, com a formação, vários médicos especializados já trabalham nos hospitais centrais de todas províncias. "Hoje, há no país três internatos de cardiologia, em Luanda, Benguela e Huambo”. 

Em relação ao Dia Mundial do Coração, Gade Manuel disse que a data deve servir para reflexão. "O país já tem uma Lei para o Transplante de Órgãos, em particular do coração, um sinal positivo, pois existem pacientes cuja sobrevivência depende deste procedimento”, referiu.

 

A efeméride

O dia 29 de Setembro foi instituído pela Federação Mundial do Coração, em 2000, com o objectivo de divulgar os perigos das doenças deste órgão e prevenir possíveis ataques. A doença cardíaca e o acidente vascular cerebral são as principais causas de morte no mundo, com 17,3 milhões de vidas colhidas por ano.

Este ano, a data é celebrada sob o lema "Use o coração para cada coração”. Com este tema, a Federação Mundial do Coração pretende chamar atenção das pessoas para a melhor forma de usarem o coração.

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