Opinião

Prisão de chinês na Zâmbia

Sousa Jamba

Jornalista

A grande notícia aqui é que um chinês foi preso quando saía do Malawi para a Zâmbia. Esta notícia é manchete aqui porque o chinês em questão andou a fazer filmagens de crianças negras a dizer em mandarim (chinês) coisas como “somos monstros pretos e somos bem estúpidos”;

25/06/2022  Última atualização 07H05
"Não há melhor cor no mundo que a cor de pele amarela”; "Nunca iremos para a China”! As gravações são vendidas na China como uma espécie de cartão de saudação. Os chineses adoram estas gravações em que crianças africanas vão dizendo coisas absurdas para rirem-se dos negros. O chinês escolheu o Malawi por ser o país mais pobre do continente africano.

O mundo muitas vezes tem subestimado a inteligência dos africanos. Lá mesmo nas aldeias alguém começou a suspeitar das intenções deste chinês que pegava em crianças inocentes e as incentivava a gritar coisas que eles não entendiam. Em certos casos, os negrinhos dançavam todos alegres para divertir os chineses. Há africanos jovens que entendem mandarim e que começaram a fazer perguntas sobre estas gravações. Também, para sermos justos, houve chineses que achavam aquele tipo de humor plenamente inaceitável.

No passado, nos Estados Unidos havia os "shows minstrels”, onde actores brancos pintavam a cara com tinta preta para fazerem o papel de negros. Usualmente estas personagens eram absurdas e infantis — a fantasia do que o branco, inteligente, pensava que o negro essencialmente era. Os negros não podiam com estes shows racistas e fizeram uma campanha para acabar com os mesmos. Até hoje nos Estados Unidos há as bonecas Golliwog, cujo objectivo é denegrir os negros. Existe, também, nos Estados Unidos, a venda de cartões de saudação racistas — mas estes são distribuídos discretamente. Há oficiais do Governo que perderam os empregos por partilhar cartões deste género.

A primeira vez que fui à América (cerca de três décadas atrás) hospedei-me em casa de um amigo no Sul dos Estados Unidos que tinha um avô cuja memória era impressionante. O velho tinha quase oitenta anos, mas se lembrava claramente da Segunda Guerra Mundial, que terá ocorrido há quase meio século. O velho, disse-me que, não podia com o racismo contra os negros nos Estados Unidos; mas o que ele viu em Xangai, nos anos quarenta, foi horrível: os britânicos tratavam certos chineses como animais. Ele também me disse que encontrou vários racistas brancos que tinham preconceitos altamente negativos sobre os nativos. O velho disse que foi na Birmânia que viu negros africanos em combate e a fazer os japoneses tremer.

O racismo de indianos e chineses contra os negros passa a ser muito complexo, porque alguns asiáticos se sentem profundamente inferiores aos europeus. Na Índia, o grande negócio agora são injecções para clarear a pele. Nos jornais indianos, quando se mete um anúncio para procura de um parceiro, aquilo que fica patente é a preferência em alguém com pele bem clara. Mesmo na China, as mulheres fazem tudo para terem a pele branquíssima — como se fossem europeias. Tudo que é escuro, neste caso associado aos negros africanos, é para ser evitado.

Conversei com alguém que viveu na China por muito tempo, disse que os estereótipos que os chineses têm dos africanos são assustadores. Mesmo em regiões onde nunca viram um negro há pessoas que temem que um africano virá um dia para as assaltar. As imagens que os chineses vêem de afro-americanos nos filmes e telenovelas não têm ajudado em nada a fazer os chineses entenderem a complexidade do continente africano.

Os zambianos têm muito interesse nesta história porque as relações com os chineses não têm sido muito boas. Na Zâmbia, já houve muitos casos de confrontos físicos entre chineses e zambianos.

Estou a escrever esta crónica a partir do Kitwe, uma das principais cidades da província zambiana de Copperbelt, que produz cobre. Aqui há muitos chineses, já que certas empresas chinesas compraram aqui várias minas. Uma vez ouvi um dono de uma mina a ser entrevistado pela BBC a afirmar que existem diferenças culturais profundas entre os zambianos e chineses quando se trata de trabalho. É que os zambianos vêm de uma tradição em que os sindicatos são muito poderosos.

No tempo colonial, as minas sustentavam os hospitais, escolas, campos de futebol, etc. Os zambianos tinham grande orgulho de serem mineiros, de pertencerem a uma classe operária. Os grandes movimentos políticos da história zambiana (a independência nacional; introdução do sistema multipartidário) tiveram as suas raízes no Copperbelt. As novas empresas chinesas não toleram este tipo de activismo sindical. Depois há mesmo a questão das regalias e segurança dos trabalhadores. Os chineses acham que os trabalhadores zambianos são muito mimados. Os zambianos, por sua vez, acham que os chineses são nada mais do que uma versão alargada negativa do colono…

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