Reportagem

Primeiro “cartaz” do arroz angolano floresce com segurança no Ringoma

Armando Estrela

A Ligação Agro-Pecuária de Kamicundo é achada no Centro de Angola e, pela sua acentuada organização, se parece a uma rede narcótica.

22/12/2021  Última atualização 06H20
© Fotografia por: Edições Novembro
Pelo contrário, longe dos amargos dissabores que os criminosos bem organizados oferecem, a Coligação Agro-Pecuária de Kamicundo ostenta aquilo que já é o primeiro e cobiçado "cartaz de arroz” do país, que este ano passou a produzir, todos os dias, trinta toneladas do cereal, ao qual se agrega qualidade e sabor inconfundíveis.
No total, é em novecentos hectares de terra cultivada que a Ligação Agro-Pecuária de Kamicundo dá o ar à graça e quer continuar a manter o "Cartaz de arroz” angolano, colocando entre os principais desafios uma evolução dinâmica dos indicadores actuais, até se alcançar um território de produção de 2.000 hectares.
"O objectivo é, cada ano, produzir mais”, já que "limites não há”, pois, "podemos ter uma boa safra, mas não estamos satisfeitos, porque queremos mais”, assegurou Paula Lopes, a pivô da agora baptizada "Fazenda Arrozeira de Camacupa”, que dista 17 quilómetros da sede do município que leva o mesmo nome, na província do Bié.
De início, o projecto teve dificuldades de preparar os primeiros 200 hectares, em que se propuseram experimentar a produção de arroz. Ano após ano, os mentores olharam para a iniciativa como tesouro e a fizeram crescer mais no campo de canteiros, que permitiram obter mais experiência no cultivo e, hoje, ajudarem, também, na melhor interpretação do comportamento do clima de Camacupa.
"Já sabemos muita coisa, com que podemos contar, e as pessoas já têm mais experiência e discernimento, para termos mais produtividade, já que as coisas se tornaram fáceis com a experiência que fomos adquirindo no campo”, certificou Paula Lopes, para quem, agora, "é empurrar para frente”, uma vez que "a coisa com que nos preocupamos é aumentar a nossa quantidade, mas manter a nossa qualidade ou, talvez, atingir a excelência na produção de arroz”.
Neste momento, a Fazenda Arrozeira de Camacupa é a número um na produção de arroz, se comparada aos demais projectos dessa natureza, muito perceptíveis nas províncias de Cuando Cubango, Moxico, Bié, Huambo e Uíge. A visível fazenda do Ringoma é também um cartaz que vem tirar chapéu a um conjunto de países vizinhos. "Temos muito orgulho e honra de sermos um cartaz, mas desejamos que os outros produtores do país sejam também um cartaz como nós”, augurou Paula Lopes.

"Produzimos, descascamos e vendemos”
Desde 2020, a Arrozeira de Camacupa semeou perto de 900 hectares, para uma razão de produção, em média, de oito toneladas e meia por hectare, ainda que as perspectivas reais apontem para nove ou 10 toneladas por hectare, caso a colheita se mostre bem-sucedida, no final da campanha.

Contudo, é segredo neste cereal que um canteiro semeado a menos de um ano produz menos, devido ao equilíbrio que a própria terra em uso precisa, além de outras adaptações necessárias. No caso em reportagem, todos os dias mais investimentos são feitos, consoante as necessidades e os problemas e dificuldades que aparecem. "Conseguimos investir consecutivamente e não temos problemas em relação a isso, graças a Deus. Dado isso, apresentamos a evolução que temos hoje”, garantiu Paula Lopes.
A indústria de arroz de Camacupa ainda não tem um comprador específico, porque não quer dar monopólio à comercialização do seu produto a nenhum empresário específico. "Estamos abertos a todos os empresários nacionais e quem quiser comprar, estamos aqui para vender, estamos aqui para explicar as coisas, estamos aqui para ajudar a alargar o nosso produto e, também, para que os empresários angolanos nos ajudem a pôr o nosso produto em todas as províncias, em todos os municípios e em todos os sítios”, especificou a pivô do "Arroz de Camacupa”.

Por esse facto, toda a produção da fazenda é encaminhada para os grossistas de Angola, sendo e exactamente com esse sentimento que a Fazenda Arrozeira de Camacupa quer contribuir para a economia angolana, ao mesmo tempo que alicerça à nova estratégia para, mais tarde ou mais cedo, reduzir o custo daquilo que é produzido em Angola, que hoje em dia é um bocado difícil o seu cenário, para ter um preço final satisfatório para o povo, devido aos custos de produção que se apresentam bastante elevados.
Até Maio passado, a Arrozeira de Camacupa tinha colhido perto de três mil toneladas de arroz e descascado 600 toneladas, do resultado do plantio feito em 2020, que ainda promete uma óptima safra na colheita do ano em curso. "Quando acabarmos de descascar o arroz, é que podemos assegurar quantas toneladas a gente produziu para o mercado angolano”, garantiu Paula Lopes.
De sublinhar, que por ano planta-se apenas uma vez. Mas, por se estar a aplicar o sistema de respiga em experiência, para se aferir se o mesmo é positivo ou não, a presente época de produção promete mais algum proveito. "Se os custos para a respiga não forem muito altos, continuaremos a aplicar essa técnica”.

Para já, três silos armazéns, cada um com capacidade para 1.400 toneladas suportam as actuais necessidades de armazenamento da principal produção da fábrica. Além dessa infra-estrutura de armazenamento, outros três silos foram já preparados, para servirem de celeiros. A direcção do complexo agro-industrial justifica os atrasos na conclusão da obra com a crise provocada pelas medidas de protecção contra a Covid-19, que impossibilitou a presença de técnicos de montagem no país.
"Este ano não vão servir como celeiros, mas estarão preparados para o ano que vem e podemos dizer que a capacidade que temos neste momento pronta, para armazenar arroz, é pouca para o que estamos a retirar e vamos continuar a tirar do campo”, informou Paula Lopes.
A perspectiva de investimento em celeiros pode continuar em 2022, caso a direcção da Fazenda Arrozeira de Camacupa não desista do sonho de aumentar a área produtiva dos actuais 900 para 1.200 hectares. "Trabalhamos numa área muito difícil, muito problemática e temos muitos obstáculos a vencer no próprio terreno, além do de transformarmos o terreno em canteiros positivos. Se tudo correr bem, se fizermos mais trezentos hectares, será um resultado positivo para nós”, sustentou a pivô.

Custos e gastos
Os custos globais do investimento até aqui realizados não são conhecidos, porque a respectiva direcção diz que a contabilidade actual está longe de fornecer dados reais. Contudo, facilmente se percebe que o que foi feito até aqui, em infra-estruturas agro-pecuárias e industriais e demais equipamentos da cadeia produtiva, supera a barreira dos 500 milhões de dólares.
Segundo Paula Lopes, já foi feito muito investimento, uma vez que todos os dias são feitos novos investimentos e, "como não sou contabilista, só sei que o investimento é grande e sempre que queremos investir accionamos o nosso principal investidor (o Banco BIC), para novas necessidades, para progredirmos e para desenvolvermos e, nisto, temos estado a ser correspondidos positivamente”.
Conhecido são os gastos com equipamentos de produção e combustível. Cerca de 16 geradores industriais instalados no local consomem, todos os meses, entre 50 a 60 mil litros de gasóleo, apenas nesta fase em que não se trabalha o campo de cultivo (neste momento apenas se faz colheita). Mas, quando se chegar à altura de se fazer mais hectares, de preparar mais canais de rega, mais canais de enxugo, de fazer mais estações de bombagem, os gastos ultrapassam 90 mil litros por mês.
Só a área de secagem de arroz consome, 24/24 horas de labor, perto de dois mil litros de gasóleo e isso é tido como "um gasto diário enorme”, só em secagem do arroz. De acordo com Paula Lopes, estes são os principais factores que influenciam o custo actual do quilograma daquilo que é produzido na fazenda Arrozeira de Camacupa, incluindo da própria casca do arroz, que também é comercializada.
Ao grossista, um quilograma de arroz é vendido, à porta da fábrica, ao preço médio de 630 kwanzas, com o IVA já incluído. O quilograma de ração sai, dependendo da sua qualidade, a 220, 330 ou 430 kwanzas e o de farinha de arroz a 125 kwanzas. Apesar desses indicadores, o preço pode sair mais baixo se o grossista compra o produto em toneladas ou em paletes, dependendo da preferência do cliente.
  Semente bem adaptada provém do Brasil

A qualidade do arroz produzido em Camacupa tem origem brasileira e é conhecida por arroz agulha longo ou grão longo. Há outros tipos de sementes que se adaptam com facilidade na região, porém, não garantem um rendimento desejável e compatível com o investimento.
Na Fazenda Arrozeira de Camacupa todas as sementes, importadas na sua generalidade, são estudadas, para se perceber qual é a sua evolução no terreno, quanto pode dar, quantas correcções devem ser feitas, tendo em atenção que as sementes são obtidas de países com outros comportamentos climáticos e carecem de adaptação ao clima angolano.

O "Arroz de Camacupa”
Com 74 colaboradores directos, a Ligação Agro-Pecuária de Kamicundo tem como um dos maiores clientes as indústrias de produção de cerveja, aos quais são direccionados grande parte dos restos do "Arroz de Camacupa”. Kamicundo é o nome de uma aldeia da comuna do Ringoma, onde se localiza o pomposo projecto de produção acentuada de arroz.
Como bem ironizou Paula Lopes, "a cerveja angolana é feita com a migalha do arroz daqui e todo angolano que bebe cerveja está, necessariamente, a consumir o arroz produzido em Camacupa. Portanto, nenhum angolano que bebe pode dizer que não come o ‘Arroz de Camacupa’”.

Contudo, é na Fazenda de Santo António, no município da Quibala, província do Cuanza-Sul, onde a farinha de arroz é levada e melhor aproveitada e bem absolvida, essencialmente pelos criadores de gado.
A Ligação Agro-Pecuária de Kamicundo embala o arroz de primeira em sacos de um, 15 e 25 quilogramas. O arroz de primeira tem 75 por cento de grão inteiro e o de segunda 25 por cento de "30 draga”, que é quase metade do arroz.
Essencialmente, o arroz de segunda é destinado para os que têm pouco poder de compra, ainda que, numa panela, pouco se note a diferença entre o arroz de primeira e o de segunda.
Já com um número satisfatório de clientes, que transportam aquilo que é produzido às províncias de Benguela, Huambo, Huíla e Luanda, a Ligação Agro-Pecuária de Kamicundo aguarda por mais constituintes que comprem um mínimo de 30 toneladas do seu produto.
Além de oferecer ao país o agradável "Arroz de Camacupa”, a Ligação Agro-Pecuária de Kamicundo produz farinha de arroz para ração, vende desperdício de arroz para ração animal, vende arroz de primeira em quantidades diversas (um, cinco, 15, 25 e 100 quilogramas), de segunda em pesagens de 15 e 25 quilogramas e, também, vende a "30 grada”, esta última mais consumida pelas escolas, fazendo-se arroz-doce e sopas, no quadro da merenda escolar.
A fábrica da hoje denominada "Fazenda Arrozeira de Camacupa” começou a funcionar em Agosto de 2019, sendo hoje considerado pelos mentores como sendo "um investimento bem feito e muito proveitoso”.

Cooperação institucional
A Fazenda Arrozeira de Camacupa apoia as necessidades técnicas e de estudo de duas universidades do país, sendo uma do Huambo e outra de Luanda, além de ajudar escolas agrícolas da região centro, que para Ringoma se deslocam para fazer estudos e experiências.
Aos universitários a fazenda assegura espaços para cultivo e adubo e sementes com que se fazem experiências e são executados os trabalhos e obtidos os resultados desejados. "Estamos abertos aos pequenos produtores que tenham dificuldades e que queiram aprender, pois, nós também aprendemos com quem sabe, com quer trocar experiência e com quem quer adquirir mais experiência”, enfatizou Paula Lopes.
De qualquer modo, "trabalhamos para nós, mas deixamos as portas abertas para quem precisar da nossa ajuda sobre produção e técnicas de arroz. Quem estiver interessado, toda a assistência logística (comida e dormitório) é aqui fornecida no local”.

Cuando Cubango adormecido

Há anos que a província do Cuando Cubango perde, por cada ano que passa, 15 mil toneladas de arroz, como resultado da paralisação do seu maior centro de produção desse cereal, ao Baixo Longa, na comuna de Longa, município de Cuito Cuanavale, que fica a escassos 86 quilómetros a Leste da cidade de Menongue, a sede da província.
Cuito Cuanavale já foi uma referência de excelência na produção de arroz, concorrendo apenas com os vizinhos Bié e Moxico. Hoje, contam-se aos dedos os que apostam no cultivo desse excelente alimento. Conta-se que no Cuito Cuanavale, um ou outro produtor cultiva, em pequeníssima escala, na produção de arroz, com níveis que nem alcançam duas toneladas.
Em meio desses grandes desafios, há no Cuando Cubango, numa outra direcção (entre Menongue e Chitembro (Bié), o Pólo Tchilandangombe, numa comuna que dista 66 quilómetros da sede municipal do Cuchi. O produtor AlféuVinevala apostou 18 milhões de kwanzas para produzir arroz, num espaço de 200 hectares. Porém, resultado da estiagem que se fez sentir na região Centro e Sul do país, a experiência conseguida numa das áreas de referência da comuna de Cutato, resultou em um total fracasso.
Alféu Vinevala investiu um pouco mais de 600 milhões de kwanzas, não apenas para produzir arroz. O investidor agrícola garantiu não baixar os seus esforços e promete injectar no mercado, em 2022, numerosas toneladas de arroz, trigo, feijão-frade e massango. A esse esforço, deve, certamente, juntar-se os esforços do empreendedor que venceu o concurso para a exploração de um dos maiores empreendimentos agrícolas do país.
Anteriormente pertença da Gesterra, depois de uma péssima experiência com o Fundo Soberano, o monstro adormecido num espaço de 5 mil hectares do Longa já consumido, dos cofres do Estado, mais de 77 milhões de dólares. Com a experiência chinesa, o projecto já chegou a produzir 15 mil toneladas por ano, em três anos experimentais, depois baixou para três mil toneladas, até paralisar, há dois anos.

Triste é ver o cenário desolador em que esse grande empreendimento está votado. Triste também é perceber aonde param os 200 trabalhadores (100 chines e 100 angolanos) que abraçaram a fase experimental. Pior que tudo isso, é perceber como esses trabalhadores não tiveram experiência suficiente para continuar, por livre iniciativa, com a produção de arroz.
O certo, conforme garantiu o administrador da comuna, Jorge Bonefácio Chimantu, é que apenas um camponês, que nem sequer pertence às 23 associações de produtores registados no Longa, jurisdição com um pouco mais de 18 mil habitantes, produz arroz de forma de subsistência, há 22 quilómetros da sede comunal, na aldeia de Cuilili. Contrário do que se faz no Huambo, o Cuando Cubango não tem programas de formação de pessoas interessadas, para incentivo e relançamento da produção do precioso cereal em espaços com capacidade de produzir 14 variedades do produto, dos mais de 36 tipos que foram experimentados.
Experiência piloto foi lançada na região de Ekunha
A experiência para o relançamento da produção de arroz em Angola foi efectivada no município de Ekunha, na província do Huambo, e Emílio Livongo Evaristo foi um dos contemplados, tendo, nessa estreia, testado várias espécies de sementes, até acabar por optar pela variedade que vem da região moçambicana de Limpopo.
Esse seu ensaio piloto, feito em apenas um hectare (100 por cem metros) foi sustentado pela forte experiência japonesa no cultivo de arroz. Inicialmente, abraçaram o projecto no Ekunha três camponeses. Hoje, são achados 80 voluntários a fazerem do cultivo de arroz um novo ganho, no meio de outras culturas que os camponeses praticam na região.

Todos os anos, cada camponês que apostou no arroz procura alargar o espaço de plantação que possui. Mas, é exactamente a estiagem cíclica, que muito afecta a região centro-sul do país, que "dá ar à sua graça” e sufoca o sonho dos que apostam nessa cultura na província do Huambo que, na sua generalidade, são pequenos produtores.

Ainda assim, Ekunha conta, desde a última época de plantação (2020-2021), com uma área de 21 hectares de arroz, resultado do empenho dos 80 produtores controlados e assistidos pelas autoridades governamentais do município, alguns destes a praticarem o cultivo de forma individual ou agrupados em associações e cooperativas.
Para as autoridades locais, a medida que se vão incrementando valências, seja do ponto de vista de inputs e de maquinaria de ampliação do espaço de cultivo, outras pessoas vão ficando interessados no cultivo de arroz.

"E fica aqui o compromisso de continuarmos a trabalhar nesse segmento de produção de arroz, para que mais camponeses se envolvam nesse trabalho, mais pessoas estejam interessadas a cultivar o arroz e criarmos todas as condições, nos mais variados segmentos que compõem a cadeia de produção, para sermos auto-suficientes na produção desse cereal a nível nacional”, almejou Hemetério Tiago, o administrador do Ekunha.
  Responsabilidade governamental

Para a Administração Municipal de Ekunha, é responsabilidade do Governo potenciar os produtores com fertilizantes, já que, muitas das vezes, os camponeses ou associações não têm capacidade de o fazerem, para melhorar as extensões de terra que possuem. "Como sabem, o arroz requer grandes quantidades de fertilizantes e estamos a falar em 1,5 toneladas por hectare”, sublinhou o administrador.

De referir que nesse tipo de cultivo, o arroz é colocado em uma área com grande quantidade de água, na qual os fertilizantes também têm a sua decomposição de forma mais rápida, razão pela qual o atendimento a esse segmento de produção com os compostos necessários (adubo 12-24-12 e sulfato de amónio), para que se tenha produto de qualidade na fase de colheita, é também urgente.
"Estamos a falar em quantidades que dependem muito do espaço onde está implementada a própria cultura, temos de avaliar o desnível do terreno, temos de avaliar o tempo que se está a utilizar o espaço (produção no mesmo espaço), temos de ver a variedade, porque cada variedade de arroz tem necessidade de uma certa quantidade de fertilizante e adequá-la ao fertilizante mais requerido para a sua acomodação”, apontou Hemetério Tiago.

No município de Ekunha há essa grande necessidade, que a Administração não quer ignorar, no quadro das suas responsabilidades de trabalho que concorrem que os factores de produção inerentes estejam sempre disponíveis, para que o sucesso na produção e expansão do cultivo de arroz seja também bem garantido.

Crescendo com a inexperiência
Em 2014, o município de Ekunha, província do Huambo, foi agraciada com uma cooperação de especialistas em matéria de cultivo de arroz. Nessa altura, foram seleccionados e formados certos camponeses com alguma capacidade de produção, do ponto de vista de terras próprias para cultivo de arroz. Ao lado destes, foram também formados outros camponeses da província do Bié, que passaram a ser instrutores de outros cidadãos interessados no cultivo de arroz.
Actualmente, essas pessoas estão ou a trabalhar de forma particular, ou agrupadas em associações ou cooperativas. No Ekunha, há persistentes e animadores sinais do trabalho que se faz em torno do relançamento dos grandes campos de arroz. A própria Administração do Município reconhece que "há uma vontade expressa de cada um destes indivíduos e associações crescerem, mas, infelizmente, faltam os apoios, para aumentarem a extensão de terras de produção e para melhorarem as sementes que são mais produtivas, comparativamente aos terrenos que temos”.
De qualquer modo, o arroz no município de Ekunha é um facto e esse município é, sem qualquer dúvida, o grande centro de produção de cereais da província do Huambo. No campo do arroz, estima-se uma produção de sete toneladas por cada hectare plantado e em função das variedades e de algumas técnicas ainda não bem aprimoradas, como é caso a terra que deve ser devidamente preparada, a adubação que deve ser cuidadosamente feita e na dosagem adequada, além de outros factores técnicos que devem ser implementados ao nível das áreas de produção.
Quando por qualquer razão todos esses elementos não têm a sua sequência, necessariamente verifica-se um acentuado decréscimo nos indicadores de produção. A estiagem que se verifica na região do Planalto Central, mas precisamente no Huambo e Benguela, tem sido um dos factores externos para as perdas significativas que se registam.

A sacha e o distanciamento entre as plantas e entre as linhas são também elementos técnicos que influenciam numa boa produção. "Quando não se verificam estes procedimentos, baixa consideravelmente a produção”, referiu o produtor Emílio Livongo Evaristo.

Contudo, os produtores que praticam hoje o cultivo de arroz têm tido, de facto, algum rendimento, já que o Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA) tem assistido os mesmos com algum manual, que os ajuda a acompanhar, do ponto de vista técnico, a produção. Quando cumpridos com o rigor exigido, facilmente os produtores conseguem colher mais de sete toneladas por cada hectare.

No meio dos problemas está a legalização dessas terras que são potenciais produtoras de arroz, para que os respectivos camponeses tenham a possibilidade de acorrer aos créditos bancários, por via do PRODESI, do FRACA ou dos variados projectos do Ministério do Planeamento e Economia, já que, uma vez potenciados com tais iniciativas, os visados podem aumentar a área de cultivo e, também, aumentar, de forma efectiva, a quantidade do que se produz a nível do município.

Ao nível da Administração Municipal de Ekunha, há garantias de um bom acompanhamento técnico e metodológico. "Também, temos potenciado os nossos produtores com aquilo que está à disposição da Administração, como fertilizantes, e muitas das vezes com a ampliação das suas terras e com a aquisição de sementes melhoradas”, admitiu Hemetério Tiago.
Em linhas gerais, disse o administrador, há um conjunto de esforços, por um lado dos próprios camponeses e, por outro lado, do Governo, por via da Administração Municipal, além de uma terceira variante, que tem sido a busca de financiamento, por via dos créditos que podem potenciar todo esse segmento de produção e, quiçá, ver o nosso município auto-suficiente na produção de arroz.

Tratamento do arroz
O arroz que é obtido dos 21 hectares explorados no Ekunha tem sido descascado numa máquina que somente está capacitada para tratar, diariamente, 600 quilogramas. As autoridades do município tudo fazem, para potenciar a região com um equipamento capaz de descascar mais quantidades por dia e motivar a maior produção.
As espécies de arroz mais preferidas pelos camponeses são a Siliwa, Nérica, Carolina e Irriga. Anualmente, a terra é preparada no mês de Setembro e, em Outubro, são feitos os canteiros. O mês de Novembro é reservado para a sementeira em viveiros e Dezembro para a transplantação. Mil e quinhentos quilogramas são necessários para produzir um campo de um hectare. O tempo de maturação do arroz vai de 90 a 120 dias. Contudo, há espigas que, anualmente, produzem duas vezes.

País precisa de 45 campos de mil hectares cada, para parar com a importação de arroz
Angola precisa, hoje, de pelo menos 45 campos de produção de arroz do tamanho e capacidade de plantio igual ao de Camacupa (mil hectares por 10 toneladas), província do Bié, para fazer face às necessidades reais de consumo actual do país, em torno de 450 mil toneladas por ano, de acordo com os dados compilados por este jornal.
O indicador pode cair para metade, se o investimento contínuo que faz Camacupa atingir a meta desejada, que tende a expansão do actual campo de produção, de aproximadamente mil hectares e cuja colheita ronda as 10 mil toneladas ano, para dois mil hectares.
Em 2016 e com o financiamento da Agência de Cooperação Internacional do Japão, no quadro do Projecto de Desenvolvimento de Cultivo de Arroz em Angola, o país já chegou a produzir cerca de 25 mil toneladas de arroz (aproximadamente seis por cento das importações actuais), das quais 12 mil toneladas foram sustentadas por cooperativas familiares.

Se perseguida, a capacidade total do "gigante” angolano do arroz acautela, com toda a destreza, a inserção no mercado nacional de 20 mil toneladas somente numa primeira colheita anual. Note-se que Camacupa testou este ano, com bastante sucesso, uma segunda safra na mesma área em que colheu, até finais de Maio, perto de nove mil toneladas de arroz.
Ao final deste ano, a injecção do "Arroz de Camacupa”, ensacado, deve situar-se em 10.800 toneladas, a julgar pelo actual indicador diário de produção, de 30 toneladas por dia. Numa outra dimensão, Camacupa representa 2,44 por cento das necessidades reais de consumo que a estatística comercial nacional sustenta (450 mil toneladas ano).
Em relação à importação actualizada, que está em torno de 400 mil toneladas ano, o "gigante” do arroz do país representa 2,75 por cento.

Compilados, os indicadores mostram que não será tão cedo que Angola vai se desfazer da importação do arroz, ainda que a produção industrial semi-controlada, maioritariamente de empresas familiares, é um facto em quase todos os municípios do Planalto Central, localidades em que foram instaladas pequenas indústrias de descasque de arroz.
Apesar do excelente sabor e do equilibrado preço que o arroz produzido em território angolano oferece, o convívio com o cereal importado, com alguma parte deste com indicadores de contrafacção, será ainda uma patente a vencer a médio ou longo prazos, se os investimentos nessa área forem feitos aos soluços.
Associado à problemática dos investidores, é também imprescindível olhar pela fraca capacidade da indústria instalada em grande parte dos principais centros de produção. Por exemplo, Alguns municípios do Bié, como Cuemba, Camacupa, Cuito, Chinguar e Nhãrea, têm sob controlo do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA) pequenas indústrias com capacidade mínima de descasque de 400 toneladas de arroz por dia.
As máquinas foram concebidas para facilitar a actividade produtiva das famílias camponesas. Ainda assim, as pequenas indústrias instaladas nos principais centros de cultivo de arroz do país têm se confrontado com problemas de falta de energia eléctrica.
Para ser independente da importação do cereal e manter perspectivas reais de crescimento e stock, Angola precisa de cultivar um mínimo de 54 mil hectares, que na estatística real (8,5 toneladas por hectare) geram 459 mil toneladas de arroz por ano e um excedente sobre o consumo real de 9 mil toneladas.

São regiões tradicionais no cultivo de arroz as províncias de Bié, Malanje, Moxico, Lunda-Sul e Lunda-Norte, mas aos desafios do Governo juntaram-se vários outros municípios das províncias de Cuando Cubango, Huambo, Benguela e Uíge.

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