Especial

“Presos políticos eram queimados vivos em um forno feito de pedra”

César Esteves

Jornalista

Os actos cruéis praticados contra muitos nacionalistas angolanos, antes de 1975, na cadeia de São Nicolau, hoje Bentiaba, província do Namibe, por lutarem por uma Angola livre do colonialismo, só podem ser comparados com as cenas de filmes de terror. Encarcerados, muitos eram retirados das celas, na calada da noite, para serem queimados vivos num forno feito de pedra.

30/11/2021  Última atualização 08H40
Cadeia de São Nicolau, hoje Bentiaba, província do Namibe © Fotografia por: Dombele Bernardo | Edições Novembro
O relato dramático vivido por esses nacionalistas anónimos, que não pouparam esforços para livrar Angola do jugo colonial, é contado pelo também ex-preso político Zé Carlos, mais conhecido por "Tchindessen". Hoje dedicado à agricultura, Zé Carlos escapou do fogo ardente daquele forno, porque a sorte bateu-lhe a porta. "Até hoje, custa-me acreditar que saí vivo da Cadeia de São Nicolau”, conta, com o rosto carregado de mágoas.


Zé Carlos lembra que, no dia em que os carrascos da cadeia foram buscar os colegas na cela, para serem queimados, ele foi deixado de parte. "Eu não fiquei porque eles não me queriam matar, mas porque Deus tornou-me invisível aos olhos deles”, acredita.
Os nacionalistas mais propensos a serem queimados, segundo conta, eram aqueles mais inteligentes e que, mesmo presos, não paravam de alimentar o sonho de um dia ver Angola independente. "Eles matavam, preferencialmente estes, porque não queriam na cadeia quem continuasse a encorajar os demais a acreditar numa Angola livre do colono”, ressaltou.


Nessa altura, lembra Zé Carlos, a Cadeia de São Nicolau era dirigida por um senhor cujo único nome de que tem memória é "Lima”. "Este senhor Lima não tinha alma. Não era uma pessoa como nós, com sentimentos”, recorda. Encontrámos Zé Carlos na sua lavra, no bairro Cambico, adjacente à Cadeia do Bentiaba, a cerca de 140 quilómetros da cidade de Moçâmedes. O encontro só foi possível com a ajuda de um funcionário da cadeia do Bentiaba, afecto ao centro de saúde, que nos guiou até ao homem. Antes, havíamos revirado a zona, habitada maioritariamente por ex-presos da Cadeia do Bentiaba, atrás de um sobrevivente de São Nicolau, mas sem sucesso.


Tudo apontava não haver nenhum deles a viver aí, até que um morador falou de Zé Carlos. Para alcançar a zona onde estava, foi necessário atravessar o rio Bentiaba. Essa parte da jornada foi fácil de cumprir, porque o rio estava seco. Segundo moradores da zona, o rio só enche quando chove. A falta de chuvas agudiza a situação da população local, que precisa permanentemente de água para dar de beber o gado e manter as culturas. Sentado à sombra de uma pequena árvore, ladeado da esposa e da sobrinha, o ancião, que já não se lembra da idade, muito menos de quando nasceu, recebe-nos com algum receio. No primeiro contacto, nega ter sido preso político. "Eu não fui preso político. Continuem a procurar. Deve ter alguém no bairro”, frisou.


Dada a insistência, Zé Carlos, que não fala fluentemente português, admitiu "ter passado pela cadeia de São Nicolau”, mas não como preso político. Apenas por ter batido na mulher. "Ela foi lá me queixar e fui preso”, realçou. O objectivo da reportagem era encontrar quem tivesse sido preso político na Cadeia de São Nicolau, antes da Independência, a fim de nos reportar como eram tratados pelos portugueses. Não tendo sido um preso nessa condição, agradecemos pela recepção e metemonos a andar, em busca de quem tivesse sido, realmente, preso nessas condições. Não tínhamos percorrido mais de 30 metros quando uma voz pediu para pararmos. Era o sobrinho de Zé Carlos, que acabava de chegar da lavra.

"Qual é o problema aqui?”, questionou. Após as explicações sobre a nossa presença, o sobrinho, contrariando as palavras do tio, revela que ele foi, sim, preso político, antes da Independência e que a história da prisão por bater na mulher não passava de invenção. Afirma que, em função dos traumas que ainda carrega da cadeia de São Nicolau, não aceita falar muito do assunto, sobretudo com pessoas estranhas. "Um irmão dele foi queimado no forno”, contou o sobrinho.



Salvo pela Independência

A revelação levou-nos novamente até Zé Carlos. Já com o sobrinho ao lado, o ex-preso político aceitou abrir-se e revelar outros detalhes registados na cadeia de São Nicolau, quando esteve lá. Contou que a sua ida àquela cadeia se deveu ao facto de se ter aliado a um grupo que se batia pela Independência do país. Zé Carlos contou que só ficou a saber que as pessoas retiradas das celas, na calada da noite, eram mortas quando saiu de lá, já depois da proclamação da Independência. "Não havia como saber onde as pessoas eram levadas e o que faziam com elas, porque os portugueses não falavam”, salientou.


Disse ter sido nessa altura que ficou a saber da existência do forno onde o seu irmão e outros colegas de cela foram queimados. O ex-preso político disse que um outro método usado na cadeia de São Nicolau, para matar os nacionalistas, era dar-lhes trabalhos forçados. Aquele que se mostrasse incapaz de cumprir a tarefa, recorda, era morto mesmo na presença de outros presos. O ex-preso político salientou que aquele era um dos métodos muito usado na cadeia para levar os presos a realizarem tarefas pesadas sem reclamar.

Embora tenha escapado uma vez da morte, sabia que a qualquer momento chegaria a sua vez. "Se a Independência levasse mais alguns meses a acontecer, eu não estaria aqui a falar com o senhor”, rematou. O ex-preso político referiu que a Independência Nacional apareceu como soltura. "Com a chegada da Independência, todos os presos políticos foram soltos”, lembra.



Cinzas dos cadáveres permanecem na cadeia


O escombro do forno, com sinais de cinza das pessoas aí queimadas, ainda permanece na cadeia do Bentiaba. O director interino do Estabelecimento Penitenciário do Bentiaba, superintendente prisional Ezequiel Calupeteca, que nos levou para conhecer o lugar onde o forno estava montado, ressaltou que muitos nacionalistas foram mortos aí para esvaziar as celas, sempre que estivessem sobrelotadas. O responsável não precisou o número de nacionalistas mortos naquele forno, mas disse não terem sido poucos. "Basta ver a quantidade de cinzas no escombro do forno, para se ter uma ideia”, aclarou.


Desejo de ouvir gritos de presos

A cadeia do Bentiaba já não dispõe de muitos documentos que relatam os acontecimentos ocorridos aí, antes da Independência, sobretudo o tratamento dado aos nacionalistas. Mas, dados fornecidos ao director interino da cadeia, por um ex-funcionário do então São Nicolau, revelaram cenas de arrepiar. Ezequiel Calupeteca conta que a mulher do director da então Cadeia de São Nicolau, o Lima, não aceitava almoçar sem antes ver um nacionalista a ser torturado. "Segundo a fonte por mim consultada, ela gostava de ouvir o grito sofrível dos nacionalistas. Só assim é que ela comia”, conta.


A cadeia do Bentiaba 

A Cadeia do Bentiaba encontra-se localizada na vila com o mesmo nome, pertencente ao município de Moçâmedes. Está situada numa área rodeada de montanhas e o próprio rio Bentiaba, o que lhe confere o formato de um oásis. É considerado o único estabelecimento prisional do país a céu aberto. Consta que a zona era apenas de produção agrícola, mas, dada a sua localização geográfica – própria para isolamento – o Governo colonial português transformou-o em cadeia para presos políticos. Além de estabelecimento prisional, é um verdadeiro campo de produção agrícola. No local são produzidos vários tipos de produtos agrícolas que abastecem a cidade de Moçâmedes e não só.


No perímetro da cadeia há um cemitério onde estão enterrados centenas de nacionalistas que perderam a vida enquanto presos. À semelhança do cemitério, há outra estrutura que também guarda, fielmente, a passagem dos portugueses por aí. Trata-se de um Forte, com duas celas construídas de pedras e sem janela, com capacidade para apenas um preso, cada. Mas, de acordo com o director interino da cadeia, foram colocados nestes lugares mais de dez. "A falta de oxigénio levava muitos presos à morte”, conta o director.


Apesar de continuar a ser um lugar de privação de liberdade, Ezequiel Calupeteca disse que os presos de hoje não vivem o drama vivido pelos nacionalistas que aí se encontravam. O director disse não ter ideia da capacidade de internamento da cadeia, na era colonial, tendo assegurado apenas a capacidade actual que é de 1.300 reclusos. Hoje estão internados 997 reclusos.

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