Política

Presidente da República lança apelo ao diálogo para a paz no continente

Ismael Botelho

Jornalista

O diálogo permanente entre os africanos, considerado uma questão central a nível global nos tempos que correm, constitui a melhor via para a garantia da paz permanente a nível do continente africano.

28/11/2021  Última atualização 07H33
© Fotografia por: Kindala Manuel | Edições Novembro
A conclusão é do Presidente da República, João Lourenço, que falava, sábado (27), na abertura da II edição da Bienal de Luanda - Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz, plataforma que constitui uma oportunidade de reflexão sobre temas que podem ajudar a construir os caminhos da paz e da harmonia entre os povos e as nações. 


Considerou, na ocasião, ser, igualmente, necessário reexaminar, com realismo, as estratégias anteriormente delineadas e adequá-las à conjuntura actual, fortemente afectada pela Covid-19, que condicionou em grande escala a execução dos planos de acção aprovados na anterior edição, realizada em 2019.

Antes da abertura da Bienal de Luanda 2021, o Presidente da República concedeu audiências separadas aos quatro Chefes de Estado presentes, nomeadamente, Marcelo Rebelo de Sousa (Portugal), Félix Tshisekedi (RD Congo), Denis Sassou Nguesso (Congo) e Carlos Vila Nova (São Tomé e Príncipe), com os quais abordou questões de cooperação bilateral e de amizade.  


Conflitos em África


Sobre os conflitos no continente, o Chefe de Estado afirmou que é de extrema importância procurar as reais causas do clima de conflitualidade ainda reinante, pois pouco mais de seis décadas de construção das independências e soberanias dos Estados africanos muitos conflitos persistem. "Temos que encontrar as fórmulas que nos levem a sair mais rapidamente da situação de incerteza e instabilidade com que nos deparamos", apontou.


Na sua perspectiva, impõe-se o reconhecimento da necessidade imediata de um esforço geral para se estancar o eclodir recorrente de conflitos de diversa natureza em toda África, que se constituem, como deixou claro no discurso, em factores de instabilidade e num forte entrave ao progresso e ao desenvolvimento do continente.    


Angola é um exemplo 

João Lourenço considerou o caso de Angola como um exemplo para o continente, por ter sido assolada por um conflito armado, que perdurou décadas, mas que conseguiu encontrar os caminhos da paz duradoura e projectar, em condições de estabilidade, a construção de uma sociedade democrática em que impera, hoje, o perdão, a reconciliação, a tolerância e o sentimento de solidariedade para com os povos. 


Por outro lado, disse, foi definida uma linha de conduta interna que impôs ao país a cultura da paz e da tolerância a todos os níveis da sociedade, para que o conflito armado ficasse, definitivamente, afastado.


"É com este espírito, resultante das conquistas políticas em prol da unidade nacional, que queremos continuar a consolidar a paz e a reconciliação nacional e avançar para o progresso económico e o bem-estar social", lembrou.  
Para o Chefe de Estado, Angola tem vindo a aprender a lidar cada vez melhor com as diferenças, enquadradas num contexto democrático em constante evolução e aprofundamento.


"É nesta atmosfera que vos quero desejar uma boa e produtiva estadia em Luanda, para que esta Bienal seja um sucesso digno de registo, com impacto benéfico e duradouro no nosso continente e em toda a Humanidade", reforçou.


Importância da Bienal


João Lourenço considerou a Bienal de Luanda uma aliança de parceiros, onde se congregam governos, agências das Nações Unidas, a União Africana, a União Europeia, os membros da organização dos Estados da África, Caraíbas e Pacífico, as universidades e organizações não-governamentais, associados num esforço comum de promoção da paz, bem como vector que ajuda a construir pontes entre povos e nações.  


A segunda edição, sublinhou, está próxima de concretizar o objectivo de constituir-se numa plataforma de referência que agrupa governos, sociedade civil, comunidade artística e científica, o sector privado e as organizações internacionais, no resgate e manutenção da paz, bem como na prevenção de conflitos e da violência em África.

 O Presidente da República reconheceu, igualmente, que não é sempre possível encontrarem vias e meios para solucionar os problemas que são colocados aos Estados, devido a um conjunto de limitações, dificilmente, superáveis no contexto das economias, em que os recursos, apesar de abundantes, estão muitas vezes inadequadamente colocados ao serviço do desenvolvimento nacional ou sujeitos às condicionantes do mercado internacional.   


"Importa sabermos identificar com objectividade as causas reais das nossas dificuldades, os caminhos a trilhar e os parceiros, verdadeiramente, interessados em apoiar o desenvolvimento de África", alertou. 


O Chefe de Estado afirmou que, em todo este esforço, é fundamental que os países africanos continuem a trabalhar na electrificação e industrialização do continente, melhorar as infra-estruturas, aumentar os postos de trabalho para os jovens, a oferta de bens e de serviços para as populações, além de satisfazer as necessidades de ensino e formação, para que o continente berço prospere de forma sustentável.


"É minha convicção que, com perseverança, podemos alcançar este nível de satisfação das nossas necessidades e avançarmos para uma etapa em que a África que queremos nos proporcione uma vida em paz, se torne atractiva, inclusiva, resiliente e privilegie o diálogo, por forma a que cada indivíduo se transforme num agente promotor da paz colectiva", considerou. 


A Bienal de Luanda 2021 começou ontem, além do anfitrião (João Lourenço), com a presença de quatro Chefes de Estado, nomeadamente, Marcelo Rebelo de Sousa (Portugal), Félix Tshisekedi (RD Congo), Denis Sassou Nguesso (Congo) e Carlos Vila Nova (São Tomé e Príncipe).

Além destas individualidades, contou, também, com a participação das Vice-Presidentes da Costa Rica e da Namíbia, a representante do Presidente de Moçambique, Josefa Sacko, em representação do presidente da Comissão da União Africana, Moussa Fakhi Mahamat, o representante do Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas e o Director-Geral-Adjunto da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, UNESCO, Xing Qu, bem como do corpo diplomático acreditado em Angola, membros do Executivo e da sociedade civil.


  Diáspora dispõe valências para o desenvolvimento do continente 

Relativamente aos africanos residentes na diáspora, o estadista angolano considerou que as valências podem ser úteis para ajudar os seus respectivos países e, por esta via, implementar estratégias de preservação e de utilização sustentável dos recursos marinhos e de protecção da costa, muitas vezes afectada pelas alterações climáticas.


 "Entre nós e a diáspora há um mar imenso que nos separa, mas que também pode servir de vector de progresso económico e de transformação social das comunidades ribeirinhas e do país em geral, pelo potencial que oferece em termos de recursos altamente valiosos para as economias africanas”, referiu.

João Lourenço considerou, ainda, ser imperioso encontrar e aplicar com sabedoria, coragem, unidade e sentido patriótico os abundantes recursos humanos do continente, dentro como na diáspora, os recursos minerais, florestais, hídricos e outros, ao serviço do desenvolvimento económico e social de África, para o alcance da prosperidade igual ao de outros continentes.   


Jovens incentivados a participar nos desafios da paz
O Presidente da República, João Lourenço, quer maior esforço na consciencialização dos jovens africanos para a cultura da paz, respeito pela Lei e a Constituição, bem como pelas instituições democraticamente eleitas e o reforço dos valores, em que se exprimem pessoas de diferentes gerações, através da música, do teatro, da dança, das artes, do desporto e de outras manifestações culturais.

Para o estadista angolano, a juventude africana deve constituir o fulcro de todas as estratégias voltadas para a paz, ser o ponto de partida e de chegada de toda a pedagogia, que se leve a cabo para se acalmarem os espíritos mais propensos à conflitualidade e à violência, iniciativas que devem ser promovidas nas famílias, escolas, organizações políticas, instituições religiosas e a sociedade em geral.

"É por esta via que os povos estabelecem entre si um diálogo intergeracional e intercultural ao nível das nações, o que cria um espaço de convivência, de compreensão e de entendimento entre todos, e consagra a importância da preservação da concórdia, da amizade e do respeito pelas diferenças", disse. 


A peculiaridade demográfica africana, referiu, que se expressa através de uma população maioritariamente jovem, coloca aos poderes públicos um conjunto de desafios, a necessidade de respostas, soluções que atendam e satisfaçam os anseios e as preocupações desta camada vital das sociedades no continente. 


O continente africano possui, na óptica do Presidente João Lourenço, uma vasta população jovem e com uma ampla e diversificada riqueza cultural, onde o traço de união singular se consubstancia na forma alegre de viver e de união, sempre em sã convivência, que merece de todos uma atenção especial.


"Estamos perante um conjunto de características das nossas gentes, que encerram um enorme manancial de sabedoria, que deve servir de base para a construção de uma mentalidade comprometida com a paz e o progresso do nosso continente", reconheceu.   


Fuga de cérebros


A fuga de cérebros foi, igualmente, um dos assuntos citados pelo Chefe de Estado, que lamentou o facto de muitos filhos de África abandonarem o continente em condições desumanas e com o risco de perda de vidas ao fugir de zonas de conflito, à procura de emprego e de melhores condições de vida, situação que pode ser evitada.  

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