Reportagem

“Prédio Sujo” do Marçal tem novo visual

André Sibi

Jornalista

O antigo “Prédio Sujo”, situado no Marçal, Distrito Urbano do Rangel, está com um novo visual, depois de ter beneficiado de obras de pintura na parte exterior. Há quem diga que tem uma nova designação: “Prédio Limpo” do Marçal.

05/06/2022  Última atualização 08H50
Antigo “Prédio Sujo”, situado no Marçal © Fotografia por: DR

Orlando Costa, morador do edifício há mais de 20 anos, disse ao Jornal de Angola que a transformação resulta de uma solicitação que a Comissão de Moradores fez à Fundação Obra Bela, uma ONG parceira da Administração Municipal do Rangel.

O também coordenador de um dos pisos do edifício de dez andares, conta que os moradores, cansados de tanto lixo, águas paradas, cheiro nauseabundo e maminhas ao redor do edifício, partiram em busca de uma solução.

A primeira investida levou os moradores a negociar com a empresa chinesa que concluiu, recentemente, a requalificação da rua Senado Câmara. Com a participação da referida empresa, foi possível a evacuação das águas escuras do edifício para os esgotos.

Feito isso, a Comissão de Moradores partiu para uma nova missão, que passava por encontrar a Fundação Obra Bela, uma ONG instalada no Rangel, parceira da Administração Municipal, que apoia a requalificação do município.

Além da pintura da fachada exterior, o acordo com a Fundação Obra Bela inclui uma segunda fase, que prevê requalificar o interior do edifício e a construção de uma quadra de jogos e outros equipamentos de apoio.

Sebastião Silva, secretário executivo da Fundação Obra Bela, que planificou e executou a pintura, explicou que o trabalho enquadra-se no âmbito do projecto "Marçal Limpo e Colorido”, lançado pela Comissão Administrativa da Cidade de Luanda, com apoio da Comunidade do Distrito Urbano do Rangel.

"Recebemos uma solicitação dos moradores do antigo ‘Prédio Sujo’ do Marçal, hoje ‘Prédio Limpo’ do Marçal e decidimos incluir a solicitação na rota das requalificações em curso no município”.

O responsável informou que foram mobilizados 150 jovens, desde pintores, pedreiros, carpinteiros, construtores, incluindo alpinistas locais, que limpam vidros de edifícios, que emprestaram o seu saber em benefício da comunidade a custo zero.

Acrescentou que sempre que a organização recebe uma solicitação desta natureza, informa os patrocinadores, que a fonte preferiu manter no anonimato.

Disponibilizados os meios necessários para a execução da obra, a ONG mobiliza os moradores da zona, rua, bairro ou edifício que vai beneficiar da requalificação, que também ajudam no trabalho.

As obras de pintura do edifício iniciaram no dia 22 de Março deste ano e duraram aproximadamente um mês e meio. Foram usados mais de 200 baldes de tinta de várias cores.

Sem revelar o investimento total, Sebastião Silva explicou tratar-se de um trabalho que os Amigos e Naturais do Rangel têm vindo a fazer para mudar a realidade do município que os viu nascer.

"Não esperávamos por esta intervenção que mudou o rosto do nosso prédio”, disse Janeth, uma das moradoras que vende ovo fervido debaixo do edifício.

Janeth explicou que no passado não era possível colocar cadeiras e pessoas sentadas debaixo do edifício. Acrescentou que era difícil assumir-se como morador do edifício devido à sujeira, lixo, águas paradas, ratazanas e cheiro nauseabundo um pouco por todos os cantos.

Tia Rosa, que vive no edifício há 31 anos, disse que a realidade mudou. No passado, para entrar no prédio, era necessário pisar por cima de pedras de um ponto ao outro.

O "Prédio Sujo” consta da lista de edifícios construídos pelas autoridades portuguesas nos  últimos anos que antecederam a independência de Angola e que não foram concluídos, devido à alteração da situação política.

Entre finais da década de 80 e princípios da década de 90 os populares começaram a ocupar os apartamentos do edifício inacabado de forma arbitrária até aos dias de hoje.

 

Estrutura

Orlando Costa informou que o edifício tem 120 apartamentos de tipologia T1, T2 e T3. No entanto, com as construções clandestinas hoje o edifício tem 156 moradias.

O prédio não tem energia da rede pública. No entanto, a Comissão de Moradores esclareceu que foram feitas várias tentativas junto da ENDE para se regularizar a situação de energia elétrica mas sem sucesso.

Em relação à água, o edifício conta com um pequeno empreendimento que fornece água aos apartamentos e cobra cinco mil kwanzas para o contrato e dois mil kwanzas pelo consumo mensal.

Das duas entradas principais para o edifício resta apenas uma, pois, a segunda foi transformada em moradia e acolhe uma família.

As fissuras, com mais de dois centímetros de abertura, dividem o edifício em duas partes e o perigo soma e segue dia e noite.

Interior do edifício

Na entrada principal do edifício a sujidade ainda faz morada. O mau estado de conservação das escadas, falta de iluminação e ventilação assustam e desmoralizam o olhar e a satisfação de quem sobe as escadas, sem corrimão.

Apesar desta realidade, os moradores aproveitam os corredores iluminados para colocar bancadas e negócios de todo tipo, desde bolinhos, cerveja e até mesmo grelhas para churrasco.

As partidas de futebol e outras brincadeiras infantis, que deviam ser realizadas no terraço, são feitas nos corredores dos pisos.

Sem a mínima noção do perigo resultante da ausência de corrimão, os kandengues correm de um lado para o outro, sem receio e na maior tranquilidade. "Nós não temos campo e jogamos mesmo aqui a bola”, disse Joãozinho o mais irreverente do grupo. "Esta é a nossa baliza e aquela é a baliza deles”, explica o mais novo. "Eu sou o melhor marcador” - disse António, que joga com a camisola 7 do 1º de Agosto.

Joana Bartolomeu, moradora do edifício há 12 anos, disse optar por viver no "Prédio Sujo” devido à facilidade que encontra para chegar ao centro da cidade.

Explicou que o preço do arrendamento varia de acordo com o estado de conservação e as dimensões do apartamento, podendo variar entre 20 e 30 mil kwanzas por mês.

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