Opinião

Preços “tundam” vontade de sumos naturais (V)

Carlos Calongo

Jornalista

Com a mão esquerda segurava o volante. A direita está ocupada com a metralhadora AKM, seu inseparável amor nas deslocações para fora do seu habitat. A regularidade no seu porte é mais evidente, sobretudo, quando se desloca a Luanda, famosa também pelos assaltos envolvendo motoqueiros que, muitas vezes, para lá de roubaram só o dinheiro, ainda matam os motoristas.

22/01/2022  Última atualização 06H50
Não restam dúvidas de que, maioritariamente, os assaltantes contam com a colaboração de terceiros, que fornecem pistas. Neste caso, descontando o puto Zé do Chacho que, todo "cagunfado”, vivencia pela primeira vez, a cor e ao vivo, uma tentativa de assalto, admitindo a hipótese de alguém ter dado a pista, as suspeitas recaem à dona Fátima, cliente que há cerca de 45 minutos entregou a João Remo, o dinheiro perseguido pelos meliantes.

Não se descarta a possibilidade de, segundo estórias narradas aqui na "nguimbi”, alguns destes miúdos actuarem com força de feitiço que os leva a dar conta que alguém está a andar com elevadas somas de dinheiro. Eles dão conta da massa,  por via do cinto que aperta a cintura de forma sofrível, ao se aproximarem de uma presa... Entretanto, até prova em contrário, as suspeitas não passam disso mesmo.

Encostando o máximo possível a motorizada à porta do motorista, o pendura empunha a pistola e com ela faz um sinal para que João Remo parasse a viatura, ordem não acatada pelo ex-comando das FAPLA que, fingindo abrandar a marcha, abriu a porta com força e com ela empurrou os jovens para a faixa contrária, que por uma unha não foram atropelados por um Hiace que vinha em bisga.

Com perícia típica de quem domina táctica militar de forças especiais de reacção rápida como são os comandos, João Remo fez uma rajada curta que despertou os transeuntes da Via Expressa, imediações do Estádio Nacional 11 de Novembro, que em debandada, num verdadeiro salve-se quem poder, colocaram-se em fuga, não fosse a vida tão boa como o milho e doce como o mel.

Claramente surpreendidos pela inesperada reacção do motorista, os motoqueiros, com redobrado esforço, inverteram a marcha em fuga, seguramente com o coração pesaroso, pois livraram-se de uma quase certa partida desta para a melhor. E como se diz, "quem tem c…tem medo”, os meliantes terão agradecido o deus deles.

Conhecido como grande desbocado, durante o desenrolar de toda a cena, Zé do Chacho não soltou uma única palavra. Todo borrado de medo, tinha a cabeça enfiada por baixo do porta-luvas, de onde só a tirou quando apercebeu-se que o perigo passou, a marcha do carro voltou a ser normal, numa condução mais urbana.

Da outra motorizada e seus ocupantes nenhum vulto mais se viu desde as imediações do Instituto Superior de Ciências Policiais, significando que não terão aguentado a pedalada do kota Remo que explora bem o motor da Land Cruiser, na plenitude da sua capacidade em termos de rendimento e velocidade.

Soltando uma gargalhada triunfal como quem celebra a vitória numa batalha,  João Remo aplica a "prancha” – 5ª velocidade- e, dirigindo-se ao "co-piloto”, perguntou se estava tudo bem, pois o silêncio não é nada intrínseco à personalidade do seu pupilo, que respondeu a pergunta com um simples levantar do polegar da mão direito, sinalizando que está tudo bem!

"Cassule, viste como um BAD age né. Aquilo era uma situação em que morres ou matas. Estes miúdos de Luanda pensam que todos os motoristas são bolo fofo que podem ser assaltados de qualquer forma...Desta vez enganaram-se. Eu sou o Kota João Remo. Escreve isso puto: comando uma vez, comando para a vida toda e mais seis meses”.

Sumbala os karkamanos sul africanos passaram mal nas nossas mãos, são estes fedelhos!…Desabafou  o agricultor, pouco antes de fazer uma paragem ao posto policial localizado ao longo da Via Expressa, nas imediações da Engevia onde, para os devidos efeitos e como bom cidadão, participou a ocorrência.

Satisfeito pela forma cordata como a jovem oficial do SIC em serviço no contentor adaptado em posto policial o atendeu, na sua forma característica, fazendo chiar os pneus da viatura que levantou uma enorme nuvem de poeira, João Remo retirou-se do local, rumo ao seu próximo destino, que é o mercado do km 30, por sinal a sua última paragem para, igualmente, recolher o dinheiro da mercadoria deixada com a dona Gonga e daí, bater estrada para o Kwanza-Norte.
(Continua)

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