Opinião

Preços “tundam” vontade de sumos naturais (IV)

Carlos Calongo

Jornalista

Com forte abraço de camaradagem e promessa de breve encontro em próximas vindas à Luanda, João Remo despede-se do chefe Baioneta, com o sentimento anónimo de nunca mais beber sumo natural em qualquer restaurante da capital do país, por mais vontade que tenha, pois os preços “tundam”/afastam tal desejo.

15/01/2022  Última atualização 07H15
Motor ligado, dupla aceleração que confirmou o estado impecável da viatura, Kota Remo sai em alta velocidade, fazendo chiar as rodas traseiras, como se fosse um daqueles garotos, "filhinhos de papai”, dados à rachas, com todas as suas consequências, muito delas, gravosas.

O percurso do bairro Prenda ao Rocha Pinto foi consumido em cerca de uma dúzia de minutos, facto admirado por dona Fátima, que aguardava a chegada de João Remo para com ele fazer as contas da mercadoria recebida dias antes, com destaque para laranja, ananás e tangerina.

- Pai, ainda agora que estavas no Prenda já chegaste? Estás andar então como!..Com um sorriso no lábio, próprio da satisfação de quem vai ver a conta bancária a engordar dentro de dias, João Remo respondeu: Até demorei, Fatimita. Aquí é pisar a sério, gabou-se, antes de concluir: Eu sou bom no volante e noutras coisas.

-Xeee pai, pára só ia, você é "assuntoso”. Não quero estas conversas a esta hora. Vamos só no que interessa, disse dona Fátima, que de seguida pediu para entrarem no carro e entregar o dinheiro, - pouco mais de 2 milhões de kwanzas-, resultado da venda das frutas.
Visivelmente satisfeito com a safra apresentada pela sua cliente do mercado do Katinton, João Remo ofereceu-se em pagar o almoço à senhora, que aceitou sem tergiversar, entre muitos agradecimentos, expressos em assobios que pareciam de homens caçadores, famosos por terem assobios bem afinados.

-Infelizmente não vou poder almoçar contigo, por mais vontade que tinha, porque ainda devo passar no mercado do Km 30 fazer as contas com a Tonha, que já me ligou para não demorar. Ela irá à igreja assistir um casamento de uma irmã, que é "sangue” dela, disse João Remo.

"Pelo menos bebe então só uma Eka, cerveja da tua terra, sugeriu dona Fátima, com o rosto a transbordar de alegria, sinónimo de felicidade pela forma como o negócio andou, tendo facturado uns bons kwanzas, ao retalhar a mercadoria, bastante procurada, sobretudo pelas pessoas que se dedicam à restauração, os tais que vendem o copo de sumo natural em preços que desencorajam o consumo da produção interna.

Com os preços praticados para os sumos naturais é impossível incentivar as famílias no sentido de serem frequentadoras habituais dos restaurantes como é hábito em outras paragens do globo, uma forma também de incentivar o consumo da produção, bem como o turismo interno.

Mandando vir um refrigerante para o puto Zé do Chacho, que não pisou o chão do mercado do Katinton, preferindo ficar no carro a ouvir músicas angolanas, com destaque para as de Zé Mix, Pedro Cabenha, Dom Caetano, Pedrito e os Jovens do Prenda, que o miúdo tem predilectos.

Apesar da pressa, ainda houve tempo para João Remo apreciar a cerveja bem estalada, comercializada por uma senhora trajada à Kaluanda, famosa em conhecer todos os casos que ocorrem no mercado do Km 30, com realce para aqueles que envolvem traições conjugais.

-Mana, muito obrigado! Não tenho mais tempo a perder. Como de costume, João Remo fez uma arrancada de arrepiar, merecendo comentários dos putos que se alegram com loucuras do género que, verdade seja dita, já não são para pessoas da idade do agricultor, que ainda conserva algum espírito trafulheiro, típico dos comandos.

Em pouco mais de vinte minutos, o 18 províncias estava a maltratar o asfalto da Avenida Fidel Castro, também conhecida por Via Expressa, andando numa velocidade entre 80 a 100 km/hr, fazendo várias ultrapassagens, algumas delas com elevado grau de dificuldade, lá iam João Remo e Zé do Chacho.

No percurso, não se sabe por intuição ou outra coisa qualquer, João Remo apercebe-se que estava a ser perseguido por duas motorizadas cada com dois ocupantes, realmente assaltantes. João Remo diz para Zé do Chacho:

-Kanuko, se aguenta. Estamos a ser perseguidos por estas motorizadas. Alguém deve dar a pista que temos aqui muita massa.Só deve ser aquela besta da Fátima do Katinton...Mas não estragou nada, vamos viver o momento...Vou fazer um filme, lembrando o tempo da kuemba/tropa.

Não se espanta, vou andar em zigzag e depois farei uns lalaus/balázios.Passa a mutimba.Pediu a metralhadora AKM, fiel companheira nas viagens de e para o seu habitat.(Continua).

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