Opinião

Preços “tundam” vontade de sumos naturais (Fim)

Carlos Calongo

Jornalista

Deixando o posto policial onde participou a ocorrência sobre os motoqueiros que tencionavam assaltá-los, João Remo e pupilo rumaram para o mercado do Km 30, última etapa da estadia em Luanda, a fim de recolher o dinheiro da mercadoria deixada com a dona Santa "dá fezada", que goza de elevada confiança do seu fornecedor, a quem nunca deveu uma empreitada que fosse.

29/01/2022  Última atualização 06H05
Nunca ninguém se dignou explicar a origem da alcunha "dá fezada”, mas diz-se à boca pequena, que é mesmo por causa das fezadas que dá a quem lhe cai na graça…Fezada de quê ou como, também não se diz, mas ela responde pelo nome Santa "dá fezada", que apesar de soar da mesma forma, é diferente de Santa da Fezada.

Valendo-se da fama de ser bom no volante, João Remo, mais uma vez, protagoniza uma arrancada que obriga a viatura a deitar lágrimas, como diz o outro, para qualificar o tipo de condução que faz guinchar os pneus, sem qualquer espécie de perdão, seja na areia ou no "lacatrão”, conforme se fala à-toa cá no burgo, em referência ao asfalto/alcatrão.

A propósito, a música que João Remo e Zé do Chacho ouviam tem o seguinte refrão: " É pena é n’areia, sai lá poeira, se fosse no alacatrão eu te dava tareia”...Grande queta, de facto. 

Na curta peregrinação a Luanda, João Remo e Zé do Chacho vivenciaram um pouco de tudo. Bom e mau. Motoqueiros e candongueiros que fazem trinta por uma linha, mesmo na barba de efectivos da Polícia de Trânsito, em alguns casos saudados com o dedo polegar em haste, sinal de que estamos fixe, facto que denota a promiscuidade na convivência entre eles, um dos motivos que transformou o trânsito de Luanda numa autêntica babilónia.

João Remo foi à Luanda ainda não refeito, na totalidade, do furto protagonizado por Dadinho, ex-trabalhador da fazenda que, enviado à capital para despachar a mercadoria, não mais voltou a N’Dalatando, zagaiando p’ra terra do mundele, onde se amantizou com uma bodjurra/cabo-verdiana, que também lhe trampou a massa e sapou p’ra Holanda, confirmando-se que é mesmo verdade: cada boelo com o esperto dele!

Na capital do país, as coisas não correram tão bem a João Remo, que teve de aturar a maka do exagerado preço de um copo de sumo natural de laranja, a tentativa de assalto que poderia culminar em morte, a parte do dinheiro que uma das suas clientes do mercado do Tunga Ngó não entregou, enfim…não foi tudo mil maravilhas.

Estas e outras cenas podem representar motivos suficientes para João Remo repensar bem o processo de escoamento da mercadoria. Talvez o melhor seria estabelecer contactos com as grandes superfícies comerciais, a fim de serem estas a tirarem a produção da origem, facilitando as coisas de forma segura. Mas isso também tem os seus quês e porquês.

Os empresários, para além de pagarem pouco, querem ganhar mais que os produtores e, mais duro, levam tempo para liquidar as facturas, agravadas com as tais histórias de falta de sistema nos bancos e outras vigarices próprias dos funcionários que pensam estar a fazer favor aos angolanos… Isso dificulta a vida dos produtores que precisam ter kumbú em mãos.

-Se eu não tivesse sido comando não sei onde estaríamos a esta hora. Tens sorte do teu boss ser um bad talhado para todas as contrariedades da vida. O que mais me entristeceu até nem foi a aventura daqueles fedelhos, mas sim o preço que tundam a vontade de sumos naturais-, disse João Remo que, visivelmente zangado, continuou:

"Como é que um copo de sumo de laranja produzida aos pontapés em todo o país custa 3 paus e tal!...Isso desencoraja o consumo da produção interna e afecta a tal aposta na agricultura e, assim, a famigerada diversificação da economia será sempre conversa de relatório dos governantes que, ao invés de servirem o povo, servem-se do povo”.

-Boss! Assim os homens dos restaurantes, num só um copo de sumo tiram dinheiro de dois baldes de laranja? Isso é "intrujamento”!... Afinal estes bandidos dos restaurantes ganham mais que nós que trabalhamos a terra…desabafou Puto Zé, ao seu jeito, já com indícios de estar refeito do susto que o consumiu no momento do ataque que os motoqueiros tentaram levar a cabo na Via Expresso.

"É isso mesmo meu puto. E ninguém fiscaliza estas coisas. Coitado dos homens dos Serviços de Investigação Criminal (SIC) e do INADEC, que tentam cumprir o seu papel, se não são fobados e vulneráveis à corrupção, muitas vezes, em pleno exercício das suas tarefas, recebem telefonemas de ordens superiores para abandonarem o recinto, que não deixa de ser uma verdadeira humilhação aos miúdos, que apenas pretendem trabalhar para -Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal-”, disse João Remo para o puto Zé.

E o "zecutivo/governo” perante estas coisas faz o quê então? Perguntou Zé do Chacho, com notável défice de conhecimento da realidade do nosso país. No lugar da resposta que pretendia, soltou-se da boca de João Remo, com muita subtileza, a canção cujo refrão é: -"xê menino não fala política, não fala política, não fala política”.

Descrevendo a última curva à entrada do mercado do Km 30, soltando uma grande gargalhada, que para um estranho soava a insulto, João Remo olhou seriamente para o seu acompanhante e disse: "Você é muito jovem, rapaz. Não estraga a tua idade. Segura o corpo, vive a vida, naquilo que podes e como podes hoje, pois o passado fica no museu, o amanhã pertence a Deus. A vida é hoje.

Sem perder tempo, e porque o dia estava prestes a ceder lugar à noite, o agricultor entra numa barraca de onde sai, em pouco mais de 5 minutos, com um embrulho que embarrou nas meias. Entrou no carro e saíram voados. "Missão cumprida, Kandengue. Daquí até a banda é só pisar. Roda batida. Ganhamos a vida”. A medida que os minutos passavam, a carrinha branca deixava de estar no horizonte das pessoas, que reclamavam da poeira levantada pela Land Cruiser 18 províncias, que marcha em direcção ao Kwanza Norte, onde João Remo, desmobilizado das extintas FAPLA em que serviu no ramo dos comandos vive, dedicando-se à agricultura. (FIM)

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião