Entrevista

Entrevista

“Precisamos salvaguardar Angola”

Analtino Santos

Jornalista

O músico Carlos Lamartine dispensa apresentações. O seu papel e importância já estão perfeitamente estabelecidos na História da Música Popular Urbana Angolana. O artista começou por notabilizar-se na época da canção revolucionária, mas ao longo dos anos foi se reinventando, surgindo ora como romântico ora como estudioso das manifestações musicais populares. Historiador, Lamartine é dos músicos angolanos que mais se caracteriza pela racionalidade como analisa o fenómeno musical, em particular, e cultural em geral.

21/11/2021  Última atualização 09H10
Músico Carlos Lamartine © Fotografia por: Edições Novembro
Tem sido recorrente a correria da comunicação social em Novembro para falar da relação entre a música e o processo que culminou com a Independência Nacional...

Esta relação também me interessa, independentemente de todos os anos nós fazermos entrevistas deste género. E acredito que os meios de comunicação social já têm dados sobre a independência. É importante frisar que ao longo dos anos da luta de libertação os artistas angolanos sempre se engajaram de uma maneira directa ou indirecta neste processo com as suas contribuições musicais feitas no sentido da consciencialização, da mobilização do povo de Angola para que se processasse o seu engajamento concreto na luta de libertação.


O 25 de Abril foi determinante?

Vários artistas se destacaram, particularmente na época em que surgiu o 25 de Abril. Ao longo deste período, até Novembro de 1975, todos os artistas, de uma forma geral, engajaram-se no combate contra o colonialismo. Organizaram-se nas empresas Valentim de Carvalho, na CDA-Companhia de Discos de Angola, alguns na etiqueta Bonzão e Rebita, e assim produziram um conjunto de obras musicais. A emissora nacional, com a divulgação destas produções, foi generalizando o conhecimento da música angolana. O  próprio colonialista também trabalhou para a promoção da música angolana neste período. Foi com este movimento de divulgação da música angolana que podemos constatar a mobilização total do nosso povo. Boa parte dos artistas se fixou na auréola do MPLA. Temos como referências dois ou três indivíduos que se fixaram noutras organizações, mas a maior parte dos mais salientes e destacados, com excepção de Teta Lando, ficaram no MPLA. Foram de facto artistas que contribuíram para a independência, para além do apoio que tínhamos dos meios como a Emissora Oficial,  Voz de Angola e Rádio Clube. Também podíamos contar com alguns sectores do jornalismo angolano naquela altura, como o jornal ABC,  a revista Noite & Dia, Jornal o Comércio, e outros.


Quais são os nomes que marcaram esta  fase?

Tenho de destacar David Zé, Artur Nunes, Urbano de Castro, Manuel Faria, Artur Adriano, Dilangue, Tonito, Prado Paim, Carlos Lamartine, Tino Dya Kimuezo... foram vários, para além daquelas pessoas que apenas editaram discos. Foi, de facto, um grande manancial de artistas que deram uma grande contribuição para a independência e isto estamos a falar daqueles que estavam no território de  Angola. Lá fora podemos falar de Bonga, Ruy Mingas, Carlos do Nascimento,  Mário Matadidi, Sam Mangwana, Pepepito, Nonó Manuela... todos eles deram uma grande contribuição. Por acaso, uma dificuldade daquele tempo: havia muito poucas mulheres a participarem, embora se pudesse registar a posteriori a presença de Belita Palma, Lourdes Van-Dunen e Fató,  que naquela altura, particularmente em Luanda, se destacaram activamente pela contribuição na música de libertação. No Huambo pudemos contar ainda com a Millá Melo, Tchinina, enfim, a nível do país pudemos encontrar com artistas que foram promovendo as músicas das suas regiões, como Zeca Moreno, Os Bongós do Lobito e Zé da Onda em Benguela.


Estávamos no período pré-independência. É possível fazer uma melhor contextualização?

Muitos artistas foram integrantes do processo armado e das forças armadas guerrilheiras. E por este engajamento directo tiveram uma participação musical um bocado condicionada. Nem todos puderam ter o arsenal que alguns de nós tiveram, como o Carlos Lamartine, David Zé, Urbano de Castro ou Teta Lando, que foram, de facto, os que mais músicas de protesto, mobilização e educação fizeram. Acho que o movimento artístico daquela época foi muito alto. Antes do 11 de Novembro boa parte destes artistas estavam enquadrados na JMPLA e nos conjuntos Os Kiezos, Jovens do Prenda, África Ritmo e Os Merengues. Deram também a sua contribuição no acompanhamento musical dos artistas individuais. Os Merengues, entre 25 de Abril de 1974 e Junho de 1975 foi o conjunto que mais prestação deu em apoio a luta de libertação e a preparação para a independência. E que mais digressão fez por Angola. Depois de Junho de 1975 começamos a fazer uma série de digressões para o exterior, com o objectivo da participação de Angola na assistência a proclamação das independências  dos países da colonização portuguesa. Aos 25 de Junho fomos assistir a independência de Moçambique, e, nesta fase, no seio da JMPLA existiam algumas distensões entre os diferentes grupos musicais que existiam, então fez-se uma selecção porque Os Merengues não podiam ir a Moçambique. Criamos as condições para uma representação mais colectiva, em detrimento dos Merengues que por razões profissionais tiveram de ficar em Luanda.


É assim que nasceu o Kissanguela?


Esta primeira participação internacional de artistas angolanos criou o ânimo para que se criasse, no seio da JMPLA o agrupamento Kissanguela entre Julho e Agosto de 1975. Nesta fase alguns músicos foram seleccionadas pela JMPLA para assistir a independência de Cabo Verde no dia 5 de Julho de 1975 e de São Tomé e Príncipe em 12 de Julho. Fomos também assistir as festividades da proclamação da independência da Guiné-Bissau, que tinha sido em 1974. Este período de promoção da música angolana fez que se consolidasse, de facto, a permanência do conjunto Kissanguela na JMPLA e do conjunto Os Merengues na CDA-Companhia de Discos de Angola, que foi a última empresa que ficou a gravar e a editar discos em Angola. Digo isto porque, de uma forma geral, quase todos os artistas que estavam em Angola e, inclusive, alguns no exterior, gravaram para a CDA.

 
É neste contexto que nasce o disco "Angola Ano Um”?

Particularmente eu, Carlos Lamartine, sou o artista que gravou o primeiro disco na Angola independente. Por isto se chamou "Angola Ano 1”. É um disco completo, porque contém um conjunto de mensagens que naquela altura eram, de facto, das músicas mais destacadas para a mobilização e consciencialização.  Não estou a querer gabar-me, mas modéstia à parte, este disco e os outros de minha autoria contribuíram imenso para a luta de libertação. Isto independentemente de ser em proveito do MPLA, FNLA ou UNITA. Acredito que naquela altura não havia nenhum guerrilheiro angolano que não tivesse usufruído do conteúdo da minha música.
Outro artista que muito participou neste período foi o David Zé com o disco "Mutudi ua Ufolo”, que também contribuiu imenso. Pela natureza das suas mensagens foi, de facto, o segundo disco. O terceiro foi o do Teta Lando, um disco de capa com as cores da FNLA. Estes três discos fizeram grande furor naquela época pré-independência e depois também tiveram grande promoção.


Sempre teve esta  preocupação com o protesto?

Sim. A minha música é de mobilização, educação social, consciencialização, alerta e, naturalmente, tinha de ser de protesto. Aliás, ao longo da minha existência como músico e pessoa interessada na cultura angolana, constato que a maior parte das nossas músicas, de uma forma geral, foram sempre de protesto, de consciencialização, de educação patriótica, com temas que buscavam exaltar valores que permitissem a consciencialização da população. Boa parte delas são músicas de protesto.
Boa parte da música angolana que conhecemos, desde os primórdios da ocupação colonial,  teve um carácter de protesto em relação à colonização. É só ouvirmos "Maria Candimba”, tema dos finais do século XIX que se popularizou no séc. XX. Já era uma canção de protesto porque chamava a atenção de um pessoa europeia, patroa, que por causa de um acontecimento insólito na sua relação laboral com a empregada puxou uma pistola para alvejá-la. O povo, com um certo sentido de orgulho, cantava denunciando o comportamento da patroa. Existem várias músicas que foram fazendo parte do reportório dos cantores angolanos que estavam ligados às danças Massemba, Kazukuta e Kilapanga. Os grupos de carnaval neste período áureo da música angolana também apresentavam temas de protesto, de ironia, de chacota ao sistema colonial português e, por esta razão, até ao ano de 1950 a nossa música era desprezada, não tinha promoção e a sua divulgação era por via oral, transmitia-se de geração em geração, por isto muitos de nós conservamos aquelas músicas. Agora o que acontece é o seguinte: praticamente muito pouca manifestação cultura havia, quer dizer, elas não eram generalizadas e a partir de 1950 Luanda destacou-se pela criação de um conjunto de movimentos artísticos, grupos, turmas, conjuntos e outras formas de estruturação para a recreação das próprias populações ou comunidades de interesse.   Eu quando cheguei a Luanda em 1953 já encontrei um grande movimento. Existiam os Kimbandas do Ritmo, um grande conjunto, já ouvia falar do Ngola Ritmo que foi criado em 1948 e havia vários grupos do Norte de Angola, mas que estavam no Congo ex-belga. Aí podemos situar  o Manuel de Oliveira e o conjunto São Salvador, dentre outros artistas que deram uma grande contribuição não só à cultura angolana no Congo, mas fundamentalmente influenciaram a Rumba Congolesa, que se generalizou  grandemente no continente. Fora da música tivemos o grupo de teatro Kissange com José Maria Kiavulanga, um grande grupo que deixou marcas, mas de que infelizmente hoje temos poucos testemunhos. O que ficou registado está na revista Noite & Dia, mas ainda tem um elemento vivo, o Nelinho do Kissange, que vive no Zango. Nasceram várias turmas neste período de 1950. Os Kissueias que eu, Bonga, João Gonçalves, Tizinho dentre outros formamos, a Turma do Margoso que integrava o Elias Dya Kimuezo, a Turma do Tata Ngana...  Eram grupos pequenos mas com uma dinâmica no associativismo muito grande. Tínhamos estruturas que defendiam e promoviam estas participações artísticas, como a Liga Nacional Africana, a Anangola e o Grémio,  que actuaram entre 1950-60. Na Liga Africana fizeram-se muitos espectáculos para apoiar estes grupos. E também nasceram outros grupos feitos pelos estudantes, como o grupo músico-teatral Ngongo, que foi uma das maiores referências de espectáculos dados pelos artistas angolanos. Este grupo, conforme apareceu desapareceu, por causa da pressão da polícia política portuguesa e das intrigas que a amiúde iam se generalizando no seio deles. Apareceram também declamadores, jograis de grande gabarito, alguns dos quais deixaram o país, dentre eles o Eleutério Sanchez. Os escritores sempre estiveram ligados à promoção de grupos musicais. Tivemos bons escritores que se tornaram grandes personagens. Isso para dizer que a cultura angolana sempre esteve engajada no processo de libertação de Angola.


Fala-se muito das intrigas e polémicas neste processo de libertação. Na JMPLA uma dessas polémicas prende-se com a  extinção do agrupamento Kissanguela. Elementos desta antiga formação publicamente acusaram o Carlos Lamartine de estar na base da sua extinção...

Acontece que a história deve ser trabalhada no sentido de comprovar factos e dados e me parece que é o propósito de alguns indivíduos quererem alimentar-se dos esforços dos outros.  Eu disse que o Kissanguela foi formado depois de Agosto de 1975. Fui responsável da secção cultural da JMPLA de 1975 até 1987, mas passei por um conjunto de processos eleitorais que me foram alimentando do ponto de vista da hierarquia ocupacional e pude ser o responsável em Luanda depois do 25 de Abril, até mais ou menos em 1978. Com a realização da primeira conferência nacional da JMPLA deixei de ser provincial e passei a dirigente nacional. O Kissanguela foi formado em 1975 depois de Agosto e ficou, se tanto, até 1977, ou seja um pouco depois dos acontecimentos do 27 de Maio. Eu quero esclarecer bem este caso. O Kissanguela não dependia do Carlos Lamartine, dependia do camarada José Agostinho enquanto primeiro secretário nacional do comité central da JMPLA. Então não tinha como o Carlos Lamartine extinguir o Kissanguela, porque eu era secretário da província de Luanda.


Na sequência do 27 de Maio de 1977 alguns artistas do movimento da canção revolucionária  morreram. O que dizer deste acontecimento?

Penso que não devo ser eu a dar um esclarecimento, no caso dos artistas que   desapareceram. O 27 de Maio é um problema da justiça, aliás, já foi formada uma comissão das vitimas do 27 de Maio e outros conflitos. Não é o Carlos Lamartine que deve responder.


Para quando o lançamento do seu tão esperado novo disco?

As minhas propostas e livros estão condicionadas ao papel financeiro. Neste momento estamos com algumas dificuldades mas conscientes que logo que houver melhorias estaremos prontos. Tenho um livro pronto, "Ser poeta em harmonias do silêncio”,  que eu chamo uma antologia de versos, porque é um livro que está composto por todas as minhas principais obras que estão publicada em disco,  desde os LP aos CD mais recentes. Tenho outro também já pronto, "O perfil histórico do Semba”. Trata-se de um livro especificamente pormenorizado sobre o que é o Semba, a sua natureza, perfil,  percurso e perspectiva. Sobre a música angolana é um historial resumido da comparticipação de todos os artistas que eu me lembro que participaram no processo da construção da música angolana desde 1932 a 2005. Conto a história de algumas das músicas, tenho o registo cronológico do percurso de todos os artistas que deram esta contribuição e estamos a tentar consolidar este conhecimento com outras contribuições.


Como está o seu processo criativo?

Continuo a trabalhar no sentido de manter a minha capacidade de criação. Estou a trabalhar para a produção de uma obra discográfica que está quase pronta.


Teremos o regresso dos temas de contestação?

Não mudei o perfil da minha racionalidade de pensamento. Eu disse que as minhas músicas são actuais pela natureza dos seus conteúdos e as actuais reflectem este momento.


Quais são os ganhos e perdas destes 46 anos de independência?

Todos os angolanos deveríamos nos sentir satisfeitos, porque conseguimos eliminar uma dependência histórica e secular que impedia que pudéssemos pensar por nós mesmos. Hoje somos independentes, é um grande ganho. Só a independência é suficiente para garantir aos angolanos uma perspectiva de vida mais salutar, mas isto não significa que estejamos a viver num mar de rosas. Temos  muitas dificuldades, também provocadas pela contextualização mundial. Penso que poderíamos estar muito melhor se não tivéssemos vivido os pressupostos da guerra, as suas condicionantes. Temos limitações do ponto de vista do saber e do conhecer Angola e  a ciência, porque temos um ensino que tem dificuldade de fixação e consolidação na relação com o mundo. Temos muitos ganhos, tínhamos poucos médicos, com a independência não conseguimos cobrir o país inteiro mas temos médicos, enfermeiros, professores, engenheiros, advogados, quer dizer, o povo angolano, de certa forma, do ponto de vista da construção estética, evoluiu, ganhou. Antigamente tínhamos dificuldades para obter meios como casa própria, carro... viajar no tempo colonial era difícil,   hoje os angolanos são livres, tanto mais que, de tanta liberdade, encontramos pessoas que vivem no estrangeiro e estão a reclamar direitos em Angola. Isso só pode ser fruto da independência. 


Valeu a pena o engajamento pela independência?

Sem duvidas. Eu estava altamente engajado na revolução. Eu troquei a luta de libertação, troquei partido em relação a minha família. Fiz mal. Hoje reconheço que não devia ter feito isso, mas não me arrependo de o ter feito, porque a independência está aqui e valeu todo este sacrifício. Todos nós lutamos para a independência e estamos aqui com o sentido da preservação dela, as querelas podem ser resolvidas do ponto de vista democrático, da sugestão  de cada um. Precisamos salvaguardar Angola.


No disco "Angola Ano Um” tem frases como "Independência não se dá, conquista-se”  e "Mais tarde ou mais cedo este disco se tornará uma peça antológica da revolução angolana”...

Este disco foi feito por pessoas que pensavam independência e cultura, algumas delas morreram ingloriamente. É o caso do Sebastião Coelho, um homem que fez tanto por Angola e que nós rejeitamos supondo que ele também era um traidor. Mas não, ele era um patriota.


Biografia breve


Carlos Lamartine nasceu em Benguela a 29 de Março de 1943, mas foi no Marçal, em Luanda, onde deu os primeiros passos musicais. Foi o regente principal do Grupo Coral Gigante do Acto da Proclamação da Independência de Angola, no dia 11 de Novembro de 1975, e do Coral no Acto da Tomada de Posse do 1º. Governo da República Popular de Angola, que teve lugar na Câmara Municipal de Luanda.
Antigo adido cultural na República Federativa do Brasil, Carlos Lamartine é quadro reformado do Ministério da Cultura. Teve várias distinções, como o Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Música, em 2017, e Prémio Carreira no AMA (Angola Music Awards). Foi ainda homenageado no Festival da Canção de Luanda da LAC, em 2013, no qual os concorrentes interpretaram temas de sua autoria.

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