Entrevista

“Precisamos de novos quartéis para encurtar o tempo operativo”

O Serviço de Protecção Civil e Bombeiros precisa em Luanda de mais quartéis e efectivos, para corresponder à densidade demográfica da província. O plano de necessidades indica o aumento de quartéis de 20 para 45 e de efectivos de quatro mil para 15 mil, números que vão permitir ao Serviço de Protecção Civil e Bombeiros estar mais próximo das comunidades, reduzindo o tempo operativo de cerca de 30 minutos para cinco a dez minutos. A redução do tempo operativo é possível, porque a instituição quer ter quartéis municipais, distritais, comunais e de bairros. A informação foi avançada ao Jornal de Angola pelo porta-voz Faustino Minguêns, que declarou estar o órgão operativo do Ministério do Interior a acompanhar a modernidade arquitectónica da cidade de Luanda com a actualização dos meios técnicos para resgatar, por exemplo, vítimas que se encontrem nos últimos andares do prédio mais alto da capital angolana, em caso de incêndio. A aquisição de helicópteros de resgate e combate a incêndios está a ser também pensada pelo Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, uma necessidade com relevância pública e institucional consolidada depois da ocorrência de cheias no município da Quiçama, há cerca de dois anos.

26/02/2019  Última atualização 08H56

O número de efectivos do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros ajusta-se às necessidades actuais da província de Luanda?Estamos acima dos quatro mil efectivos. Mas, na verdade, ainda precisamos de mais efectivos em função da dimensão que Luanda apresenta. Temos, actualmente, 20 quartéis de bombeiros, número que não corresponde às necessidades, atendendo à expan-são da província de Luanda. Luanda de hoje não é a de há 15 ou 20 anos, o que pressupõe dizer que ainda há necessidade de construção de mais quartéis para que possamos estar mais próximos das comunidades.

 

Qual é o número desejável de efectivos e de quartéis?
Não podemos só olhar para o número de efectivos. Precisamos de mais quartéis para podermos diminuir o tempo operativo. Urge es-tarmos mais próximos das comunidades, porque existem normas e critérios apropriados em termos de dis-
tância entre um quartel e outro. Como o nosso grande objectivo é estarmos mais próximos das comunidades, temos de ter quartéis municipais, distritais, comunais e, também, alguns no interior dos bairros para darmos então resposta às ocorrências e encurtar o tempo operativo. Precisamos de 15 mil efectivos e de 20 novos quartéis.

Qual é o tempo operativo actual?
Há muitos factores que concorrem para o aumento do tempo operativo, como o tráfego rodoviário e a falta de cultura preventiva por parte de algumas pessoas. O período de cinco a dez minutos deveria ser o tempo suficiente para que as nossas forças se possam fazer presentes num determinado local, mas fazemos, nalguns casos, cerca de 30 minutos, daí a necessidade de termos quartéis próximos das comunidades para podermos então encurtar o tempo operativo.

A falta de número de polícia nas áreas residenciais não aumenta o tempo operativo?
Acabei de falar que há pouca cultura de prevenção. A própria comunicação em si é ainda débil. Às vezes, quando ocorre uma situação nem sempre é a vítima que entra em contacto com o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros. Têm sido sempre terceiros. O grande problema está no “feedback” da comunicação. Há bairros onde temos encontrado dificuldades em termos de localização, de acesso e numeração das habitações. As vias não apresentam condições apropriadas para as nossas viaturas poderem penetrar até um determinado objectivo. Além disso, muitos motoristas não têm a cultura de respeitar as viaturas de emergência.

Como reage quando ouve dizer que “os bombeiros chegam sempre tarde”?
Em nenhuma parte do Mundo, os bombeiros chegam tarde. Nós não existimos para apa-gar fogos. O bombeiro não é um apaga fogos. O bombeiro extingue incêndios. Aí está a diferença entre um incêndio e um fogo. Para atingir a fase de incêndio é porque primeiro ele foi fogo. O que é o fogo? É uma reacção química isotérmica que liberta luz, chama e calor e encontra-se ao alcance do homem. Por exemplo, o fogão aceso, a vela acesa, o candeeiro aceso. Quando deixa de estar ao alcance do homem, já vamos caminhar para a fase de incêndio, que já requer a presença de pessoas especializadas, para poderem fazer a extinção, com substâncias e técnicas apropriadas. Muitos incêndios podem ser mitigados ou evitados se as pessoas optarem por uma conduta preventiva.

O recurso a helicópteros não pode ser uma solução quando o acesso por estrada estiver comprometido?
Pode ser uma solução. Há um projecto já em curso e apresentado ao Ministério do Interior no sentido de aquisição destes meios. Não precisamos só de helicópteros de extinção de incêndios, como também de resgate e transporte de vítimas. Infelizmente, ainda não temos meios aéreos. Acreditamos que, dentro daquilo que são as nossas necessidades, alguém de direito vai poder dar resposta à necessidade de aquisição de helicópteros.

As últimas enchentes ocorridas no município da Quiçama podem ser encaradas como um alerta para a necessidade de aquisição de helicópteros?
A expansão de Luanda obriga-nos a pensar na aquisição de meios aéreos. As enchentes da Quiçama trouxeram à luz a necessidade de aquisição desses meios, porque o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros trabalha ainda com meios da Polícia e da Força Aérea Nacional, utilizados em operações de resgate. É urgente a aquisição de meios aéreos, mas é um problema que nos transcende. Estamos a aguardar pela aquisição desses meios pelo Ministério do Interior.

O índice de acidentes de trabalho é alto no Serviço de Protecção Civil e Bombeiros?
Acidentes de trabalho acontecem em qualquer instituição. Somos humanos e estamos sujeitos a erros. Onde há um acidente de trabalho, a primeira coisa que se deve fazer é saber como ocorreu e em que circunstâncias para vermos se houve um erro técnico ou negligência por parte do próprio funcionário. O nosso trabalho requer muito cuidado. Um erro de um colega pode comprometer o trabalho da equipa.

Há acompanhamento médico depois de uma intervenção, sobretudo, numa área onde os operacionais estiveram expostos à inalação de produtos tóxicos?
Depois de uma intervenção, obrigatoriamente, é feito um acompanhamento em termos de saúde para se ter a certeza de que as nossas forças não estiveram expostas a qualquer produto tóxico. Orientamos as forças para a feitura de um “check-up” no sentido de descartar a possibilidade de inalação por alguns efectivos de alguma substância tóxica. Temos duas áreas de especialidade, uma integrada por psicólogos e outra por técnicos de saúde. Estes são os responsáveis pelo acompanhamento das nossas forças. Já há, de facto, esse acompanhamento. Temos um centro médico, mas as consultas são também feitas em alguns hospitais públicos, como o Hospital Militar Central.

Há muitas baixas médicas resultantes da actividade profissional?
Não há muitas baixas e as que têm sido registadas são resultantes de patologias diversas, que não têm nada a ver com a actividade profissional.

A Polícia Nacional tem revelado ultimamente o número de agentes mortos no desempenho da missão de manter a ordem e a tranquilidade públicas. O Serviço de Protecção Civil e Bombeiros não o faz porquê?
Porque ainda não ocorreu e esperamos que não ocorra nenhuma morte. Eu desempenho o cargo de porta-voz em Luanda do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros há cerca de oito anos. Antes de assumir estas funções fui comandante do Quartel de Viana durante três anos, em cujo período não houve registo de morte de efectivos em decorrência de acidentes de trabalho ou devido a uma doença profissional. Estou a querer dizer que a nível de Luanda não foram registadas mortes de forças nossas em decorrência de alguma situação ocorrida no serviço. Foram, sim, registadas mortes de efectivos, mas por outras patologias e não por acidente de trabalho. Se eventualmente ocorrer, devemos, sim, fazer um comunicado aos órgãos de comunicação social. Felizmente, nunca ocorreu. Esperamos que não ocorra. A vida é um bem irreparável e insubstituível.

Qual é a área de Luanda onde a cobertura é ainda considerada deficiente?
Cada município tem a sua complexidade operativa. A complexidade operativa do município de Luanda não é igual à da Quiçama. A complexidade operativa do município de Viana não é igual à do Icolo e Bengo. Em Viana, há fábricas e várias empresas.

Viana é uma zona de alto risco?
Exactamente. É uma zona de alto risco, por ser uma zona industrial. Há disparidade em termos de classificação de risco. A província de Luanda apresenta vários riscos e em distintas zonas. O município da Quiçama tem, por exemplo, o risco de inundações, deslizamento de terras, incêndios florestais e afogamentos. O município de Viana tem o risco de inundações, afogamentos, incêndios, erosão hídrica e ravinas. Para fazermos esta classificação, temos de ter em conta os diferentes riscos e os índices de perigosidade que esses objectivos representam.

Actualização dos meios técnicos é feita de acordo com a realidade de Luanda

Quando é que os efectivos do quartel da Cidade do Kilamba vão trabalhar em instalações definitivas? Trabalham até agora em contentores. Não é degradante para a imagem dos bombeiros?
É uma estrutura adaptada. Tivemos de adaptar aquela infra-estrutura em função da realidade da Cidade do Kilamba, que foi planificada e edificada sem uma estrutura para os bombeiros, razão pela qual deixo aqui o nosso apelo: sempre que forem edificadas centralidades, devem ser construídas infra-estruturas para os bombeiros. Como vimos que havia necessidade de instalação de um quartel, foi-nos cedido um espaço para podermos fazer a alocação de meios e forças a fim de podermos dar respostas em função da realidade da centralidade. Estamos a falar de casos de de-sencravamento de elevadores, abertura de portas, acidentes de viação e outros riscos que a própria centralidade apresenta.

Os bombeiros não deram conta, no trabalho de avaliação técnica, de que não estava prevista a instalação de quartéis na Cidade do Kilamba?
Não é uma questão que deve ser recordada a quem de direito, porque é uma obrigatoriedade a inclusão de quartéis nos projectos urbanísticos. Os bombeiros devem estar onde há concentração de pessoas. Não é possível a construção de uma centralidade sem a inclusão de um quartel de bombeiros. Quando se faz a planificação da edificação de uma infra-estrutura daquela dimensão, os serviços que não podem ser descartados são os de bombeiros e de polícia.

O número de emergência do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros recebe muitas informações falsas?
Há pessoas que brincam com o “call center” (centro de chamadas), por via do qual dão informações erradas, fazendo com que desloquemos meios e forças de forma desnecessária. A deslocação de meios requer custos e é preciso as pessoas terem consciência disto. Temos de trabalhar mais na sensibilização das pessoas. Enquanto alguns ligam para brincar, do outro lado há sempre alguém que precisa de ser socorrido. Infelizmente, ainda temos verificado muitas chamadas falsas para o nosso “call center”.

Qual é a média de chamadas falsas por dia?
Sem medo de errar, recebemos mais de 15 chamadas falsas por dia. Muitas das chamadas falsas são detectadas durante a exploração da informação. A movimentação dos meios técnicos requer uma exploração da informação. Às vezes, detectamos que a informação não é verdadeira. Quando procuramos retomar a chamada para colhermos mais informação, o telefone ou está desligado ou o solicitante não o atende.

Os bombeiros defendem vias rápidas para viaturas de emergência?
Sim, porque a existência de vias próprias visa diminuir o tempo operativo e pôr fim às críticas que recebemos de que os bombeiros chegam sempre tarde. Se tivermos vias rápidas, fica facilitado o desdobramento de forma eficaz das nossas forças e dos meios técnicos. Em Luanda, sem vias rápidas para viaturas de emergência, perde-se muito tempo quando se faz o tráfego na via normal.

Os bombeiros estão tecnicamente preparados para a extinção de um grande incêndio florestal ou num aeroporto?
Estamos preparados. Em 1981, fizemos a extinção do grande incêndio que o país registou na Refinaria de Luanda e que durou sete dias. Fizemos a ex-tinção do incêndio sem apoio nenhum. Foram os nossos bombeiros que extinguiram o incêndio na Refinaria de Luanda. Até hoje não houve um outro incêndio que esteve acima do ocorrido na refinaria em temos de magnitude.

Os bombeiros estão também preparados para extinguir um incêndio que ocorra no prédio mais alto da província de Luanda?
Estamos preparados. Até ao presente momento, a província de Luanda ainda não tem edifícios com mais de 50 andares. Temos meios técnicos com capacidade para atingir um prédio de 22 andares. A aquisição destes meios é feita em função da realidade de Luanda. Ou seja, fazemos a actualização dos meios técnicos de acordo com a realidade de Luanda. Todos os anos fazemos actualização. Até ao preciso momento, não temos edifícios que estejam acima das nossas capacidades técnicas. Temos meios para uma intervenção num edifício de 25 andares. Aos últimos andares podemos chegar com outros meios. Podemos usar a grua alta e as escadas telescópicas. Nos simulacros que realizamos nos edifícios da Sonangol temos utilizado esses meios.


 

 




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