Opinião

“Precisamos de correr”

Adebayo Vunge

Jornalista

De uma vez por todas, temos de preencher a Educação dos meios humanos e materiais para que possamos, de facto, atingir um outro patamar no nosso desenvolvimento.

28/11/2022  Última atualização 06H00
Isso é urgente. E na dúvida, temos o que aconteceu à vista dos nossos olhos espantados e das nossas mentes perplexas: o funeral do kudurista Nagrelha, um momento de homenagem, de celebração de um elemento da nossa identidade musical contemporânea, que é nossa, porque é dos bairros, é das nossas pessoas, mesmo que nos custe lidar ainda com ele. Mas esta crónica não é sobre kuduro nem tão pouco sobre Nagrelha.

Há cerca de uma semana evitei abordar o tema relacionado a morte do nosso músico e verdadeiro influencer Nagrelha. Antes de mais, gostaria de expressar à sua família, amigos e fãs os meus profundos sentimentos de pesar.

Mas passados alguns dias, julgo que é útil e oportuno reflectirmos sobre o que sucedeu no funeral de Nagrelha. Sobre este ícone do kuduro, não poderia estar mais de acordo do que aquilo que escreveu o meu querido kota Ismael Mateus nesta mesma página, há uma semana, com o título sagaz "Nagrelha, um herói improvável”.

Na passada terça-feira, assistimos todo ao funeral de Nagrelha, homenageado por dezenas de milhares de jovens que lotaram as ruas, em particular no troço entre a Cidadela Desportiva e o Cemitério de Sant’Ana.

Mas o que poderia ser um momento de homenagem a um dos mais populares músicos da actualidade, rapidamente se transformou num momento marcado por actos de vandalismo de alguns que se aproveitaram do momento contra os outros pedestres e motoristas ou viaturas que ousaram circular naquele troço ou nos arredores.

Os jovens agrediram tudo e todos, sem o menor pejo face às filmagens que iam sendo feitas e postas a circular. Aquelas imagens fazem-nos pensar… Foi um momento preocupante e que revela bem a nossa pequenez.

Acreditava que o momento seria de homenagem ao ícone em que se transformou Nagrelha, admirado não tanto pela sua musicalidade mas pela força do seu carácter e carisma. De qualquer modo, as suas músicas são conhecidas e era um momento em que os populares poderiam cantar e exaltar a sua obra, aquilo que é o seu principal legado numa morte assustadoramente prematura.

Mas a confusão que se instalou confirma também a nossa dificuldade em organizar e prever processos. E, claramente, os órgãos de segurança pública poderiam lidar de forma mais preventiva e dissuasora com este evento, ao contrário, o que vimos foi uma arruaça que se alastrou naquele perímetro da cidade de Luanda e que só foi contida no cemitério de Sant’Ana, da pior maneira, e quando era tarde demais e os estragos estavam feitos.

 Do acontecimento, salta à vista a predisposição de « alguns » jovens para a agressividade fortuita, desvalorizando completamente quem estivesse do outro lado. No fundo, há também um sinal político no comportamento que os jovens revelaram durante o funeral de Nagrelha.

Para mim, não é surpreendente a enchente em si mesma, como tentaram reflectir alguns. Para mim, é assustadora a forma como os jovens se comportaram, revelando uma ausência total de valores, o que me leva mais uma vez a questionar a eficácia dos conteúdos de Educação Moral e Cívica que se ensinam nas escolas; leva-me mais uma vez a questionar o papel das igrejas tão proliferadas no nosso seio, e sou tentado a acreditar que a fé se tornou mesmo um negócio; ademais, o papel da comunicação social, em particular da rádio, que a exemplo que faz e muito bem o Man Gomito, poderia ser um pilar importante para a transformação social, ajudando na educação cívica e cultural dos jovens.

Mas há outras estruturas importantes, as ONGs e os educadores sociais, para não referir o núcleo vital da sociedade que deveria ser a família.

Uma caracterização draconiana que me fez um amigo é para mim fulminante: "falhamos, brother”. Fez uma pausa e acrescentou: « mas ainda temos tempo. Precisamos de correr! ». Ngouabi Salvador é para mim uma referência do que é o compromisso com o outro.

A frase célebre de Agostinho Neto - o mais importante é resolver os problemas do povo - tem hoje um valor incontestável para quem trabalha para o Estado, é imperativo que a missão deve ser a de servir para ajudar o povo a resolver os seus problemas. É por isso fundamental desenhar políticas públicas que concorram para esse efeito.

Por exemplo, a educação precisa ser encarada com outra perspectiva no sentido de materializarmos a expressão segundo a qual o lugar de criança é na escola. Levar isso a peito e sermos ambiciosos em termos de metas sobre o compromisso que devemos fazer todos, enquanto país, para acabarmos com a vergonha que é termos crianças fora da escola.

E quando digo escola, é isso mesmo… na escola, com professores e ali onde se impõe, com merenda escolar.

 Fenómenos como aquela arruaça resultam também de um certo obscurantismo sobre o qual as pessoas só se libertam com a Educação. A Educação ocupa um lugar central nos objectivos de desenvolvimento do milénio e interferem em todos os processos. E a desestruturação das famílias fruto do caos social em que nos encontramos precisa de ser encarado de frente porque ainda há tempo, basta que sejamos rigorosos em matéria de gestão e políticas públicas inclusivas. Esse jargão, tem de se tornar uma bússola e tornarmos o bem-estar social numa realidade material em todos os lares, com pão, água, luz, educação e saúde. O resto, como quem diz, o betão não tem pressa.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião