Cultura

Prática tradicional “Bons Ventos” preserva a bênção dos ancestrais

Estácio Camassete | Huambo

Jornalista

A festa “Eyele lyo fela iwa”, em umbundu “Bons Ventos”, é uma prática tradicional realizada todos os anos, a 20 de Setembro, desde a ancestralidade.

22/09/2022  Última atualização 07H45
Grupo de dança tradicional Agostinho Neto animou as actividades das celebrações dos 110 anos da cidade do Huambo, que foram, ontem, comemorados © Fotografia por: Joaquim Armando | EDIÇÕES NOVEMBRO | Huambo

Permite a invocação e bênção dos antepassados para o êxito de todas as actividades que se efectuam nesta região durante o ano, bem como render graças de todas as acções feitas durante o mesmo período na comunidade.

Os rituais da cerimónia servem para agradecer a abundância das chuvas que caem com regularidade todos os meses, pelo sucesso da colheita agrícola, e pela saúde da comunidade, taxa de fecundidade e a perspectivar a mesma sorte para o ano seguinte.

O rei do Huambo, Artur Moço, informou que durante os 12 meses há muita coisa boa e ruim que acontece, por isso é necessário ter espírito de agradecimento pelo sucesso e invocar à sorte, para que nada de estranho apareça na comunidade no sentido de dificultar a vida das pessoas.

"Este ritual não poderá falhar em nenhum ano, sob pena de acontecer uma determinada situação desagradável no seio das famílias, é o garante da sorte da sociedade”.

"A actividade tem como ponto de partida o santuário onde estão depositados os crânios dos antigos soberanos ‘akokotos’, em seguida nos locais onde foram enterrados os seus corpos, e os seus nomes são evocados em voz alta, para dar a conhecer que na cultura umbundu, os nossos mortos ouvem os nosso clamores e nos ajudam em momentos difíceis, nos apoiam sempre quando for necessário”, disse Artur Moço.

A festa dos Bons Ventos é um evento com características comuns como qualquer outra cerimónia, embora tenha um grande significado para a vida da comunidade tradicional, traduz-se na alegria do povo, um júbilo com muitos significados para as autoridades tradicionais e não só.

Segundo o rei do Huambo, existem certos produtos que não podem faltar nesta cerimónia, em que se destaca o derramamento de sangue de um animal de grande porte, matam um ou mais bois e um número indeterminado de porcos, cabritos e galinhas, não podendo faltar as bebidas tradicionais: "owalende”, "kisangua”, "otchimbombo”, entre outras espécies típicas da área, além de vinho, cerveja para agradar os espíritos dos antepassado e garantir mais bênçãos.

Os animais planificados para esta actividade são abatidos ao vivo e esquartejados em pedaços, e sem nenhum tempero, apenas com sal, são assados e distribuídos a todos os presentes com ou sem acompanhante e todo indivíduo que não provar naquela carne é sinal de que não esteve na festa.

Além da carne e da bebida, nesta festividade não falta fuba branca, conhecida por "omemba”, cujo funje é acompanhado com carne assada.

Por se tratar de uma festa popular, cada pequena "Ombala” tem que entrar com algumas contribuições, para dar maior significado nas festividades do "Eyele lyo fela iwa”, com o objectivo de engrandecer esta cerimónia que recebe visitas vindas de diferentes reinos e "ombalas” da província.

  Compromisso com antepassados

O soberano da "Ombala” do reino do Huambo, Artur Moço, disse não ser possível a não realização da festa dos Bons Ventos, "Eyele lyo fela iwa”, porque "não pode falhar”, mesmo que não haja condições materiais para uma festa como tal, há necessidades das autoridades tradicionais organizarem um ritual de forma restrita e fazer valer o compromisso da ligação estreita com a ancestralidade.

"Nem a pandemia da Covid-19 evitou que a festa fosse realizada, a  ombala” mesmo em plena restrição, realizou a actividade, pedindo aos mais velhos para que a pandemia nos abandonasse, e mesmo nos momentos difíceis de guerra, as autoridades tradicionais nunca admitiram que esta actividade se passasse em branco, porque se falhar pode trazer algumas consequências”.

O rei comparou o "Eyele” com as festas do mar que se realizam na zona do litoral, onde são cumpridos alguns rituais, caso não se cumpram, algo de estranho ligado a doenças, catástrofes, fome ou fenómenos sociais podem acontecer e os mais velhos da área serão os primeiros a serem consultados.

A festa dos Bons Ventos também tem um carácter educativo, uma vez que incentiva o ressurgir dos ensinamentos dos "ondjangos”, considerados como as primeiras escolas comunitárias que apareceram para a educação dos adolescentes e dos jovens.

O momento servi, igualmente, de troca de experiência entre diferentes reinos, bem como, a troca de conhecimentos entre o poder tradicional e as instituições administrativas do Estado, para ver se a sociedade consegue caminhar de mãos dadas para o alcance do bem-estar das populações.

O momento mais alto do "Eyele lyo fela iwa” é a visita que se faz no "etambo”  - santuário - onde estão colocados os crânios dos antigos soberanos, bem como no cemitério onde repousam os seus corpos.

A "Ombala” do Huambo localizada no Samissassa é considerada como a capital do poder tradicional do reino do Huambo, e a zona da "Quissala”, onde está o mercado com o mesmo nome, é tido como a antiga capital da cidade do Huambo, porque é de lá onde se concentraram os primeiros portugueses a chegar no Huambo, na época da luta de ocupação colonial e só depois a urbe evoluiu para o bairro da Rua do Comércio, ao longo da linha férrea.

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