Economia

Praga destrói milhares de toneladas de tomate na comuna do Dombe Grande

Dez meses depois de visitar a sede comunal do Dombe Grande, no município da Baía Farta, para o lançamento do ano agrícola 2019/2020, em Benguela, o governador Rui Falcão voltou, há dias, ao mesmo cenário, e deparou-se com um conjunto de situações que marcam o dia a dia das famílias camponesas que trabalham a terra ao longo do vale do rio Coporolo, e dos pequenos e médios agro-industriais.

27/08/2020  Última atualização 10H50
Fernando Oliveira| Edições Novembro

Todos os anos, a natureza revela-se impiedosa com o Dombe Grande. As inundações são uma constante. As populações ficam isoladas em autênticas ilhas artificiais e os campos agrícolas arrasados praticamente em toda a extensão territorial da comuna, tudo porque os diques de protecção, construídos no período colonial, romperam, e ainda não foram reparados.

Na localidade, Rui Falcão viu, ouviu e entendeu que a principal acção para debelar o problema das constantes inundações e erosão dos solos agricultáveis passa pela regularização do leito do rio Coporolo. Com efeito, reconheceu não ser tarefa fácil porque “o país enfrenta dificuldades”.
“Há obras de engenharia e um caderno de prioridades dessas mesmas construções. Mas nós vamos fazer aquilo que nos compete, no sentido de sensibilizar os órgãos centrais, para a urgência que há na recuperação das infra-estruturas do rio Coporolo”, disse.

Em Fevereiro do ano em curso, o Jornal de Angola esteve no Dombe Grande, localidade que dista cerca de 62 quilómetros a sul da cidade de Benguela, tendo verificado que a não regularização e desassoreamento do leito do rio Coporolo é um problema real que está na base da permanente erosão das terras aráveis, contribuindo para o desalojamento das comunidades agrícolas, com maior incidência nas localidades de Cahungurulo, Hengue, Canto e Luacho.

Marcos Jorge, um membro influente da comissão de gestão da antiga Açucareira “4 de Fevereiro”, alerta que os diques de protecção erguidos no período colonial, na margem esquerda do rio Coporolo, ficaram destruídos, em Dezembro de 2019, com a força das águas.

Segundo Marcos Jorge, a erosão tem estado a contribuir para uma diminuição acelerada da área útil anteriormente disponível. “A primeira ruptura dos diques de protecção ocorreu, em 1996, quando choveu à cântaros. A sede da comuna do Dombe Grande ficou inundada de tal forma que não gostaria de ver repetidas vezes, mas isso pode voltar a acontecer. A vila está permanentemente ameaçada”, disse.
A bacia hidrográfica do Coporolo, que compreende dez mil hectares de terras cultiváveis, a par dos rios Balombo, Cubal da Hanha, Catumbela e Cavaco, completa o potencial da província de Benguela. Ao todo, perfaz cerca de um milhão de hectares de terras favoráveis à prática da actividade agro-pecuária.

Os agro-industriais, com forte intervenção na comuna do Dombe Grande, pretendem que o Estado intervenha de forma significativa e reforce as políticas do sector agrícola, para mitigar os problemas resultantes das intempéries cíclicas, e outros factores negativos que prejudicam a promoção do desenvolvimento da agricultura, em condições mais seguras.

O representante da Cooperativa Agro-pecuária e Indústria (CAPIADE), Tomás Rosa Flor, frisou que existem já três projectos para contrapor a situação, dos quais o último foi proposto em 13 de Março de 2014, pela empresa chinesa Guangxi Hidroelectric Constrution Bureau, com um orçamento de 76 milhões e 551 mil e 80 dólares norte-americanos. Mas até à data, nenhum desses projectos foi aprovado pelo Governo angolano.
A antiga ponte desactivada à montante da actual é outra preocupação, uma vez que tem a sua estrutura entalada. Corre o risco de desabar a qualquer momento, caso chova com intensidade nos próximos meses, podendo comprometer a actual ponte sobre o rio Coporolo e isolar a região do Dombe Grande, do resto da província de Benguela.

Por outro lado, as famílias camponesas e os agro-industriais há muito consideram “fundamental e urgente” a recuperação da ponte que liga a sede comunal do Dombe Grande à localidade do Luacho, passando por Cahungurulo, pois só assim será dada maior oportunidade aos agricultores da Granja e Luacho, por serem os mais vulneráveis do município da Baía-Farta.

Complexo fabril tarda entrar em cena

Em 2015, o Ministério da Agricultura, mesmo sem realizar um concurso público, construiu, formou uma equipa técnica e equipou um complexo fabril, constituído por uma unidade destinada ao processamento de tomate, uma fábrica de latas, um interposto frigorífico e cinco residências do tipo T3, para os técnicos em serviço na localidade.

Para corrigir a situação, o Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) lançou o Concurso Público n.º 4/19, para alienação dos empreendimentos agro-industriais do Dombe Grande, conjuntamente com outros 14 alistados no caderno de encargos e localizados em Camabatela, Porto Amboím, Luanda, Malanje, Caxito, Catete, Namibe, Caconda, Matala, Caála e Catabola, em que os agentes concorrentes apresentaram-se ao acto público de abertura das propostas, no dia 24 de Janeiro do ano em curso.

Na sequência do aludido concurso, espera-se que o funcionamento da cadeia produtiva seja reforçado. A unidade de produção de polpa de tomate tem uma capacidade de produção de um milhão e 243 mil quilogramas por ano, podendo garantir empregos directos a 37 cidadãos e a 111 indirectos.
Já a fábrica de latas para embalagem de tomate, com capacidade de produzir 5.967 toneladas por ano, pode empregar 20 trabalhadores directos e 60 indirectos, ao passo que o interposto frigorífico pode conservar até 900 toneladas de produtos diversos.

O governador de Benguela, Rui Falcão, lamentou o facto, dizendo que “infelizmente foram feitos vários investimentos, com boa vontade, e se calhar com algum mérito. Mas que depois não andaram. É preciso recuperar o tempo perdido e entregar esse património a quem tem capacidade para o explorar”.
Enquanto isso, a sede comunal do Dombe Grande continua a aguardar pela energia e água da rede pública, condições fundamentais para permitir o funcionamento pleno do complexo fabril.

“Tuta absoluta” inquieta agricultores

A campanha agrícola 2019/2020, lançada pelo governador Rui Falcão, em finais de Outubro de 2019, levava apenas três meses quando o desespero tomou conta dos camponeses do vale do Coporolo. A praga “tuta absoluta” chegou mais uma vez à localidade e arrasou plantações inteiras de tomate.
Em 2011, a mesma praga tinha assolado praticamente todas as áreas agrícolas da província de Benguela. A “tuta absoluta” voltou a atacar no ano de 2016 e 2017, e foi responsável pela destruição de mais de 30 mil toneladas de tomate no Dombe Grande, onde o desastre começou com uma virose fisiológica transmitida por uma mosca branca, a “bermisia argentifolii”, que causou a quebra do ciclo natural das plantas, com perdas calculadas em 90 por cento de toda a produção.

Seguiu-se a “tuta absoluta” ou “traça do tomateiro”, cujo combate os agricultores da localidade rotulam de “difícil”, dado o seu elevado potencial biológico, apresentando diversos hospedeiros, incluindo os infestantes.
O Presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Agro-pecuária e Indústria (CAPIADE), Tomás Rosa Flor, lamentou dizendo que a maioria dos seus membros está desmotivada, e que, por essa razão pondera abandonar a cultura do tomate. A COPIADE agrupa na sua estrutura 180 produtores familiares e 77 pequenos e médios produtores agro-industriais.

“O impacto da praga obrigou que a maioria dos agricultores dispensasse a mão-de-obra que posuíam e, em alguns casos estão pontualmente a contratar outra força de trabalho para assegurar o plantio de outras culturas, apenas para o período que dura cada produto, normalmente de três em três meses”, explicou o responsável da cooperativa agro-pecuária Esivayo, Victorino Chico, que vê no município do Chongorói o local ideal para a produção do tomate.

Um técnico que trabalha em estudos económicos, na zona agrícola do Dombe Grande, confirma o abandono do vale do Coporolo, por parte de alguns agricultores, que estão agora a produzir boas quantidades de tomate no município do Bocoio, em Benguela, assim como nas províncias do Namibe, Moxico, e em outras regiões agrícolas do país.
Cristiano Luís Joaquim, que coordena nove associações e duas cooperativas de agricultores, refere que os camponeses do Dombe Grande estão ainda muito longe de neutralizar o impacto das pragas, sair da subsistência e promover o desenvolvimento da agricultura familiar, em melhores condições de segurança.

Estratégias de combate

Segundo a literatura especializada, os estragos da “tuta absoluta” podem assumir grande importância se, após detecção, não forem tomadas as devidas medidas de protecção. Os principais prejuízos derivam dos ataques nos frutos, e as perdas de produção podem atingir os 100 por cento, quando a infestação é detectada tardiamente.

A praga é um problema global. Dados disponíveis indicam, por exemplo, que a “tuta absoluta” foi detectada, pela primeira vez, em Espanha, no ano de 2006. A comuna do Dombe Grande, no municipio da Baía-Farta, tem uma superfície de 2.172 quilómetros quadrados e uma população estimada em 41.434 habitantes, que têm como principais actividades a agricultura, pecuária, pesca e produção de sal.

Agricultores associados à CAPIADE definiram uma estratégia de luta, mas consideram que a mesma só surtirá efeitos positivos se tiverem o apoio do Ministério da Agricultura. As famílias camponesas e os pequenos e médios produtores agro-industriais, que trabalham a terra ao longo do vale do Coporolo, alegam “insegurança” na questão da posse de terra, pois sujeitam-se a contratos anuais que não facilitam a realização de investimentos sustentáveis a nenhuma empresa agrícola.

Consideram ser fundamental que o Estado acelere a passagem da titularidade dos terrenos da antiga Açucareira “4 de Fevereiro” para os produtores, como forma de legalizar os seus negócios e fortalecer a cadeia de fornecimento agrícola, que há vários anos enfrenta uma série de limitações.

“As terras, actualmente trabalhadas pelos nossos associados, e não só, pertencem à antiga Açucareira do Dombe Grande, e são geridas pelo Ministério da Indústria”, sublinhou o Presidente do Conselho de Administração da CAPIADE. Tomás Rosa Flor acrescentou que a falta de informação sobre o futuro daquela zona agrícola não tem incentivado os agricultores a investir, em grande escala, facto que permitiria rentabilizar o potencial existente.Victorino Chico, da cooperativa Esivayo, considera que o uso constante e intensivo dos solos está na origem dos constrangimentos registados. “O solo não repousa, além de limitado, pois muita gente quer trabalhar e a terra não chega”, disse.

São cerca de 10 mil hectares de terras cultiváveis, que pertenciam à Açucareira “4 de Fevereiro”, fundada nos anos 50 e paralisada em 1992, que passaram a ser explorados inicialmente por 3.500 ex-trabalhadores e depois por outras centenas de agentes agrícolas.
Marcos Jorge, membro da comissão de gestão da açucareira do Dombe Grande, afirma que somente à Direcção Nacional da Indústria Alimentar (DNIA), sediada em Luanda, cabe esclarecer que procedimentos vai utilizar para passar a titularidade da posse dos terrenos aos produtores, via Ministério da Agricultura.

Contribuição da ciência

Um estudo da Cadeia Produtiva de Tomate, elaborado em 2013, alertou o Ministério da Agricultura no sentido de prestar um serviço de qualidade, fundamentalmente em três factores: prover mais os recursos físicos, aumentar o rácio técnico/produtor e promover acções de capacitação dos técnicos no contexto do trabalho.

O estudo sugeriu igualmente a possibilidade de o Ministério da Agricultura definir planos de assistência técnica e formação ao produtor, tendo como vector as lojas agrícolas, como forma de suprir os problemas que ainda persistem.

Outras ideias sugeridas passam pela implementação de planos de formação que versem sobre a aplicação dos agrotóxicos, promoção de dias de observação de técnicas agronómicas aos melhores produtores, como forma de transmissão de conhecimento, bem como organizar feiras agropecuárias.

As recomendações contidas no estudo da Cadeia Produtiva de Tomate, elaborado em 2013, continuam actuais. O estudo considera fundamental a passagem da titularidade dos terrenos da antiga açucareira para os produtores, um fundamento jurídico que concorre para o equilíbrio do processo produtivo, particularmente das comunidades mais vulneráveis.

O mesmo estudo alerta para a necessidade do recurso à tecnologia SIG – Sistema de Informação Geográfica, para a definição das parcelas e respectivos atributos. A tecnologia SIG é considerada de baixo custo e produz resultados rápidos, uma boa prática largamente utilizada nos países desenvolvidos.
O estudo indica, como soluções técnicas, a ideia de equipar uma sala na Administração comunal, com computadores com acesso à Internet, para facilitar o envio de mensagens de texto, a uma base de dados de produtores, com informações relativas à produção e ao mercado. A ideia assenta no facto de a maioria dos produtores utilisar telemóveis.

Financiado pelo Fundo de Apoio Social (FAS), o estudo, que destaca a existência de alta produtividade de tomate na comuna do Dombe Grande, indica que, em 2013, era frequente um agricultor produzir acima de 18 toneladas por hectar, ou seja, bastava uma área de 2 a 5 hectares para abastecer uma pequena unidade fabril.
A investigação mostra que no Dombe Grande, será interessante pensar em alternativas de industrialização do tomate para as zonas com produtores mais vulneráveis, como os que actuam nas áreas do Canguengo, Tchipingo e Cambongo Inglês.

Outros constrangimentos

A fraca capacidade financeira dos agricultores impede o desenvolvimento de uma agricultura comercial, pouco rentável, e longe de ser competitiva e comparada com o tipo de agricultura praticada pelos demais países da região da SADC.
A ideia-chave partilhada pelos agricultores do Dombe Grande, tendo em conta a duração dos ciclos de produção, as actividades agrícolas e de agro-indústria, só pode desenvolver-se com base em financiamentos de longo prazo.

Os empresários agrícolas e das agro-indústrias apelam por uma intervenção mais sustentada do Ministério da Agricultura, em defesa do meio ambiente, para que sejam tomadas medidas que proíbam a venda de agrotóxicos nos mercados informais da província de Benguela.

A literatura especializada indica que um agrotóxico só pode ser vendido mediante apresentação do comerciante, da receita agronómica emitida por um profissional legalmente habilitado, contendo orientações relacionadas à quantidade, época de aplicação, cultura indicada, período de carência, tríplice de lavagem, destino das embalagens vazias, protecção do trabalhador e do meio ambiente.

A actividade de extensão rural supervisionada pelo Ministério da Agricultura vem sendo apontada como tardia a prestar o serviço aos produtores. O Jornal de Angola procurou ouvir a versão dos factos junto do Gabinete Provincial de Agricultura de Benguela, mas devido à indisponibilidade manifestada pelo director da instituição, engenheiro José Gomes da Silva, não teve êxito.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Economia