Economia

Poupar hoje para viver melhor amanhã

Domingos Mucuta | Lubango

Jornalista

Jogar moedas no orifício do moringue de argila parece insignificante para muitos, mas para a oleira Chipahu Tumpunga tem uma perspectiva futurista. Ela faz vasos ornamentais de argila no município da Chibia, onde aprendeu a poupar milho com os pais. Foi-lhe ensinado que a cada colheita deve-se tirar uma parte do milho seco e guardar na Kimbala grande para servir de semente e mantimento futuro.

04/12/2022  Última atualização 16H18
© Fotografia por: Arimateia Baptista | Edições Novembro | Huíla
A estiagem cíclica observada na região sul provoca ruptura nas reservas alimentares. Por isso, Chipahu Tumpunga apostou forte na olaria para sustentar os seis filhos. Na casa dos 50 anos, a oleira usa o hábito de poupança adquirido desde tenra idade para amealhar moedas, que guarda num moringue de argila.
Além de vasos, panelas de barro e outros utensílios, ela e outras oleiras da Chibia fábricam agora estes tipos de moringue e vendem  outras pessoas guardarem dinheiro. A senhora diz que pode fabricar este tipo de cofre em qualquer tamanho para incentivar as pessoas a guardarem uma parte do dinheiro que ganham.
A artesã foi buscar o moringue de argila que usa para poupar dinheiro e explica que muitos pais compram estes cofres artesanais para dar às crianças. Chipahu Tumpunga disse que guarda num sítio discreto da casa o cofre com um orifício em que passam moedas metálicas e/ou notas dobradas. Ela prefere continuar a depositar mais dinheiro do que saber o valor monetário total que está no moringue.

"Só vou tirar quando tiver necessidade. Agora é só meter. Quero comprar uma coisa boa. Há mais moringue que já encheram”, revela contente, em língua nacional Nhaneka-Humbe.

 

Impacto da poupança

A poupança tem impacto na vida individual, familiar e colectiva. Adiar o consumo afinal pode significar segurança e uma vida melhor no futuro, segundo o Banco Nacional de Angola. O volume de poupança no mercado formal pode também afectar, positiva ou negativamente, a solidez e a eficiência do sistema financeiro pelos efeitos sistémicos de natureza económica, alerta o director regional sul do Banco Nacional de Angola.

Sandro dos Santos, que dissertou sobre o tema "Relevância socioeconómica da poupança” numa Oficina de Educação Financeira, alertou que as dificuldades financeiras dos indivíduos não afectam apenas as suas famílias e as empresas, mas a sociedade em geral. "O efeito é abrangente pela fragilidade no desenvolvimento humano, pela sobrecarga das redes de protecção social, que podem colocar em causa a solidez e a eficiência do Sistema Financeiro”, argumentou.

O director regional sul do Banco Nacional de Angola defendeu a consciencialização dos cidadãos sobre a importância de poupar desde a mais tenra idade.  Afirmou que, no campo individual, a poupança permite encarar o futuro com maior segurança, e planear e desenvolver projectos pessoais e familiares com maior precisão. Já no colectivo, é necessário depositar a parte dos rendimentos poupados junto de entidades financeiras especializadas.

"O aumento dos níveis de poupança permite liberar fundos para financiar investimentos, rumo à diversificação da economia. A poupança deve ser tratada com uma questão de interesse nacional e regional. Devemos seguir o exemplo do Botswana”, citou, acrescentando que as reservas financeiras concorrem para o aumento da Produção Interna e para o bem-estar e a redução do desemprego, da pobreza e das desigualdades.

"Às vezes subestimamos o que podemos fazer no curto prazo e subestimamos o que queremos fazer no médio e longo prazos. Para poupar é preciso disciplina, regularidade e definição de prioridades. A grande questão é como passar da poupança para o investimento?”, indagou, antes de defender uma abordagem franca e aberta sobre o assunto, a partir do ensino de base. Sublinhou a relevância socioeconómica  de criar reserva financeira para eventuais imprevistos, gastar o dinheiro com inteligência eliminando do orçamento os gastos desnecessários, controlar as despesas e definir prioridades por meio do orçamento pessoal e familiar e investir estrategicamente.

Estatísticas com peso informal

Um inquérito do Banco Nacional de Angola, publicado em 2020 em parceria com o Banco Mundial e o Instituto Nacional de Estatística, revela que 50 por cento dos adultos guardam a poupança em casa e 30 por cento da população usa produtos de poupança formal.  O inquérito sobre Fortalecimento da Capacidade e Inclusão Financeira em Angola constatou que 62 por cento dos adultos em Angola têm uma forma de poupança. Deste universo, as mulheres economizam menos quatro por cento do que os homens.

"O quadro do estado da poupança em Angola sinaliza os desafios a enfrentar no domínio da educação financeira”, afirmou Sandro dos Santos.

  Incentivar a cultura da poupança

Incentivar a cultura da poupança no seio das famílias de baixa renda é a principal aposta do Banco Nacional de Angola na Região Sul. O director regional  Sandro dos Santos defende a sensibilização dos funcionários, estudantes e cidadãos nas comunidades sobre a importância da poupança para lidar com os imprevistos. Considera a poupança fundamental para a estabilidade social e económica das famílias e empresas. Por isso, segundo disse, a poupança deve ser incentivada nas escolas, no trabalho e noutros locais, para prevenir os cidadãos de eventuais crises susceptíveis de ocorrer nos mercados.

Sublinhou  o empenho do BNA na sensibilização sobre poupança e bancarização promovida anualmente através da Oficina de Educação Financeira. "O Banco Nacional de Angola enquanto instituição financeira macro assume a responsabilidade de desafiar o mercado angolano no sentido de olharmos para a poupança não só como um meio, mas também um fim”, afirmou.

Referiu que embora a poupança tenha geralmente forte dependência do volume de rendimentos das famílias, pessoas e empresas, por via de aforros, é possível incentivar a constituição de investimentos importantes para gerar lucros e ampliar o volume de reservas financeiras. Acrescentou que a poupança exige dos seus agentes um determinado esforço e estes esforços geralmente são condicionados aos hábitos e costumes e, muitas vezes, à cultura.

"É possível poupar em Angola, por entendermos que se se cumprir com algumas técnicas e objectivos, naturalmente todos podem sim poupar. Porque as poupanças previnem desafios futuros e mitigam consequências de eventos inesperados”, referiu.

A chefe de divisão de estudo e supervisão da delegação regional sul, Priscila Alberto, destacou o impacto dos programas de educação financeira levados a cabo pelo BNA no seio dos cidadãos. Priscila Alberto aconselha as pessoas a pouparem  10 ou 30 por cento do seu rendimento para o futuro.  "O primeiro passo para poupança é registar o orçamento pessoal e familiar para saber como se gasta o dinheiro. Só assim se pode definir as prioridades e reduzir os gastos necessários. É muito importante criar reservas para situações de emergência, mas também a poupança pode catapultar a realização de sonhos ou o empreendedorismo”, afirmou.

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