Reportagem

Potencial turístico à espera de apoios para prosperar

Francisco Curihingana | Malanje

Jornalista

O administrador municipal de Calandula, Mateus Vunge, 33 anos, lançou um desafio ao empresariado nacional e estrangeiro para direccionar os seus investimentos para aquela região de Malanje, actualmente com 100 mil habitantes, rica em potencial turístico e com terrenos propícios para a agro-pecuária.

27/02/2022  Última atualização 07H55
Município de Calandula © Fotografia por: Francisco Curihingana | Ediçõe Novembro | Malanje

Abordado pelo Jornal de Angola, Mateus Vunge, que é mestre em Ciências Empresariais, pós-graduado em Finanças Empresariais e  licenciado em Gestão e Administração Pública, referiu que Calandula tem, neste momento, um factor que justifica a presença do empresariado: a sede do município já conta com energia eléctrica a partir da barragem hidroeléctrica de Laúca. "Há muita oportunidade de negócio em Calandula. Estamos a convidar os interessados em investir para que o façam” , disse.

Com cinco comunas, nomeadamente, a sede, Cuale, Cateco Cangola, Kinge e Cota, a circunscrição conta com uma superfície de 70 mil e 37 quilómetros quadrados, com características apropriadas para a agro-pecuária.

Mateus Vunge destacou o potencial agrícola da região, onde associações e cooperativas têm estado a dar provas de que é possível apostar na produção nacional. A título de exemplo, o administrador referiu-se à cooperativa Valódia. 

O administrador municipal de Calandula precisou que, no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) está em curso a construção de duas escolas de 12 e sete salas de aulas, respectivamente,  bem como de um centro médico polivalente na sede municipal e outro na comuna do Cota.

No que toca ao Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza,  as atenções estão viradas para as camadas vulneráveis, sobretudo à integração produtiva dos ex-militares e dos jovens. "Estamos a falar de um município que, pela sua tipologia, dispõe de muitas potencialidades agrícolas e também turísticas. Por esse facto, a Administração Municipal tem um papel fundamental na atracção de investimentos. O grande desafio é mesmo este, atrair investidores para o município de Calandula, sobretudo para empregar a mão de obra local. Uma boa parte da juventude está no desemprego e procura oportunidades”, disse.

 

Abastecimento de água 

Actualmente, de acordo com o nosso interlocutor, o município enfrenta sérios problemas no que se refere ao abastecimento de água. "Somos um município com muita carência no abastecimento de água. A energia já não se apresenta como problema porque a primeira fase já foi resolvida”, informou.

Segundo Mateus Vunge, na sede municipal foram ligadas  já 350 residências, mas, "nós estamos a falar de uma capacidade instalada que vai além disso. Estou a falar de um total de 15 Postos de Transformação com uma média mínima de 400 casas por PT. Foi a primeira fase. Não vai terminar por aqui, há muita energia ainda para ser consumida. Junto das empresas responsáveis vamos mediar para que a energia chegue o mais longe possível, às residências dos consumidores”, explicou.

 

Educação e saúde

A Administração Municipal de Calandula tem ainda como desafio, presentemente, a reabilitação das escolas que estão em mau estado físico. O nosso interlocutor reconhece a existência de um número reduzido de professores na região, assim como de infraestruturas escolares, o que está na base da existência de 2.500 alunos fora do sistema de ensino.

O número reduzido de professores depende das quotas disponibilizadas nos concursos públicos. "Nessa altura beneficiamos de uma quota de 36 professores. Pela dimensão do município, é um número reduzido, mas que já vai permitir tapar ‘alguns furos’” , frisou. "O município conta com um número insuficiente de professores. As escolas são reduzidas, tem zonas que carecem de escolas. A médio e longo prazos vamos procurar resolver (...) a nível do  Programa de Combate à Pobreza, assim como de outros programas de investimento público”, acrescentou.

No que toca à saúde, o responsável referiu que serão abertos os postos encerrados por falta de pessoal. "Foram contratados alguns enfermeiros,  que, por falta  de recursos financeiros, estão há mais de um ano sem salários. É nossa pretensão reduzir ao máximo esta dívida, para que voltem aos postos de trabalho e prestem serviço à população”, afirmou.

 

Vias de acesso

Das quatro sedes comunais que Calandula tem, circula-se com facilidade para o Cota e o Cuale, por terem estradas asfaltadas. Já viajar para o Kinge e Cateco Cangola é um "Deus nos acuda”, dado o avançado estado de degradação das vias.

Mateus Vunge apontou um outro problema: os difíceis acessos das sedes comunais para os respectivos sectores. "Esse é um outro problema. Estamos a aguardar pela distribuição dos kits, que, possivelmente, os municípios terão para, paulatinamente, irmos resolvendo  os problemas”.

A conhecida zona Baixa ou dos Dongos, situada na comuna do Cuale, é descrita como a mais problemática no que toca à circulação de pessoas e bens.

 

Projectos turísticos  em curso

"A nível do turismo estamos bem posicionados”, salientou Mateus Vunge, defendendo a necessidade da rentabilização dos sítios turísticos da região. "É preciso que o turismo reverta a favor de quem  vive em Calandula. Temos que arrecadar receitas com o turismo. Estamos a caminhar para isso”, disse. 

Apesar das limitações impostas pela pandemia, as quedas de Calandula e de Musseleje têm sido os lugares mais procurados. As outras localidades não têm acesso facilitado.

O administrador acrescentou que está em curso um projecto para dinamizar o sector do turismo. "Nas quedas de Calandula vai ser construído um resort para atracção de turistas. Estamos a falar de uma iniciativa privada, que, de certa forma, vai colmatar a carência que há naquela zona. Estamos a falar num prazo de seis a sete meses”, referiu.

Empresários e comunidades

O administrador de Calandula reconheceu o contributo da classe empresarial na resolução dos problemas da população. "Felizmente o empresariado local tem estado a contribuir muito. A sua responsabilidade social tem estado a casar com a intenção de investimento. Temos zonas onde o empresariado fez furos de água, escolas e postos de saúde. Há mesmo empresários que, pela natureza do seu empreendimento, acharam por bem ajudar a própria administracção a reabilitar determinadas vias”.

Apontou a Fazenda Unicanda como um dos exemplos de comparticipação na solução dos problemas da população.

Mateus Vunge saudou o comportamento exemplar das comunidades. "Há zonas onde, por exemplo, a comunidade, com espírito patriótico, tem estado  a construir salas de aulas. A Administração contribui com as chapas e outro material complementar. Há comunidades comprometidas, que não esperam apenas pelo Estado para resolver os problemas e têm estado a ter iniciativas. Nós agradecemos. Louvamos as iniciativas e  lançamos o repto a outras comunidades para assim também procederem, pois as nossas acções não chegam ao mesmo tempo a todas as localidades”.

 

Munícipes pedem mais serviços 

Leandro Manuel estuda a 10ª classe. Vive em Calandula há mais de cinco anos. Viveu antes em Luanda, com os pais. Condicionalismos da vida levaram-no a algum atraso no que toca às questões académicas. Em Calandula vive com os tios. Leandro Manuel disse à nossa reportagem que a acalmia na localidade vai permitir-lhe prosseguir os estudos "sem grandes sobressaltos”. Pede às "autoridades de direito” para diversificarem a oferta de cursos, o que permitiria "o regresso de muitos jovens que andam pelas cidades sem qualquer ocupação”.

Gaspar Cababa defende a necessidade de mandarem mais professores para as localidades mais distantes da sede municipal. O nosso interlocutor reside no bairro Cabembo, comuna do Cuale, e disse não ter professor desde 2002. Por falta de ocupação, segundo disse, os jovens entregam-se ao álcool e a outros vícios "que em nada os dignificam”.

Manuel Jacinto conta com 28 anos de idade. Saúda as iniciativas da Administração, sobretudo a massificação desportiva e o diálogo com os jovens. Viveu antes em Luanda, mas, disse, "como eu não fazia mesmo nada lá, decidi regressar para ver se encontro aqui uma oportunidade de emprego para sustentar a minha família”.

O ancião Menezes Chico Quicuca lamentou o facto de não haver escolas em algumas localidades distantes da sede municipal. "As crianças constituem o futuro do país, e, por esse facto, é necessário que haja escolas nas comunidades para garantir a sua instrução”, defendeu.

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