Opinião

Posteridade e perpetuidade

Manuel Rui

Escritor

Há pessoas que, ainda em vida, já conseguiram a posteridade, artistas que produziram uma obra musical ou literária que é ouvida e cantarolada ou lida por multidões, na música, por vezes, sem entenderem a língua, na minha adolescência ouvia músicas em inglês e cantava sem perceber quase nada da letra, mas havia qualquer coisa de empático que me levava a deixar-me embalar, músicas que ainda hoje, cantarolo de quando em quando.

23/09/2021  Última atualização 05H15
No tempo colonial, cantávamos o hino português na escola sem sabermos o autor da letra ou da música. Há cânticos religiosos natalícios que quase se aproximam da perpetuidade, mesmo o "parabéns a você.”A posteridade, por vezes torna-se anónima, também, a posteridade reporta-se, em princípio a pessoas, factos ou actos, considerados louváveis por quem as consagram mesmo que com o tempo elas se continuem mas do avesso, caso da escravatura em que num tempo se legitimava marcar os negros escravos com um ferro em brasa o timbre do proprietário e hoje se considere isso odiento mas sem desaparecer de alguma memória colectiva. Certo que há pessoas que inventaram coisas contra a humanidade e por isso ficaram conhecidas e divulgadas na história, caso de Hitler ou Mussolini mas aqui e além há quem imite a suástica e ande em cortejos de moto como Mussolini. Rui Duarte escreveu "Vou lá visitar pastores” e ainda em vida se sabia que, mesmo depois da sua morte, o livro continuaria. Aqui, quando a posteridade percorre muito espaço e tempo, podemos passar à celebridade, mesmo no domínio da política, Luther King ou Nelson Mandela são celebridades como Beethoven ou Armstrong que parece que só acabam com o fim da história, isto é daqui a milhares de milhõesde anos quando o sol acabar e acabando a vida na terra acaba a história, não havendo ninguém para contar uma inútil desutilidade. Outro dia falava com um amigo brasileiro sobre a minha memória musical recordando a "belleépoque” da música francesa com a fantástica Piaf a cantar "La vieen rose”, e a versão de Armstrong, à noite, peguei um filme na televisão que tinha como fundo a versão de Armstrong de pistom e cantando"La vieen rose”, era a memória de posteridades que viraram celebridades sempre expostas ao esquecimento pela sobreposição de outras celebridades que hoje se podem "monitorizar” pela repetição e as novas tecnologias que "fabricam” a ruidosa efémera pelas redes sociais.

E há factos que se celebrizam pelo lado obscuro. Foi assim com as bombas atómicas, lançadas sobre Nagasáqui e Hiroxima ou os aviões sobre as torres e foi impossível apanhar o inimigo concreto porque ele matou-se para matar como os kamikazes japoneses que depois de rituais que incluía o despedirem-se das famílias, entravam nos aviões, subiam, depois picavam para cima dos porta-aviões americanos morrendo mas incendiando.

Esta questão da celebridade é marcada pelas estátuas que incutem uma relativa intemporalidade mas a maior parte das pessoas, nas cidades com muitas estátuas, nem sabem a quem se referem e observam as pombas defecando em cima da cabeça da pessoa quase perpetuidade que é mais do que celebridade, conheci uma linda mulher de nome Perpétua, um dia, na brincadeira, chamei-lhe "Perpétua” até eu deixar de te ver, na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza, ela desatou à gargalhada com uma boca imensamente beijável até ter desaparecido na espuma da minha paixão.

Tudo isto se mistura com a fama e às vezes uma imbecilidade, as pessoas ficam de espanto e umas até seguem, religiosamente, por exemplo, um republicano com uma embalagem de cloroquina a cantar aquela marchinha do tempo deCármen Miranda, "daqui não saio daqui ninguém me tira.”

Há pessoas que buscam a notoriedade pelo lado pior e inventam-se em pequenos vilões, usando a arrogância na fala, o pensamento do eu e não do nós, o ódio, a destruição em vez da palavra que demanda o consenso e transformando tudo numa guerra com unhas de vampiro. Essa notoriedade o povo, por regra, não gosta porque tem memória e o que sofreu no passado não quer que se volte a repetir, também os que em vez de se juntarem aos que querem acabar com a fome sem semear ventos para não colher tempestades, melhor seria agarrarem numa enxada e semearem, pelo menos, uma palavra de amor.

Quase perpetuidade é o que se costuma guardar em museus. Eu bebia água fresca do moringue ou da senga. Um dia veio o frigorifico, o moringue e a senga foram para o museu de olaria.

Os pobres sempre foram usados para tudo até para alguns falarem na pobreza de barriga bem cheia, bons carros, boas águas de colónia, tudo para subirem na vida à cavalitas dos  pobres.

É bom que quando chove muito, quem tiver casa e vir alguém pobre caminhando debaixo da borrasca, que lhe abra a porta, lhe dê roupa, comida, conforto e peça ao mendigo para contar a sua vida que pode dar posteridade.

Perpetuidade é eternidade. A vida é finita e só a morte é infinita, por isso os budistas entendem a vida também como um aperfeiçoamento contínuo para a morte. Há outros entendimentos em doutrinas ou religiões, incluindo as que acreditam na reincarnação, no paraíso e no inferno. 

Mas ouvi alguém dizer que uma pessoa só morre quando não houver alguém que se lembre dela. Agostinho Neto ainda não morreu… tem uma imensa multidão que se lembra dele "com os olhos secos.”







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