Reportagem

Porto Amboim assinala 435 anos com enormes desafios por ultrapassar

Casimiro José| Sumbe

A cidade de Porto Amboim, ex-Benguela Velha, sede do município com o mesmo nome, na província do Cuanza-Sul, assinalou, ontem, 435 anos desde a sua elevação à categoria de cidade, com enormes desafios por ultrapassar as dificuldades conjunturais e caminhar com passos seguros, rumo ao desenvolvimento, nos vários domínios da vida socioeconómica.

16/10/2022  Última atualização 06H00
© Fotografia por: Casimiro José | Edições Novembro

Porto Amboim existe desde o ano de 1587, durante a vigência do sistema colonial português. Com o alcance da Independência Nacional, a cidade esteve sempre no centro das atenções do Governo angolano, por ser a placa giratória que liga a capital ao Sul do país.

A sua fundação ocorreu a 15 de Outubro de 1587, por Paulo Dias de Novais, um navegador português. É habitada pelos povos Mupindas, originários do Norte de Angola, através do reino do Ndongo.

Do ponto de vista histórico, a cidade de Porto Amboim foi também ponto de tráfico clandestino de escravos. Em 1867, por iniciativa de quatro colonos portugueses, dá-se início na região a cultura do algodão que durante a vigência do sistema colonial teve um peso significativo na balança económica da então província ultramarina.

De lá para cá, a cidade vai conhecendo transformações, fruto de vários projectos e programas do Governo central e provincial. O objectivo é fazer com que o Porto Amboim figure na lista das cidades com condições de habitabilidade e digna de se viver.

As autoridades administrativas consideram que a concretização do processo de desenvolvimento passa por investimentos públicos e do sector privado, uma vez que o município possui um potencial enorme e capaz de crescer.

As suas potencialidades, em recursos piscatórios e outras iniciativas ligadas à indústria metalomecânica, implantadas na região, fazem da cidade de Porto Amboim um dos pólos industriais da província.

Essa convicção justifica-se pelo facto de nela estarem implantadas indústrias metalomecânicas, como a Heerema Group e a Paenal, a última detentora de uma das maiores gruas no continente africano, com capacidade de suportar 2.500 toneladas.

Outros empreendimentos sociais que engrandecem a cidade de Porto Amboim são as indústrias de água mineral, o Terminal Oceânico da Sonangol Logística, que abastece o combustível e gás butano para diversos fins.

 

Pontencial agro-pecuário e piscatório

A administradora do município, Maria Domingos Sumano, disse, ao Jornal de Angola, que, decorridos 20 anos de paz efectiva em Angola, o Governo da província continua a trabalhar, através de programas e projectos, para que a cidade de Porto Amboim possa resgatar o seu potencial agro-pecuário, piscatório e industrial, no âmbito provincial, nacional e regional.

Ao fazer um balanço dos 435 anos, Maria Sumano afirmou que a cidade vive problemas idênticos aos de outras cidades do Litoral, principalmente no tocante ao saneamento do meio, que nas épocas chuvosas constitui um "cavalo de batalha”.

A administradora municipal adiantou que outro problemas que a cidade vive tem a ver com a deficiente distribuição de água potável aos munícipes, devido ao estado de degradação da ETA (Estação de Tratamento de Água) local, que considerou obsoleta. "Estamos a viver um período crítico em termos de abastecimento de água, não porque falta nos reservatórios, mas devido à fraca capacidade, face ao êxodo populacional”, disse.

Na mesma senda, o fornecimento de água às comunidades também é feito com imensa dificuldade, sobretudo nas comunidades do Choba, Quilómetro 28 e Denda.

Maria Sumano reconheceu os níveis de desenvolvimento que a cidade de Porto Amboim e o município em geral vêm alcançando, mas sublinhou que tem pela frente a árdua batalha que vai proporcionar a resolução dos inúmeros problemas que ainda afligem as populações.

"Todos os anos notamos que a nossa cidade e o município em geral estão a progredir nos mais variados domínios, mas ainda não sentimos o dever cumprido, tendo em conta o leque de tarefas que temos de desenvolver para resolver os problemas das nossas populações”, admitiu a administradora municipal.

Projectos em curso

A administradora municipal de Porto Amboim disse estarem em execução importantes projectos, no quadro do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), com destaque para o projecto de asfaltagem de 20 quilómetros do casco urbano da cidade, conclusão das obras de duas escolas de sete salas de aula cada, enquanto uma já foi concluída.

Outras acções em execução, no quadro do Programa de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza, incidem na requalificação das vias de acesso, ampliação da rede de abastecimento de água potável, na cidade e arredores, bem como a iluminação pública no casco urbano e bairros.

A reparação das vias de acesso que ligam as áreas de produção à cidade, bem como a promoção de iniciativas que alavanquem o sector das Pescas, Indústria Salineira, o fomento do sector Agro-pecuário e o empreendedorismo para as populações, sobretudo dos jovens, são, segundo Maria Sumano, outros projectos traçados pela administração municipal.

 

Desafios

Dos desafios para os próximos tempos, a administradora municipal de Porto Amboim anunciou a advocacia junto dos órgãos competentes para a construção de uma ETA com grande capacidade e a respectiva conduta, para atender os munícipes. Referiu-se, igualmente, a continuidade do processo de melhoria do saneamento básico, bem como a implementação de projectos que visam a inclusão das mulheres no meio rural.

A outra aposta para os próximos tempos, segundo Maria Sumano, visa a promoção de acções de formação em artes e ofícios para garantir a empregabilidade no seio dos jovens, apoio à agricultura familiar e outras.

Entre as principais preocupações no município, a administradora apontou o desemprego no seio dos jovens. "Temos na cidade de Porto Amboim empresas do ramo metalo-mecánico, como a Paenal, Heerema Group e tantas outras que empregavam muitos jovens. Com a crise financeira e outros problemas resultantes da pandemia da Covid-19, as mesmas tiveram que despedir muita gente, situação que nos preocupa, uma vez que o desemprego gera criminalidade”, disse Maria Sumano, visivelmente triste.


Necessidades  na Saúde e Educação

Os sectores da Saúde e Educação no município de Porto-Amboim também vivem as dificuldades conjunturais do país. Com efeito, para colocar aqueles serviços às populações, as autoridades locais redobram esforços no sentido de responder a procura.

A rede sanitária do município de Porto Amboim conta com 23 unidades sanitárias, das quais um hospital municipal com 95 camas para internamento, centros médicos e postos de saúde. De acordo com as autoridades sanitárias, os habitantes do município confrontam-se, frequentemente, com casos de paludismo, doenças respiratórias e diarreicas agudas, entre outras.

O sector da Educação comporta uma rede escolar com 44 escolas, das quais uma do ensino privado. Frequentam o presente ano lectivo 36.711 alunos dos vários subsistemas do ensino, e com um corpo docente constituído por 961 professores.

Apesar dos indicadores de crescimento registados, o município de Porto Amboim apresenta, ainda, carências em infra-estruturas escolares e de professores para fazer face à procura. De acordo com a administradora do município, o  Porto Amboim necessita de mais 415 professores e 77 salas de aula para cobrir as necessidades do processo de ensino e aprendizagem.


Agricultura e pecuária

O sector Agro-pecuário é que mais preocupa as autoridades do município de Porto Amboim e da província, em geral. Há irregularidades nas chuvas, por isso, o pasto também vai escasseando em muitas localidades do município.

As autoridades admitem que a situação vai tomando proporções alarmantes, provocando morte do gado devido à falta de água e de pasto. Como alternativa, os criadores estão a transferir o gado para as margens dos rios Longa e Keve, cuja transumância tem acarretado inúmeros encargos.

A população animal em Porto Amboim comporta 32 mil cabeças de gado bovino, 22 mil de caprino e três mil de ovinos.

O sector das Pescas tem sido dos que emprega a população e gera rendimentos, mas a falta de apoio em equipamentos está a dificultar a actividade piscatória em grande escala. Entre as dificuldades mais salientes está a falta de um estaleiro naval para apoiar o sector.


Apelo aos naturais na diáspora

A administradora municipal lamentou que muitos angolanos naturais do Porto Amboim e que se encontram na diáspora tenham esquecido a terra que os viu nascer.

"Necessitamos de mais solidariedade e apelamos no sentido de todos os que se revêem no Porto Amboim no sentido de se juntarem aos esforços para a sua reconstrução, até porque não devemos deixar órfã a terra que nos viu nascer”, exortou.

Maria Sumano disse que o município necessita de mais investimentos e pediu aos empresários no sentido de desenvolver projectos que satisfaçam as necessidades das populações. Reiterou, com efeito, o apoio total da administração sobre as iniciativas empresariais que possam surgir na região.

Entre os sectores que mais necessitam de uma intervenção urgente, a administradora apontou as áreas turísticas da Buambua, Yaia, Cuvo e o Complexo Turístico do Longa.

Maria Sumano defendeu, igualmente, o alargamento da rede hoteleira no município.

O município de Porto Amboim tem 3.311 quilómetros quadrados e 118.564 habitantes, que maioritariamente vive da pesca, criação de gado e da agricultura.

Administrativamente, o município de Porto Amboim está dividido em duas comunas: a sede e a de Capolo.

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