Cultura

Por uma dança livre e sem tabus

Instituído pela UNESCO em 1982, o Dia Mundial da Dança é celebrado em homenagem a Jean-Georges Noverre (1727-1810), coreógrafo francês que esta organização internacional reconheceu como o grande precursor da profissionalização da dança.

29/04/2022  Última atualização 09H35
© Fotografia por: DR

Efectivamente, as reformas e premissas que estabeleceu na sua incontornável obra "Lettres sur la Danse et sur les ballets” ("Cartas sobre a dança e sobre os ballets”), determinaram transformações essenciais para que a dança conquistasse o estatuto de arte independente que conhece nos dias de hoje. Homem visionário e avançado para a sua época, defendeu ainda, nas suas Cartas, uma formação sólida e abrangente para bailarinos, professores de dança e coreógrafos.

É comum ouvirmos dizer que a primeira dança foi um acto sagrado, pois antes de falar, o ser humano moveu-se tendo, posteriormente, criado uma gestualidade que passou a utilizar como linguagem de comunicação. No início, o Homem dançou para celebrar ou para pedir as boas graças de desconhecidas entidades, mas com a estruturação das formações sociais, a dança foi diversificando os seus propósitos e funções. Divididas em classes, as sociedades continuaram a utilizar a dança como meio de recreação e de interacção entre os seus membros.

A par das danças populares, as danças de corte europeias progrediam para uma posição de destaque nos grandes espectáculos, cujas exigências acabaram por requerer a profissionalização. No ano de 1661, Luís XIV, rei de França (ele próprio bailarino), funda a primeira instituição para o ensino da dança académica. A partir daí foram-se consolidando as metodologias para o ensino da dança, actualmente utilizadas na formação de bailarinos, professores e coreógrafos.

Na Angola independente, logo no início de 1976, também foi aberta uma Escola de Dança a qual, embora fosse uma instituição oficial e estatal, se viu confrontada, desde cedo, com toda a sorte de adversidades que a impediam de cumprir o seu objectivo essencial: formar profissionais dentro dos padrões de um saber especializado universal.

Este grande erro inicial, associado ao desinteresse em entender o ensino artístico, enquanto domínio científico levou a que, 46 anos passados, não tenhamos nem profissionais de dança angolanos suficientes, nem um ensino da dança competente e de qualidade.

Ignorando-se a opinião e a experiência dos especialistas, extinguiram-se recentemente as Escolas de Arte, confinando-se o ensino da dança a uma simples área de um instituto politécnico do Ministério da Educação (onde está a Cultura?), formato comprovadamente desajustado que jamais servirá os verdadeiros propósitos de um ensino que deve, obrigatoriamente desenvolver-se de forma independente e fundado numa componente prática dominante.

A esta debilidade, esteve sempre aliado o pouco esforço para desenvolver uma estratégia de educação artística massiva e a propagação de um discurso irresponsável e monolítico sobre um património ancestral herdado, continuando a remeter-se parte importante da sociedade angolana à ignorância sobre os demais contextos em que a dança se manifesta, nomeadamente, a sua vertente cénica.

Há décadas que a dança desenvolve propostas criativas com outras linguagens e com outros campos disciplinares, num vasto universo de experiências onde se abrem portas para  novas e extraordinárias consolidações. E no nosso país? A dança continua a arrastar-se, em cerimónias protocolares, salões de festas, jantares e espectáculos de fraca qualidade, uma falsa e traída tradição como única possibilidade de dança "nacional", à qual se junta, orgulhosamente, um "popularucho” condimentado de vulgaridade, sempre com a insólita convicção de estarmos a caminho de uma identidade imaginada. Como resultado deste olhar distorcido sobre a dança, exalta-se o culto da mediocridade, agravado pelo facto de, com este descaracterizado folclore para turistas, estarmos alimentando a imagem redutora que o ocidente um dia construiu (e continua a querer perpetuar), de uma África parada no tempo, primitiva e idílica, ao som de tambores e pores-do-sol inigualáveis.

Para progredirmos, ao mesmo tempo que protegemos as nossas valiosas tradições, urge que se dê à sociedade angolana o direito de abertura. Estamos no século XXI e há que perceber que as criações modernas e contemporâneas integram igualmente o património artístico dos povos e do mundo; é tempo de assumir a Dança, enquanto arte e não apenas enquanto produto descartável de entretenimento circunstancial; há que olhar para a dança como património universal, sem nacionalidades e sem fronteiras; e é fundamental que se dê dignidade aos verdadeiros profissionais, ficando claro que essa designação é uma exclusividade daqueles que adquirem um saber especializado em instituições próprias. Está na hora de se aceitar a Arte como algo inovador, frontal e transformador.

Mas Angola tem, desde 1991, a Companhia de Dança Contemporânea – uma das primeiras em África e membro do Conselho Internacional da Dança da UNESCO – que, numa condição de sobrevivência que em nada dignifica o nome do país, resiste há 30 anos empenhada em modificar este cenário, criando e partilhando outros caminhos artísticos, outras linguagens, outras estéticas; que pretende mostrar a diferença entre o entretenimento e a Arte enquanto produto de reflexão e de profundo investimento intelectual; que se esforça por demonstrar que dançar e coreografar não significam apenas movimentar o corpo ou organizar pessoas num palco, mas fazê-lo de forma consciente, segundo técnicas e códigos aprendidos; que tenta, nas poucas oportunidades que lhe são dadas, mostrar a Dança no seu estado de maior elaboração: a dança teatral ou cénica.

Hoje, em dia de celebração, a CDC Angola pede solidariedade para poder existir e a todos unir em torno da sua missão histórica de manter abertas as portas da inovação e do progresso para a elevação da qualidade artística da dança angolana.

* Coreógrafa e professora de dança.

Ana Clara Guerra Marques

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