Opinião

Por uma análise das estatísticas das artes e da cultura

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Não direi nada novo dizendo que, uma das dificuldades com que se confrontam os investigadores que pretendam analisar a informação sobre os intervenientes da criação, produção, recepção, estudo, divulgação e gestão do sistema geral das artes e da cultura, em Angola, é o problema das estatísticas.

16/11/2021  Última atualização 09H05
Existem muito poucas estatísticas e as que existem são, de certeza, pouco conhecidas – normalmente são de uso interno das instituições - ou, no pior dos casos, mesmo que, sejam de conhecimento público nunca são realmente tidas em conta para se realizarem cálculos, que ajudariam tanto a melhor a dimensionar os projectos de desenvolvimento social como a ter uma antevisão sobre o volume e a densidade populacional (criadores, infraestruturas necessárias e público potencial), neste importante sector, nos próximos vinte e trinta anos.


Os dados estatísticos são um instrumento essencial para pensar o desenvolvimento das artes e da cultura, a curto e a longo prazo, diferenciar a forma e a dimensão que ela deve ter se é para uma cidade de vinte mil habitantes ou numa grande cidade de 7 milhões de habitantes, se, por exemplo, é para a construção de um equipamento cultural numa cidade satélite como pode ser a centralidade do Kilamba ou se é para o Cabo Ledo e, inclusive, para ter uma ideia concreta sobre as especificidades de uma província ou de uma região.


Talvez, por isso, eu tenha prestado especial atenção aos dados avançados pela Fundação BAI, na sua nota conceptual a propósito do Webinar "Múltiplos olhares sobre a arte e artistas em Angola”, realizado online no passado dia 14 de Outubro.


Na sua nota a Academia BAI informa-nos que a "União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC) estima que existam 5.443 artistas, sendo 1.011mulheres e 4.432 homens, em todo o país, onde as mulheres representam apenas 22, 8%”.


No que concerne aos Artistas Plásticos, - continuamos a citar a nota da Academia BAI-, "a União Nacional de Artistas Plásticos (UNAP) tem cadastrados 600 membros, 120 mulheres e 480 homens. A União dos Escritores Angolanos (UEA), conta com 118 membros, dos quais 97 homens e 25 mulheres”. Evidentemente, estes dados ainda podem ser ainda mais afinados se incluir as manifestações artísticas concretas que pratica cada artista, as idades que têm, o lugar em que residem, as instituições em que se formaram.


Ainda assim, analisando concretamente os dados de que dispomos avançados pela Fundação BAI, se somarmos os artistas e compositores com os artistas plásticos e os escritores teremos 6.161 criadores de arte e de literatura, e menos que a este número acrescentássemos a mesma quantia seis vezes mais, calculando como sendo o número de todos os recursos humanos e a forma de trabalho associada as indústrias culturais, todos eles colocados num país com 32 milhões de habitantes representariam menos de 5% da população que, no geral, lidam no seu dia-à-dia com questões artísticas e culturais e tenta fazer dela sua condição de vida e de subsistência material e económica.


Isso significa que o outro 27% da população corresponderia ao potencial público-alvo que, como sabes, na maior parte dos casos, sem passar pelo mínimo de educação artística apropriada, lida com um vasto número de produções artísticas e culturais, sem qualquer instituição de intermediação especializada e, por conseguinte, sem qualquer critério e educação do gosto e do juízo de valores.


O que, no fundo, queremos aqui defender é que, para além de fazerem-se diagnósticos primários ou até mesmo de inventariação muito básicas, com os instrumentos científicos de que dispomos, talvez não fosse uma má ideia a execução de um projecto de recolha e análise estatística de dados sobre os intervenientes da criação, produção, recepção, estudo, divulgação e gestão do sistema geral das artes e da cultura, em Angola, que possa ser actualizado periodicamente e que esteja a disposição dos investigadores, das instituições e, em geral, do público: uma ideia antiga, mas que traduz uma necessidade sempre actual.

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