Opinião

Por um Governo de unidade e de reconciliação nacional

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

“Devemos estar unidos e, também, governarmos todos” – disse um dos meus amigos, quando comentei-lhe sobre a principal ideia desta crónica. Sobre o passado devo dizer que, muitas vezes ele parece estar adormecido e noutras, de repente, se desperta e entra em irrupção, faz das suas, ressurge de um modo inesperado: há passados tão duros ou tão amargos que quanto antes nos reconciliarmos com ele é melhor, ficamos mais à vontade.

01/06/2021  Última atualização 06H05
O passado é um território multiforme, uma ilusão que construímos para fazer referência a aquilo que já não é, ao que terá passado, às coisas e situações que teremos vivido, o que antes teremos ouvimos, o que teremos desejado, possuído ou amado, ao que, há dado momento, sonhamos. Um passado não é nada uniforme. Pode acontecer que, vendo retrospectivamente, todos tenhamos falhado ou acertado, de acordo com o ponto de vista que tivermos, mas o melhor mesmo é colocar-se no lugar dos outros para poder entendê-los, aceitar, confessar, admitir, assumir culpas, pedir desculpas, perdoar e abraçar. Cada qual tem o seu passado e o seu passivo. 

O passado de outros é aquilo que eles terão vivido, feito ou sonhado quando nós não estávamos, num tempo que nunca nos pertenceu. O passado gosta de nos surpreender, umas vezes de modo cruel, outras nem tanto: vezes há que ele ressurge para dar-nos uma lição ou, simplesmente, fazer-nos um aviso, para nos consolar, para nos servir de luz e com o seu resplandor evitar que, no futuro, cometamos erros gravíssimos que nunca deveríamos ter permitido que acontecessem: 27 de Maio nunca mais!

Entretanto, quando o futuro surge nas minhas reflexões, ultimamente, o faz com uma ideia que pode parecer simples: à medida que nos vamos nos aproximando ao fim do ano de 2021, em que os diferentes actores da vida política nacional vão se posicionando e agindo em concordância com o que pode ser a disputa pelo objectivo claro da manutenção do poder ou o da alternância política, no nosso país, achoque, os partidos políticos não deveriam ir às eleições gerais de 2022 sem antes fazer um pacto pré-eleitoral, em que se comprometeriam a - em caso de vencerem as eleições -, o partido vencedor liderar a formação de um Governo de unidade e de reconciliação nacional que incluísse quadros da oposição, da sociedade civil organizada, incluindo também investigadores e académicos de reconhecida competência.Se o que está realmente em jogo é o futuro dos angolanos, - a melhoria das suas condições sociais e a aceleração da construção de um Estado de bem-estar social cada vez mais justo, moderno e desenvolvido, no nosso país, entre outros objectivos afins-, a notícia mais importante que se espera do panorama político de Angola não é saber, concretamente, qual partido político estaria disposto a, uma vez mais, aceitar a derrota nas eleições gerais ou qual está preparado para ceder o poder para outro partido político.

O que, a meu ver, importa refletir é se estamos preparados para desenhar e activar um mecanismo célere que nos permita criar, sob a liderança do vencedor das eleições gerais de 2022, um Governo de unidade e de reconciliação nacional, abrindo a via para traçarmos com maturidade o futuro do nosso país, em termos, forma,fundo e objectivos completamente diferentes e muito melhores que os da anterior experiência, de 1997. Exceptuando o acto de votar em si mesmo, a disputa eleitoral terminará sendo, na verdade, um conjunto de actos de campanha política (comícios, conferências nacionais e ou até congressos deste ou daquele partido, entre outros) que, por si só, não configuram, no actual momento da história do nosso país, actos políticos maiores e de impacto para toda sociedade, uma vez que os partidos políticos, ao se dirigirem para os seus próprios eleitorados, o que provocarão é a radicalização de posições e de posturas e ao confronto ideológico, por um interesse partidário, quando deveríamos e interessar-nos-ia mais estar a pensar seriamente no desenvolvimento do país. 

O que quero dizer é que, se o interesse mais nobre e elevado da política é que ela sirva para transformar as sociedades e a vida dos cidadãos não me parece que do modo em que ela é praticada agora e muito menos, sendo o que temos como oposição política em Angola, como ela poderia ser praticada, no futuro, independentemente de quem seja o vencedor das eleições gerais, seja garantia de cumprir o seu real interesse para o conjunto dos cidadãos.Se das eleições gerais de 2022 emergir um Governo de unidade e de reconciliação nacional todos sairemos a ganhar: colocaríamos sobre as nossas cabeças o peso e a responsabilidade de pensar o futuro de Angola, de acordo com os mais altos interesses de todos os angolanos.

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