Entrevista

“Por Angola sou capaz de tudo”

Arão Martins | Lubango

Jornalista

Foi com lágrimas nos olhos que, na última quarta-feira, o árbitro assistente internacional Jerson Emiliano dos Santos, 39 anos, deixou o país para fazer parte do lote dos melhores árbitros presentes no Campeonato do Mundo de Futebol em seniores a decorrer de 20 de Novembro a 18 de Dezembro no Qatar. O árbitro manifestou a sua tristeza por não ter recebido apoio do Conselho Central de Árbitros da Federação Angolana de Futebol para uma preparação condigna.

13/11/2022  Última atualização 07H55
Jerson Emiliano na partida para o Mundial do Qatar © Fotografia por: Edições Novembro
Depois de participar no Campeonato do Mundo da Rússia, em 2018, mais uma vez foi indicado pela FIFA para estar na mesma prova, desta vez no Qatar. Qual é o seu sentimento?

Já participei nos campeonatos mundiais de futebol  de  Sub-20 no Chile e na Coreia. Antes estive presente nos Jogos Olímpicos de 2014, ocorridos na China. Depois de participar no Mundial da Rússia, ser chamado pela FIFA para ajuizar no Mundial do Qatar... o sentimento por um lado é de alegria, por outro viajo com o coração partido.

 

 Viaja com o coração partido?

No momento em que mais precisei, o Conselho Central de Árbitros da FAF virou-me as  costas. Antes de continuar, deixe-me lembrar que também fiz parte do trio de árbitros que ajuizou o jogo da final do Mundial de Clubes, ganho pelo Real Madrid, diante do Oklahoma, em 2016. Ainda assim, pelo meu país que amo muito, o sentimento de voltar, mais uma vez, a estar numa competição mundial, é de muita satisfação. Estou preparado. Por Angola sou capaz de tudo.

 

É possível clarificar melhor?

Digo isto porque a preparação correu na medida do possível para uma prova tão exigente. Porém, tal como já disse, volto a afirmar que a preparação foi boa no contexto  geral, mas foi de altos e baixos em termos de treinamento e ajuizamento de jogos. Para  não lamentar muito, posso até dizer que a preparação foi boa, mas não a que eu gostaria de ter. Falo de uma preparação possível porque fui obrigado a recorrer a um instrutor físico de atletismo, a quem solicitei o apoio, além de contar com a ajuda dos instrutores físicos da Confederação Africana de Futebol (CAF).

 

Apesar das dificuldades, como foi a preparação depois de receber a notificação e confirmação da FIFA para estar no Qatar?

Tive mais de cinco meses de preparação, dos quais três de preparação intensiva. Fisicamente, acredito que estou preparado. Tecnicamente, vamos complementar o  trabalho iniciado no dia 10 deste mês. Acredito que estou com uma preparação de 80 por cento, no contexto geral.

 

Durante este período ninguém se predispôs a ajudá-lo?

Relativamente aos apoios é algo que me deixa triste. Tive apoio do Governo ProvinciaL da Huíla, junto do Gabinete Provincial da Juventude e Desportos, na dispensa dos campos para treinamento. Contei, também, com o apoio da Direcção Provincial da Educação, Ciência e Tecnologia da Huíla, de que sou quadro, na dispensa de mais  tempo para  treinamento. Acho que são esses os apoios sonantes que recebi.

 

Na qualidade de filiado, recebeu algum apoio do Conselho Central de Arbitragem?

 Da parte do Conselho Central de Árbitros da Federação Angolana de Futebol não recebi quase nada e não entendi o porquê. Desta vez viraram-me as costas na fase de preparação. Mas a vida é assim. Tenho que continuar a trabalhar e a me preparar para o futuro.

 

Qual é o apoio que esperava receber da FAF?

Precisava apenas de mais jogos. Justamente na fase que eu mais precisava os jogos não me foram concedidos. Até hoje não entendo o porquê das razões, se foi o meu fracodesempenho ou a condição física. Não consigo entender as razões que fizeram com queem oito jornadas do Campeonato Nacional da I Divisão, vulgo Girabola, não fui escalado para fazer parte do trio de arbitragem de alguma partida. Eu entendo quesomos muitos árbitros filiados no Conselho Central de Árbitros e todos merecem ser nomeados. Mas, na fase de preparação para fazer parte do grosso de árbitros que vão estar presentes no Mundial, o que me ajudaria seria a realização de mais jogos. Para colmatar a lacuna, tive que recorrer a CAF, que me nomeou em dois jogos, que aproveitei para treinar. E também fui obrigado a recorrer à visualização de muitos jogos da UEFA e dos campeonatos latino-americanos, para poder me preparar junto do sistema de educação da FIFA, que nós chamados de "Rede”. Acredito que ajudou. Mas, na verdade, o bom desempenho de um árbitro é feito com a realização de jogos.

 

Alguma vez mostrou-se indisponível?

Não me lembro. Eu sempre mostrei a minha disponibilidade para ajuizar jogos doGirabola. As nomeações foram feitas, os colegas foram nomeados. Por isso, estou como coração partido, porque vou para uma competição que exige muito trabalho técnico e prático e em Angola eu não recebi jogos. A vida é assim. Vamos continuar a trabalhar e a nos preparar, de uma ou de outra forma, para os desafios do presente e do futuro. Volto a repetir. Em Angola não recebi jogos e não sou nomeado desde a primeira jornada do Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão. Não consigo entender as razões. Espero  que quando tiverem uma oportunidade dessas, não venha a acontecer com outros  colegas jovens. Que o Conselho Central apoie mais os árbitros, de forma geral, e oscolegas que estão a despontar agora, como é o caso do Evanildo Lopes, a quem devo aproveitar a oportunidade para deixar aqui os meus parabéns pelo facto de ter sido indicado para participar no curso final do CHAN e que ele possa receber os apoios  e  toda a ajuda possível que nunca recebi e consiga estar lá de uma forma mais relaxada para um desempenho aceitável e que eleve o nome do país.

 

Em função da sua experiência, para quem vai ao Mundial, qual seria a preparação ideal?

Desde que os árbitros receberam a indicação para o Mundial do Qatar, não sei se  Angola tem um especialista que acompanha os árbitros a nível do Mundo. Mas, se  pararmos para sentar e olharmos a nível dos árbitros dos outros países, mesmo no continente europeu, onde acompanhamos com regularidade os jogos da Liga dos Clubes  Campeões, a Liga Europa e outras provas, os árbitros indicados para o Mundial são os que faziam mais jogos. Quer dizer que tinham árbitros que apitavam semanalmente. O número de jogos depende da disponibilidade do árbitro ou do Conselho Central da Arbitragem, que nomeia. Nós já temos muitas dificuldades, em termos de preparação de árbitros. A justificação é simples. A nossa preparação para além de física é técnica e deve ser acompanhada de jogadores e de técnicos. Às vezes tenho que recorrer ao  Benfica do Lubango, ao Ferroviário da Huíla ou ao Clube Desportivo da Huíla, paratreinar com eles.

 

 Porquê treinar com esses clubes?

Na qualidade de árbitro precisamos realizar jogos. Os problemas acontecem nos jogos. Uma coisa é eu treinar e simular que a falta aconteceu, outra coisa é estar no jogo e a falta ou o fora de jogo acontecer e eu não decidir.

 

Tem na memória o último jogo que realizou este ano?

O último jogo que realizei este ano foi a final da Taça Nelson Mandela, sob a égide da Confederação Africana de Futebol, decorrida em Junho. Depois disso, entrámos em férias e só voltei a realizar jogos em Outubro, graças à CAF que me nomeou. Se a CAF não me nomeasse nesses dois jogos, iria para o Mundial sem nenhuma partida oficial.

"Senti-me abandonado por quem de direito”

Na época em que cantou foi comovente ver você interromper a entrevista e chorar. Está muito magoado?

Estou com o coração partido. Acho que as coisas não deviam acontecer assim.

Dificilmente reclamo ou desrespeito seja lá quem for. A minha educação é de berço. Por isso trato e respeito todos, independentemente da sua condição. Por Angola, nunca nego ir onde sou chamado. Senti-me abandonado por quem de direito.

 

Quantos exames realizou em função das exigências da FIFA?

Efectuei mais de 100 exames, desde sangue, ecografia dos tendões, eletrocardiograma, exames dos pulmões e do tórax. São vários exames. É um check-up completo, como se fosse de um futebolista.  É uma bateria de vários exames e estou satisfeito porque osresultados foram favoráveis ao exercício da arbitragem.

 

 Apesar das dificuldades, o que os angolanos podem esperar de si neste Campeonato Mundial de Futebol?

O mesmo de sempre. Sejam pacientes. Vou para uma competição onde vou encontrar os  melhores árbitros do mundo. Eu não sou o melhor, mas acredito no trio de que faço parte. Estou com um árbitro com quem já trabalho há 10 anos e um assistente com quem trabalho há 8 anos. Acredito que nos jogos onde eu for indicado para assistente de linha ou vídeo-árbitro, vou procurar realizar um bom trabalho e tentar melhorar as minhas  marcas que consegui no Mundial da Rússia em 2018 e elevar cada vez mais o nome de Angola.

 

Sai da Huíla, onde foram formados e despontaram vários árbitros de categoria nacional e internacional. Tem algumas referências a citar?

Tenho, sim, algumas referências. E me inspirei em várias delas. Não posso esquecer de falar de Manuel Maria, Elísio Lobo, José de Sousa e Romualdo Baltazar, este último com o qual comecei, praticamente, a carreira. Só tenho a agradecer a todos. Tenho outras referências, figuras que estão a liderar, actualmente, a arbitragem, como o Luís Chaua. Acho que a Huíla ainda está bem servida em termos de arbitragem nacional e internacionalmente.

  

Qual é a avaliação que faz da homenagem e cumprimentos de despedida feitos pelo Governo da Huíla, através do Gabinete Provincial da Juventude e Desportos?

É uma excelente coisa para a minha vida e carreira. É uma homenagem que me deixou lágrimas nos olhos e fica marcada para sempre na minha memória. São coisas pequenas que marcam a diferença nas nossas vidas. Eu sei que o senhor governador provincial daHuíla, Nuno Mahapi Dala, não pôde estar presente porque esteve noutras actividadespessoais, mas esteve bem representado. Espero que o exemplo aconteça com outros  colegas e desportistas, no geral, e a nível da província, por ser o reconhecimento dos feitos e do esforço dos outros. É também sinónimo de amor ao próximo. O nível de responsabilidade aumentou do meu lado. Não posso defraudar a minha província e o país. Tenho que ir e realizar um bom trabalho, coisa que sempre fiz e procuro sempre fazer. É uma homenagem de tirar o chapéu.

 

Está satisfeito com as performances da arbitragem angolana?

Acredito que ser árbitro é algo muito difícil. Isso nos deixa com um nível de responsabilidade ainda maior. Deve-se dar mais alguma atenção à arbitragem a nível de todas as modalidades, porque o desporto é muito competitivo. Por isso é que as nossas selecções, às vezes não chegam mais longe nos Campeonatos Africanos das Nações e  nos Mundiais. Os sucessos e insucessos também têm a ver com os árbitros. Ao olharmos para os resultados em termos de representatividade, o nome do país é que fica na manchete, "pior” ainda no Mundial de Futebol Sénior Masculino.

 

 Acha que o árbitro angolano é privilegiado?

Existe o Decreto Presidencial 33/96, de 8 de Novembro, que fala sobre o desporto de  alta competição. O Decreto espelha em frase resumida que toda Selecção que se apura para uma competição é premiada até à final. É preciso que o Decreto seja extensivo também para os árbitros. Eu não sou o único que vai em competições. Existem árbitros de futebol, futebol salão, voleibol, andebol, xadrez e outros que estão sempre presentes  em provas nacionais e internacionais. Quero aqui deixar claro que as dificuldades não estão nas questões financeiras, mas sim na igualdade de circunstâncias. Gostaríamosque as instâncias superiores pudessem rever o Decreto para benefício de todos. Queroaqui exemplificar que o número de árbitros é sempre ínfimo. São situações que podemser resolvidas. Acredito que é pacífico, que algum dia possa mudar e, no futuro, sermos olhados com mais prestígio.

 

Po viajar constantemente, qual é o exemplo positivo que se pode reter de outros países?

Outros países já estão a contratar instrutores, técnicos físicos e coordenadores de arbitragem para gerirem a área. Quer dizer que eles estão preocupados com a arbitragem. São técnicos que estão a sair da Europa para a Ásia e muito mais porque  olham para a arbitragem como algo sério.

 

Acredita na qualidade dos árbitros nacionais?

Temos árbitros nacionais com muita qualidade. Também temos bons instrutores e dirigentes a nível da Cosafa, e não só. Acredito que é possível começarmos a olhar maispara este lado, que é mais criticado do que bem falado. A gente também comete erros equanto menos apoios tivermos na preparação, menos vamos conseguir nos enquadrar.

 

De onde colhe as experiências positivas?

Infelizmente tive que recorrer a um especialista de atletismo para poder treinar para o  Mundial, porque não fui bem acompanhado pelos preparadores físicos. Essa é a verdade. São essas situações que devem e podem ser evitadas.

 

Sente-se acarinhado no país?

Sou acarinhado pelo público, por alguns colegas e alguns dirigentes. Mas é preciso fazer   mais. Eu quando falo e estou a apresentar essa questão aqui, é por causa do aspecto técnico e físico. Não é por outra causa. Se tivermos melhor acompanhamento, acredito que os resultados serão melhores porque temos muito boa qualidade por trás do Jerson. Temos muito bons árbitros assistentes e principais e que Angola tem até para oferecer  para outros países a nível da região. Infelizmente, quando o apoio não é bem dado por quem está indicado a fazê-lo, fica totalmente complicado aos mais novos seguirem acarreira de arbitragem. A arbitragem é algo que é feito durante 10, 20 ou mais anos e pode ajudar muitos jovens que estão a ser "desviados” para outras actividades.

 

Há quando tempo está na arbitragem?

Comecei a carreira em 2004. Estou há aproximadamente 20 anos a fazer arbitragem. Já é uma trajectória.

 

Tem boas recordações na arbitragem?

Durante a minha carreira já estive presente em quase todas as competições do futebol Mundial. Isto é histórico. Se formos ao livro da FIFA, o meu nome está lá como participante de uma final do Mundial de Clubes, em 2016. É histórico e é possível que  haja mais árbitros angolanos a fazerem história e a elevarem cada vez mais o nome deAngola. Quando estamos fora do país, quase ninguém chama por nós pelo nome. Somos chamados por Angola. Já participei em finais da Cosafa, de mundiais de clubes e muito mais. São muitas competições. E o nome que ficou é do país. É preciso valorizar mais todos aqueles que  dão o seu melhor pelo país. É para dizer que se eu consegui chegar lá, outros colegas angolanos já passaram por lá, como é o caso do Inácio Cândido, que já participou em várias competições, à semelhança do Hélder Martins. Mas precisamos de mais atenção. 

 

Acha que a arbitragem angolana está a evoluir?

Sem dúvidas. Estamos a entrar numa fase em que daqui a mais cinco ou sete anos só trios é que vão ter a possibilidade de apitar e se nós não pensarmos num trio angolano, futuramente não teremos presenças nessas competições. É meio complicado. Temos que começar a levar as coisas mais a sério.

 

Fale-nos dos seus dias finais de preparação para o Mundial?

Os 10 dias que antecedem à  prova são os mais difíceis, porque vamos fazer análises, exames e testes físicos. Tudo isso é que vai determinar a nossa indicação para os jogos. Tenho pouco menos de 20 dias de preparação e agradeço a todos que estiveram comigo  durante este período, desde o Governo da Huíla, o Gabinete Provincial da Educação e os gestores dos campos da Nossa Senhora do Monte, Ferroviário da Huíla, Benfica e toda a minha família, esposa e filhas, de quem tive todo o apoio, bem como o povo angolano  que sempre me deu forças para continuar a trabalhar. O meu muito obrigado. Devo  reconhecer que com esse apoio do público não tenho como não realizar um bom  trabalho. Estou focado no trabalho que vou exercer.

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