Sociedade

População sensibilizada para preservar as espécies e “eternizar” as tartarugas

António Canepa

Nos últimos anos, várias associações ou Organizações Não Governamentais têm tomado iniciativas no sentido de salvar as tartarugas, espécies em extinção em muitas partes do mundo, por causa da acção do homem sobre o seu habitat natural e da sua comercialização, devido ao seu valor na indústria da comida exótica

23/05/2022  Última atualização 08H05
© Fotografia por: DR

À primeira vista parecem ser iguais. Não é fácil distinguir a tartaruga do cágado. Há quem diga que um é pequeno e o outro maior, mas o certo é que, de acordo com estudiosos, apesar de serem da mesma espécie, os dois animais têm diferenças.

Ambos são répteis, mas a tartaruga vive somente na água, enquanto o cágado vive entre a água doce e a terra.

Estas e outras características marcam a diferença entre um e outro. Mas, apesar destas e outras características apontadas, a confusão vai continuar para o cidadão comum, por as duas espécies serem muito parecidas.

Há quem vai continuar a ver o cágado e chamá-lo de tartaruga e vice-versa.

Todo este discernimento depende muito dos estudiosos que separam pormenorizadamente cada espécie. 

Por esta diferença, cada uma destas espécies tem o seu dia, que se comemora em cada ano, com vista a preservar a sua existência.

Hoje é o Dia da Tartaruga e o próximo dia 16 de Junho será o do cágado.

O Dia Mundial da tartaruga comemora-se a 23 de Maio, desde o ano de 2.000, com o principal objectivo de chamar atenção para o peri-go de extinção que corre, bem como conscientizar as pessoas sobre os cuidados a ter para o prolongamento da sua existência.

Foi precisamente num dia como hoje que se comemorou, pela primeira vez, a data e, de lá para cá, tornou-se mundial é assinalada em todos os países.

As tartarugas são espécies em extinção em muitas partes do mundo, por causa da acção do homem sobre o seu habitat natural e da sua co-mercialização, devido ao seu valor na indústria da comida exótica.

Por outro lado, mito ou não, em muitas comunidades, o homem acredita na acção medicinal do ovo da tartaruga ou da sua carne, razão pela qual tornou-se um dos animais mais procurados.

De referir que, nos últimos anos, várias associações ou Organizações Não Governamentais têm tomado iniciativas no sentido de salvar as tartarugas. 

No país, são desenvolvidas várias actividades, como palestras, seminários e encontros de sensibilização das populações, sobretudo aquelas que residem nas comunidades pesqueiras e ribeirinhas onde abundam tartarugas, sobre a sua importância para a natureza e para outras espécies e os cuidados a ter para a sua conservação e preservação.

No município de Cacuaco, foram denunciados, em tempo, alguns casos de transgressões contra estas espécies, nas zonas da Boca do Rio, Barra do Bengo, Terra Branca e Kilunda, na comuna da Funda.

Em declarações ao Jornal de Angola, o director municipal do Ambiente, Francisco Lima Victoriano, disse que as autoridades locais continuam preocupadas com a situação destes animais e, em parceria com a DW, levam a cabo, hoje, mais, uma vez, um acto de sensibilização das populações na zona da Kilunda, sobre a importância das tartarugas na natureza, assim como dar a conhecer às populações que residem naquela zona as medidas a serem tomadas contra os cidadãos que forem apanhados a aniquilar esta e/ou outras espécies marinhas.

Acrescentou que, além das tartarugas, estão, também, ameaçados os mangais na Boca do Rio, que constituem um dos pontos fundamentais para a reprodução e criação destas espécies. 

Naquela parcela, estão em curso a construção descontrolada de habitações e a proliferação de estaleiros de barcos de pesca, acabando com os mangais que servem de pontos seguros para a criação e reprodução das tartarugas.

Tanto a Boca do Rio como a Terra Branca e a Kilunda são zonas de muita actividade de pesca, pois a maioria da população dedica-se a esta actividade e ao manuseamento das terras ribeirinhas, dificultando a fixação destes animais.

Há alguns anos, foram encontradas três tartarugas, uma morta e duas vivas, prontas a serem comercializadas por populares, que, na ânsia de obter lucros, capturam e abatem indiscriminadamente os animais e espécies marinhas que encontram na região.

"Angola, como um país rico em biodiversidade, tem procurado tomar sérias medidas contra qualquer cidadão que for apanhado a realizar acto de transgressão contra a natureza e suas espécies”, lembrou o director, acrescentando que tem havido muita procura de  ovos de tartarugas, sobretudo para fins acima descritos e da carne que alimenta a indústria da comida exótica. 

Francisco Lima Victoriano referiu que muitas espécies marinhas existem para a sobrevivência de outras e a sua extinção acaba por afectar o ser humano. 

"O homem é o maior destruidor da natureza. Vamos sentar com eles para fazer uma reflexão profunda acerca do comportamento dos pescadores que têm sido acusados de serem os principais causadores da destruição e avisar os outros para quando encontrarem nas zonas ribeirinhas espécies marinhas, alertarem as autoridades, para poderem dar o devido tratamento", sublinhou.

Deu a conhecer que este ano, foi escolhido a Kilunda por ser um ponto onde se faz muita pesca e muita actividade comercial, pois, além das três tartarugas que foram apanhadas a serem comercializadas, suspeita-se que haja muitas colónias desta espécie em Cacuaco. Garantiu que as autoridades vão continuar a trabalhar directamente com as comissões de moradores para identificar mais animais desta espécie e tomar as devidas medidas para a sua protecção.

Segundo o director municipal do Ambiente, continua a haver suspeitas de que há mais tartarugas na zona. "Não se sabe ao certo se era uma migração ou habitat normal destas espécies, mas a direcção do Ambiente tem estado a trabalhar com as comissões de moradores no sentido de alertarem as autoridades caso surjam mais tartarugas, para se dar o devido tratamento”.

Para a actividade de hoje, além de associações habituais, espera-se a presença de um representante do Gabinete Provincial do Am-biente e Gestão dos Resíduos Sólidos. 

Por falta de fiscais, Francisco Vitoriano esclareceu que todos os casos de transgressão ambiental que se verificam são direccionados à direcção da ANIESA, que é a entidade oficial que determina as medidas contra o transgressor, por ser esta que tem os fiscais.

"Sempre que se verificar qualquer transgressão ambiental, a nossa direcção activa a ANIESA, que trata da responsabilização do infractor”, explicou.


Namibe controla quatro bases para a desova


O projecto Kitabanga controla quatro locais ao longo da costa marítima da província do Namibe considerados como bases de desova para as tartarugas de couro, verde e oliva.

De acordo com o professor de Biologia Animal, Edson Mangueira, coordenador do referido projecto de conservação de tartarugas pela Universidade do Namibe, as bases estão localizadas nas praias do Bentiaba, Farol de Santa Marta, Baía das Pipas e Flamingos.

O responsável refere que o trabalho de sensibilização das comunidades piscatórias tem dado resultados positivos, mas ainda se registam várias situações de abate de tartarugas, quer para se alimentar da sua carne, quer para uso comercial da carapaça. O mesmo se passa em relação aos ovos, que, por vezes, são consumidos pelos habitantes destas localidades.

"Estamos alegres pelo que temos feito, pois já são mais de 4.000 neonatos encaminhados para o mar, mas estamos preocupados devido à predação dos ninhos ao longo das praias. Mas continuamos a sensibilizar e a educar as comunidades”, disse.

Edson Mangueira informou que muito recentemente, na zona do Tômbwa, próximo da praia dos Flamingos, foram encontradas tartarugas mortas por pescadores, referindo que tem sido útil a intervenção da Polícia e dos órgãos de fiscalização da administração local para diminuir tais práticas.

As acções para a protecção e conservação das tartarugas marinhas levadas a cabo pelo projecto Kitabanga no Namibe tiveram início em 2011, na comuna do Bentiaba, ao longo de seis quilómetros da costa. Em 2020, o projecto chegou a Baía das Pipas, numa extensão de sete quilómetros, depois à praia dos Flamingos, com 7,5 quilómetros, e Farol de Santa Marta, com 1,5 quilómetro.

De referir que o projecto Kitabanga é uma iniciativa da docente Ana Lúcia, do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, iniciado na década de 80 e retomado em 2003. Actualmente monitora cerca de 105 quilómetros da costa marítima angolana, do Norte ao Sul do país, excepto na província de Cabinda. O mesmo conta com o apoio de instituições como BP, Angola LNG, Holístico, Carp Dien, Flamingos Lodge, Oceanus, Pescuio, Universidade do Namibe, Fundação Kissama, Ministério da Cultura, Turis-mo e Ambiente e outros parceiros individuais.

Cientificamente são co-nhecidas cinco espécies de tartarugas marinhas ao longo da costa de Angola, mas predominam três que fazem a desova nas praias do país, nomeadamente a tartaruga de couro (ou tartaruga gigante, conhecida como Kitabanga), a tartaruga verde e a tartaruga oliva. O professor Edson Mangueira informou que o período de desova nas praias angolanas acontece entre os meses de Setembro e Abril, mas realça que nesta época em que começa o frio, a nível da costa do Namibe, é comum haver muitas desovas da tartaruga verde, estando já algumas ninhadas sob controlo. Entretanto, refere, a tartaruga oliva é a que mais desova nesta província.

Vladimir Prata | Moçâmedes

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