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População alimenta-se de frutos silvestres

“Nos alimentamos de raízes e frutas silvestres, para não morrermos de fome”, justifica Silva Catete, um dos sobreviventes que ainda resiste à fome que assola a localidade de Ndjinassuana, no município dos Bundas, província do Moxico.

02/11/2019  Última atualização 14H12
José Rufino | Edições Novembro | Luena © Fotografia por: População clama por apoio urgente

Partimos sem saber onde iríamos, mas o apelo chamou-nos a atenção: cada integrante deve levar colchão e um lençol pelo menos e o resto seria por conta do Gabinete Provincial da Acção Social.

Às 16h00, começava a viagem. O Gabinete Provincial da Acção Social preparou 40 toneladas de bens diversos para a população dos Bundas. Durante a viagem, as viaturas apresentaram problemas mecânicos. Devido a essa situação, chegámos à vila do Lumbala Nguimbo, sede do município dos Bundas, quando era 1h00 da madrugada.
A comitiva teve apenas três horas de descanso. A urgência da missão não nos permitiu recuperar do cansaço da viagem de oito horas. O cansaço era visível no rosto de cada um de nós, mas pela frente tínhamos mais de 300 quilómetros a percorrer, para chegar às localidades afectadas pela seca. Às 5h00, retomámos a viagem. O estado de degradação da estrada exigia mais prudência aos motoristas no sentido de se evitar acidentes.
Os obstáculos, durante o percurso, eram constantes. Houve situações em que tivemos de abrir novos caminhos para nos livrarmos dos terrenos arenosos.
Quando eram 11h45, chegamos à localidade de Cangambela, uma “terra considerada de ninguém”.
Logo à entrada, deparamo-nos com uma criança, que aparentava ter oito anos de idade. Assustada com a longa caravana de viaturas, meteu-se em fuga. A imagem daquele menino, descalço e sem camisa, revelava a real condição de vida da população de Cangambela.
Domingos Teca, 40 anos, é a única pessoa na comunidade que pronuncia algumas palavras em português. “Aqui fome é muito. Pessoa comer macolo e tongo”, revela-nos, referindo-se às frutas silvestres que crescem nas chanas e florestas.
A comunidade está desprovida de tudo. A população não tem comida, não há serviços sociais básicos. Desde a Independência Nacional que a localidade não tem um hospital. As doenças são tratadas com folhas e raízes, uma situação que tem causado a morte de muitas pessoas. De escola nem se fala.

Seca nos Bundas
Devido à seca que assola o município dos Bundas, a população alimenta-se de frutos silvestres. Sem condições para se instalarem, a população passou a ser nómada, na medida em que a busca por frutos silvestres obriga a longas caminhadas.
Em todas as comunidades onde parávamos, a população clamava por alimentação, roupa, sabão, sal, etc. Não era preciso falarem, o sofrimento estava à vista de todos.
Crianças desnutridas, que em condições normais deviam merecer uma alimentação saudável, são o rosto visível de uma penúria alimentar que começa a ganhar contornos catastróficos.
As comunidades de Chicote, Ndjinassuana, Sandongo, Muene Kumbi e Tchinengo possuem ao todo 2.221 habitantes. Para se ter uma ideia, estas localidades distam mais de 600 quilómetros da cidade do Luena, 322 da sede dos Bundas, 13 do Rivungo, município do Cuando Cubango, e a 22 quilómetros da fronteira com a Zâmbia.
A ideia de dividir Moxico em três províncias justifica-se, para que as administrações municipais e comunais tenham maior controlo das suas áreas de jurisdição. Apesar desta situação dramática, há homens que têm mais de uma mulher. Este é o caso de Sapalo Mutangu, um adolescente de Sandongo, que aos 16 anos já tem três mulheres e oito filhos.

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