Opinião

Poligamices

Apusindo Nhari

Jornalista

“Tende piedade de todos os homens que cometem os crimes mais hediondos em nome de uma tradição e de uma cultura.” (*)

16/01/2022  Última atualização 08H20
Despertados pela escrita docemente atrevida e livre de Paulina Chiziane, a moçambicana que arrebatou o "Camões 2021”, demos por nós cogitando sobre as várias facetas da transição entre estádios de desenvolvimento do corpussocial e económico das sociedades, o enorme impacto que isso tem sobre a sua cultura e o reflexo no comportamento dos seus integrantes.

A cultura tem uma elasticidade superior a de outras dimensões da evolução social, pois é a cola que mantém unida uma determinada mole de gente, que, mesmo separada por transformações que constantemente a afectam (como as resultantes das alterações nos modos de produção e a consequente disparidade na distribuição da riqueza pela comunidade), continua a sentir-se parte do mesmo grupo.

Assim, é graças a ela que se respeitam as tradições, ainda que cada um venha vestido de maneira diferente, muito à medida do seu bolso e do aprendizado que foi adquirindo na vida (em andanças por terras mais ou menos distantes) e que, para seu conforto, foi adoptando. Faz-se o pedido– cerimónia renascida de outros tempos – de fato-e-gravata, em vez de panos tradicionais. Oferece-se cerveja e vinho, em vez de maruvo ou kaporroto.

As transformações que a evolução social vem impondo às estruturas familiares, levam – como Chiziane tão bem descreve em Niketche– a situações de transição, que criam os efeitos mais diversos nas relações entre as pessoas envolvidas.

A adopção de hábitos tradicionais numa estrutura social completamente diferente, como é hoje a que existe nos nossos meios urbanos cria, naturalmente, tensões, particularmente quando há uma alteração fundamental nas "razões” que levam à adopção de determinada prática, nomeadamente a poligamia (nas sociedades rurais e em tempos em que havia um elevado número de viúvas ou mulheres solteiras devido aos constantes conflitos que conduziram a razias na população masculina) que é notoriamente discriminatória e desajustada, pois privilegia o género masculino, num momento em que a mulher já é (deveria ser) muito mais que a simples reprodutora, cuidadora dos filhos e do lar, e mão-de-obra fundamental para a lavra.

É interessante notar que, em países como Moçambique e Angola, nem a cristianização e a assimilação – armas culturais da colonização – conseguiram alterar significativamente essa prática, sendo comum todos os membros da família [ligados pelo mesmo pai e marido, ainda que em congregações diferentes, por simples comodidade do progenitor que procura diversificar os "serviços” criando uma rede de lares pelos vários bairros da(s) cidade(s) e, nalguns casos, países] rezarem ao mesmo Deus, o Deus que impõe uma família monogâmica…

A questão da poligamia, que é o exemplo aqui escolhido, mas que se estende a outras tensões e desajustes culturais que resultam do confronto entre o tradicional e o que "faz sentido” na actualidade, deve levar-nos a pensar o quão necessário é reflectir sobre a cultura, como um veículo essencial para a coesão de uma sociedade, mas que deve ser entendida como algo em constante transformação.E essa reflexão oferece-nos a oportunidade de questionar toda a base em que ela assenta.

Muitas vezes, acabamos por tratar a cultura quase como se de folclore se tratasse – sempre em benefício de alguns – e com um efeito muito pernicioso no comportamento de muitos cidadãos, ora porque ficam naturalmente confusos sobre o que é correcto ou não fazer, ou porque, simplesmente, se aproveitam oportunisticamente das zonas cinzentas que tal situação origina.

O casamento, o óbito, os direitos das esposas e viúvas, os sobas e reis, a divisão administrativa, os direitos de propriedade e o natural conflito que se vem criando entre poderes que nem sempre são coerentes, assim como a educação, a história, a religião: tudo deveria ser analisado numa base científica, procurando-se soluções inovadoras. Sem nos limitarmos à cópia de novos modelos importados de forma acéfala (como os que deixamos permanecer desde que as autoridades coloniais as impuseram, por não haver capacidade de as analisar criticamente). Ou, então, porque seja moda, vinda dos países que, pela força da sua propaganda e influência impõem a "globalização” da sua cultura, fazendo dela um factor de poderoso domínio sobre os outros, com vantagens de toda a ordem, sempre com reflexos económicos… Ou, pior ainda, implementando soluções que parecem reverenciar a tradição mas, na realidade, apenas a parodiam, criando simulacros de autoridade que confundem tudo e todos.

"Mas as tradições nascem e morrem, como a vida” – escreve Chiziane. A cultura é algo demasiado sério para ser tratada de forma superficial, tutelada por organismos estatais sem recursos e sem capacidade, ou simplesmente "não-tratada” (deixando-nos ir a reboque), como frequentemente acontece.
 
 (*) Reflexão de Rami, heroína de "Niketche: uma história de poligamia”,  por Paulina Chiziane

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