Cultura

Poeta “despadronizado” e lapidador de palavras

Analtino Santos

Jornalista

Em Março conversamos com Igor, depois de conhecermos a campanha do projecto “Sentires”, que visava angariar recursos para a sua terceira obra, com esse título.

24/07/2022  Última atualização 08H50
Igor de Jesus © Fotografia por: DR

A fase da pré-venda terminou a 9 de Maio e dois dias depois começou a fase da impressão e reprodução dos livros. A sessão de assinatura de autógrafos aconteceu no Palácio de Ferro, no dia 16 de Julho. A campanha já terminou mas ainda é possível comprar alguns exemplares de "Sentires”, obra com 33 poemas.

Em entrevista ao Jornal de Angola, dias antes do lançamento da obra, Igor de Jesus começou por falar do que representava a literatura para si. "Para mim, a literatura é apenas uma das formas de manifestação e partilha da minha forma de ler e assimilar o mundo e pode ser entendida como uma das suas múltiplas dimensões”, afirmou.

Quanto à aposta na poesia, justificou:  "penso que é menos seca, mais mágica e tem uma densidade maior do que outros textos do ponto de vista de dimensões, sobretudo cognitivas”. Considera que "o ser humano não é apenas uma coisa mas sim uma multiplicidade  e a poesia tem estas várias dimensões”. "Reconheço que tanto eu como a minha poesia somos fundamentalmente um produto de Angola, onde fiz toda a formação pessoal e profissional”, sublinha.

O autor de "Sentires” recorda como a poesia entrou para a sua vida: "Comecei a experimentar em 2003, assistindo, por influência das minhas irmãs, a novela brasileira "O Cravo e a Rosa”, onde havia um personagem que fazia o papel de professor, que declamava poemas e isto encantou-me. Eu sentia a forma das palavras e pensava: ‘quero isto um dia, dizer algo e as pessoas visualizarem o que eu falo’. Desta forma escrevi os primeiros poemas e não a declamar, porque penso que não tenho jeito para isto. O professor de "O Cravo e a Rosa” também não declamava os seus textos. O período das novelas foi muito proveitoso”.

Declara que não quer falar as palavras conforme elas são. "Quero que as palavras que digo tenham formas, porque tenho pensamentos, ideias, intenções. Quero que elas sejam palpáveis, aceites e compreensivas”, sublinha.

O nosso entrevistado revela que gosta de lapidar as palavras em questões sociais mas não na óptica que se chama revolucionária. "É mais numa perspectiva de construção social, porque acho que, como membro da sociedade, tenho uma responsabilidade de produzir e colocar o meu tijolinho neste processo de construção da sociedade. Aliás, a sociedade só o é por causa da quantidade de tijolos que cada um vai colocar,  claro não precisam ser todos eles perfeitos e uniformes. As diferenças de opinião e o ser de cada um criam a diversidade que dá também a ideia de democracia e democratização e são essas diferenças que fazem o universo e constituem a unidade”, enfatiza.

 

Poeta "despadronizado”

 Quanto às referências na poesia, Igor demarca-se do que é comum e mostra ser um poeta despadronizado, sublinhando que dispensa o discurso de pessoa muito culta que fala dos grandes nomes da poesia nacional e da língua portuguesa. "Em 2003 estava com 15 anos de idade e a fazer o ensino médio e nós não consumíamos este tipo de literatura nas escolas e em casa. Fomos despertados por aquilo que consumimos e comigo, na altura, eram as novelas e as vivências, porque comecei a estudar distante de casa muito cedo. Frequentei a zona do Roque Santeiro, distante da minha zona, no Cazenga, e depois estudei no 1º de Maio. Então era o candongueiro, autocarros e boleias a minha fonte de inspiração e estas situações nos proporcionam encontros com pessoas que vão narrando histórias. Esta relação directa com uma realidade ou ambiente que não se tem na sala de aula dá-nos esta paixão”, referiu.

Igor de Jesus destaca ainda as influências do meio familiar e da vizinhança. "Cresci com uma forte presença feminina, pois tenho muitas irmãs que escutavam muita música romântica brasileira. Com os meus vizinhos, um grupo de cinco amigos, tínhamos diferentes estilos musicais, alguns gostavam de Rap. Mais tarde passei a ouvir Coldplay, Idol e outros do Rock. Adoro Semba e Kizomba, artistas como Paulo Flores, Matias Damásio e gosto de ouvir este a dizer ‘Eu amo Angola’... parece ser diferente e eles são alguns dos poetas que aprecio”.

Justifica a referência aos dois músicos, por, no seu entender, serem "autênticos poetas”. "Mas poderia falar de um terceiro, que é um kudurista, o Sebem”, diz, acrescentando que no futuro as pessoas vão entender que frases como "a felicidade todos nós queremos, a felicidade todos nós sentimos”, de uma das músicas mais conhecidas daquele músico, têm força. "Quando chegar o momento certo perceberemos que têm um nível de profundidade, de verdade e interioridade pela forma como devemos nos entender e construirmos a sociedade. E não vamos olhar apenas como referência de um grupinho, deve ser colectiva porque a felicidade é intrínseca à condição humana, porque todos nós queremos aquilo. Por isso digo que a poesia não precisa ser sofisticada, só precisa ser, porque a poesia está em toda a parte, dependendo muito da forma”.

Diz que na área da poesia há espaço para aqueles que são mais e menos sofisticados e outros intermédios. Igor de Jesus defende que deve existir produção para os diferentes grupos da sociedade. "Dou o exemplo da Bíblia, que é o livro mais consumido do mundo, que tem vários tipos de linguagens e é normal que haja o mesmo. É normal que existam textos com um labor refinado e outros mais simples porque cada um vai atingir um público, o seu nicho e ninguém invalida a importância do outro”.

 

Poesia é discriminada

Igor de Jesus acha que a poesia "é muito discriminada, porque, às vezes, é entendida como sendo o primeiro passo para quem quer se tornar escritor, porque parece considerarem apenas quem faz romance”. "Falo por experiência própria, porque quando eu dizia às pessoas que estou a angariar fundos para publicar um livro e as vendas reverterem para o tratamento e que o livro é de poesia, as pessoas ficavam meio surpresas”.

Igor de Jesus diz estar muito grato à família e aos amigos que foram importantes no processo de sua afirmação no mundo literário. "São um dos principais elementos que me forjam. Eles estão constantemente a desafiar-me”, sublinha, acrescentando "sempre acreditaram, mesmo quando pensava em desistir. Eles têm uma forte e importante presença na minha vida”, enfatiza.

Destaca, em especial, o papel da esposa, filhos, irmãos, pai e mãe. "A minha mãe ensinou-me a ler as pessoas e a amá-las”, afirma, sem deixar de lado os vizinhos.

 

Partilha de sentimentos

Para Igor de Jesus, o dia 16 de Julho foi de partilha de sentimentos reflectidos na obra "Sentires”. O autor fez um balanço da campanha para a angariação de fundos e agradeceu a disponibilidade daqueles que apoiaram a iniciativa.

Depois da assinatura de autógrafos houve música, declamação e testemunhos de amigos e familiares. A esposa, Edeltrudes Francisco, assumiu ser a "dona do pedaço”, ao declamar um poema de sua autoria dedicado a quem considera estar casado com a poesia. O filho, Kilwanji Luis, soltou a voz com um texto do livro, assim como os amigos Joaquim Bumba, Ana Júlia Tavares,  Isis Hembe, Miguel Manuel, Milton Martins e Alcides Sobrinho.

Nos momentos musicais, Alexandre Joel, com estilo Gospel, Tropa Betão, com Afrohouse e Lopes Tanda, com alguns clássicos nacionais que serviram de mestre-de-cerimónia na fase inicial. Clarice Bell segurou a parte final e conduziu os testemunhos, com realce para os vídeos de Maria Fernanda "Milanda”(escritora) e Glória da Silva(revisora das obras anteriores), a partir de Lisboa.

"Sentires”, o livro

Com 33 textos, a obra poética "Sentires” foi editada por Shafu Duchaque, enquanto a capa e todas as ilustrações são da autoria de Igor de Jesus. O texto "Reflexão” foi dos mais comentados e declamados no dia do lançamento. Encontramos ainda "Apenas eu”, "Ao teu ritmo”, "Gente da minha terra”, "Até quando lutarei”, "Pobreza”, "Ao tempo novo”, entre outros, numa viagem em versos que fecha com "Sou Grato”.

Os textos foram escritos entre 2006 e 2015, de acordo com a nota do editor. "A poesia de Igor é a afirmação sonegada dos valores em que acredita, vive e persegue. Os variados sujeitos líricos criados pelo autor nada mais são do que uma extensão de si, sua crença, filosofia, enfim, do seu modo de viver; mesmo quando o sujeito poemático  denuncia os males da sociedade”, acrescenta a nota.

Com 33 anos de idade, Igor de Jesus escreve textos literários desde 2003 e já publicou as obras "Alguns passos... Uma caminhada...”, de 2010 e "Viagens à Liberatura: poética da geração ensonada para o alvorecer”, de 2017, em parceria com os amigos Shafu Duchaque e Nazário Muhongo.

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