Reportagem

Poder público e apicultores coincidem no esforço para elevar produção de mel

As reportagens publicadas hoje medeiam o Dia Mundial da Abelha, assinalado ontem (20 de Maio), e ao Dia Mundial do Apicultor, que se co-memora amanhã (22), em datas instituídas pelas Nações Unidas em reconhecimento do crescente peso da acção polinizadora sobre a alimentação e a saúde.

21/05/2022  Última atualização 07H55
© Fotografia por: DR

Os números da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que, só em 2019 (dois anos depois de o Dia Mundial da Abelha ter sido instituído), as exportações globais de mel, o principal resultado da polinização, ascenderam a 1 964 milhões de dólares, a coroar um período de crescimento de 20 anos.

O consumo também au-mentou durante os últimos anos, sendo atribuído ao aumento geral nos padrões de vida e também a um interesse maior por produtos naturais e saudáveis.

Em Angola, a actividade polinizadora mobiliza programas institucionais e os agentes económicos, de tal forma, que, de acordo com dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desevolvimento (CNUCED), em 2019 operavam cerca de 100 mil apicultores no país, onde uma produção, nesse ano, situada em 90 toneladas, tende a ascender a 200 toneladas por ano.

A premência dessa ascensão num país como Angola, necessitado dos benefícios do processo de uma diversificação económica em que todos os recursos contam para mitigar os riscos da extrema dependência das receitas petrolíferas, não tem sido uma questão linear.

Sem beneficiar da sofisticação, do conhecimento e da tecnologia da economia dolarizada do petróleo, a produção de mel ocorre, no Cuando Cubango (uma das principais do ramo de actividade) nas condições de um farto subdesenvolvimento, como disseram gestores públicos e apicultores daquela província contactados para esta reportagem. 

José Buende, produtor de mel há mais de 20 anos nas florestas da localidade do Macueva, em Menongue, disse ao Jornal de Angola que a forma como os apicultores produzem o mel na província do Cuando Cubango, por falta de materiais adequados, coloca em risco a biodiversidade, porque, no momento da colheita do produto, para afugentar as abelhas das colmeias, usam fumaça, que mata milhares de insectos.

Segundo José Buende, com o apoio em colmeias modernas, fato macaco, máscaras faciais, botas e luvas apropriadas para actividade de apicultura, para além de aumentarem a produção de mel, obter-se-iam colheitas sem ter que se usar a fumaça ou um método rudimentar que pode colocar as abelhas em risco de extinção.

"Apesar de o Cuando Cubango ter um grande potencial para a produção do mel à escala, a falta de apoio aos apicultores tem contribuído negativamente para que esta actividade seja feita apenas de uma forma de subsistência”, lamentou.

Este apicultor produz 200 litros de mel por ano nas florestas da localidade do Macueva, chegando a vender cada litro a 500 kwanzas a revendedores dos mercados paralelos do bairro Paz e do Tchivonde.

No Moxico, outra província com actividade assinalável, o chefe do Departamento do Instituto de Desenvolvimento Florestal, Paulo Muacazanga, denunciou que as acções de alguns madeireiros, caçadores e produtores de carvão têm colocado em risco a vida destes insectos.

Os métodos utilizados por algumas empresas de exploração de madeira para afugentar as abelhas  provocaram a baixa da produção de mel na região, num passado recente, acrescentou, notando que as abelhas têm extrema importância na vida da população local, sobretudo pela produção de mel, que tem servido para o consumo e a geração de rendimentos familiares.

As zonas de maior potencial para a exploração do mel no Moxico, tais como Lu-cusse, Sacassanje, Dala, Luvuei, Cassamba, Cangumbe, Lutembo, Ninda, Muangai, Cangamba e Tempúe, estão a ser invadidas pelas empresas de madeiras, que na utilização de métodos inadequados colocam em risco a vida de milhares de pessoas que têm o mel como a única fonte de sustento.

O director do Instituto de Desenvolvimento Florestal lembrou que as abelhas habitam zonas em que a fauna e flora são saudáveis e sem perturbações, pelo que os serviços que dirige vão continuar a vigiar as florestas, para que disrupções no sistema de polinização não afectem a vida das populações.

Opção para a diversificação

Apesar da adversidade, a CNUCED declarou, em 2020, que, com os seus 100 mil apicultores, Angola pode facilmente aumentar a produção de mel, que identifica como uma das opções com elevada probalidade para ajudar na diversificação da economia.

Além de José Buende, Ramiro Canjongo, outro apicultor nas matas da localidade do Mupembei, dista a cerca de 50 quilómetros da cidade de Menongue, disse que produz entre 150 a 200 litros de mel por ano, o que depende da florestação, que  atrai as abelhas.

Este ano, notou, os apicultores em Menongue vão produzir pouco mel, porque muitas árvores não floresceram e as abelhas estão praticamente desaparecidas.

Questionado sobre o destino que os apicultores dão à cera depois da colheita do mel, José Buende disse que, "infelizmente, é deitada para as matas porque, há mais de 30 anos, não existem na província compradores para este tipo de produto”.    

Recordou que no período colonial existia uma empresa portuguesa em Menongue que adquiria a cera em grandes quantidades aos apicultores locais para a produção de vela, sabão e pomada de sapato.

O Jornal de Angola apurou que existem no município de Menongue cerca de 150 apicultores que produzem mais de dois mil litros de mel puro por ano, com maior realce para as comunas da Jamba Cueio e Caiundo

O chefe do Departamento do Instituto de Desenvolvimento Florestal do Moxico também considera que "as colmeias na província voltaram a viver um ambiente saudável, fruto do ciclo de operações de fiscalização do Instituto de Desenvolvimento Florestal lançado com a Polícia Nacional, permitindo um crescimento da flora benéfico para a apicultura”.

Segundo o director, hoje, regista-se um bom momento para a apicultura, pelo facto de os "malfeitores que devastavam as matas” terem sido afastados, graças ao trabalho de fiscalização de rotina contra práticas lesivas à biodiversidade.

Em 2021, disse, foram produzidos 654 bidões de 25 litros, que equivale a 17 658 quilos de mel bruto, enquanto só de Janeiro a Abril do ano em curso a produção situa-se em 286 bidões, perfazendo 7 722 quilos de mel bruto, disse o responsável.

O apicultor Xavier Justino, de 56 anos de idade, exerce a actividade há mais de 29 anos, considera que numa comparação com o passado, quando não imperava o livre arbítrio dos madeireiros, os indicadores de produção eram positivos.

 "O Estado deve travar as práticas nocivas dos madeireiros, porque, quando nós reclamamos, eles dizem que têm autorização do Governo e pagam impostos”, lamentou o apicultor, lembrando que, no passado, tinha mais de 300 colmeias nas localidades de Cangumbe e Sacassange, explorando mais de 700 litros de mel por ano, com o que "tinha todas as necessidades resolvidas”.

Hoje, em resultado da acção dos madeireiros, está a recomeçar: "acredito que, até o final do ano, vamos voltar ao normal, pelo facto das abelhas terem voltado ao seu habitat”

Moisés Chitengo, outro apicultor, afirmou que as suas colmeias não foram afectadas, porque estão implantadas fora do perímetro das empresas de exploração de madeira, mas, por solidariedade, pediu aos órgãos competentes para tomarem medidas para pôr limites ao corte.

  Aproveitamento limitado da cadeia de valor

O rendimento da apicultura é menos intensivo, estando fundamentalmente ligado á obtenção de mel, como afirma o produtor José Buende, do Cuando Cubango, que, questionado sobre o destino dado à cera depois da colheita do mel, disse que, "infelizmente, é deitada para as matas porque, há mais de 30 anos, não existem na província compradores para este tipo de produto”.    

Recordou que, no período colonial, existia uma empresa portuguesa em Menongue que adquiria a cera em grandes quantidades aos apicultores locais, para a produção de velas, sabão e pomada para sapatos.

No Moxico também é fundamentalmente utilizado como alimento, pelo que os produtores dizem ser um "valor nutritivo bastante elevado, devido à qualidade da matéria-prima, fruto da sua rica flora”.

Mas há localidades da região em que a cera é aproveitada para fabricação de velas para a iluminação, além de que, nas comunidades rurais, é utilizada para fabricação de bebidas fermentadas e xarope caseiro.

De acordo com o senso comum, o consumo do mel pode prevenir a cegueira precoce, infertilidade masculina e tornar a pele macia.

Os produtores acreditam que a ausência de uma base industrial mais ousada está na base do limitado aproveitamento da cadeia de valor do mel.      



Cristóvão Neto | Luanda
Carlos Paulino | Menongue 
e Lino Vieira | Luena

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