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Peter Mutharika define o seu futuro político

Aos 78 anos de idade, o actual Presidente do Malawi, Peter Mutharika, joga nas eleições de hoje todo o seu futuro político, que está a ser colocado em dúvida por dois membros do seu próprio Governo, um deles a ocupar o posto de vice-presidente, e pelo líder da oposição.

21/05/2019  Última atualização 09H55
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Actualmente marcado por uma corrupção cada vez mais presente e incisiva nos assuntos correntes do Estado, o Malawi, com cerca de 18 milhões de habitantes, é considerado dos países mais pobres da África Austral, sendo a Agricultura a quase exclusiva fonte de rendimento e de sobrevivência da população.
Por isso, estas eleições, onde também serão escolhidos os conselheiros regionais, apresentam-se particularmente decisivas para Peter Mutharika, que tenta um se-gundo mandato, face a sete outros candidatos na disputa dos votos dos 6,8 milhões de eleitores registados.
Eleito em 2014, Mutharika tem visto o seu mandato a ser marcado por sucessivos e graves casos de corrupção, muitos dos quais o envolvem de modo directo, o que contraria tudo o que ele disse logo após ter tomado posse.
No mais recente escândalo em que esteve ligado, o Presidente foi acusado de ter recebido um suborno de quase quatro milhões de dólares de empresas estrangeiras com as quais o Estado assinou contratos ligados ao sector da construção.
Durante esta campanha eleitoral, Mutharika tentou defender-se dizendo que é uma “pessoa honesta”, que não recebeu qualquer suborno e que, inclusive, entregou ao Estado 200 mil dólares que “uns amigos” lhe tinham dado, para financiar ilegalmente a sua candidatura às eleições de hoje.
Sábado, no último comício da sua campanha, Peter Mu-tharika orgulhou-se de ter colocado o Malawi “no caminho do progresso” e de ter lançado as bases para que o país “possa, nos próximos cinco anos, estar ao nível de Singapura ou da Malásia”, caso ele seja reeleito.
Nos cinco anos do seu primeiro e até agora único mandato, Peter Mutharika conse-
guiu promover ligeiras melhorias nas infra-estruturas do país, nomeadamente, a nível das estradas que ligam a capital ao interior do país.
Mas o seu principal problema está mesmo no de-sempenho económico, que é unanimemente considerado “desastroso”, sendo disse reflexo o facto da taxa de crescimento que, em 2014, era de 5,7 por cento ter baixado para os actuais 4 por cento, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Sete candidatos ao lugar de Presidente

Dos sete candidatos a Presidente da República, os principais rivais de Mu-tharika são o seu vice-presidente, Saulos Chilima, e o líder da oposição, Lazarus Chakwera, que fazem do combate à corrupção o principal argumento político.
Saulos Chilima, que manteve o posto de vice-Presidente, mesmo depois de ter abandonado as fileiras do Partido Popular Democrático, actualmente no poder, acusa Mutharika da prática de “corrupção” e “nepotismo”.
No seu último discurso de campanha, Chilima disse que “o Presidente da República assiste impávido e sereno à pilhagem dos recursos públicos que deveriam ser canalizados para melhorar a qualidade de vida das populações, tornando-se por isso cúmplice de tudo o que se está a passar”.
No mesmo sábado, Lazarus Chakwera, líder da principal formação da oposição, o Partido do Congresso do Malawi, de Hastings Kamuzu Banda, que esteve no poder entre 1964 e 1994, jogou também a carta da corrupção para tentar ganhar votos.
“Devemos colocar fim à corrupção e fazer respeitar o Estado de direito”, disse. Chakwera tem a seu lado os apoiantes da antiga Presidente Joyce Banda, que lhe têm feito acreditar na possibilidade de vencer estas eleições.
Na capital do país, Blantyre, a maioria da população parece continuar a apoiar Peter Mutharika, sentindo-se mais sensibilizada pelas referidas melhorias nas infra-estruturas e por ter acesso mais facilitado a bens de consumo, em comparação com quem vive no interior do país.
A favor do actual Presidente joga também o facto de a oposição estar dividida, o que poderá levar a uma decisiva dispersão dos votos de protesto contra a situação prevalecente no país. Segundo a mais recente sondagem divulgada em Blantyre, Peter Mutharika deverá ser reeleito por uma maioria simples, a rondar os 36 por cento (sensivelmente a mesma que foi obtida em 2014).
De sublinhar que pela primeira, nos processos eleitorais no país, todas as doações individuais para campanhas superiores a 1.398 dólares e as de empresas que ultrapassem os 2.700 dólares terão que ser devidamente registadas nas Finanças.

Joyce Banda: uma ausência presente

A ex-Presidente Joyce Banda, que em Março reafirmou que se não ia candidatar nas eleições de hoje, continua a ser uma pedra influente e um dos trunfos com que conta o líder da oposição a Peter Mutharika, Lazarus Chakwera.
Joyce Banda já há um ano que tinha decidido não ir a votos, mas só em Março é que o Partido Popular aprovou a sua retirada da corrida, canalizando o seu apoio para Lazarus Chakwera, líder do Partido do Congresso do Malawi.
Apesar de fisicamente ausente da corrida eleitoral, Joyce Banda foi durante toda esta campanha uma figura bem presente e frequentemente usada pelos críticos do Presidente Mutharika, que o acusam de ter destruído, em cinco anos, tudo aquilo que ela havia construído enquanto esteve no poder, entre 2012 e 2014.
Ainda em Fevereiro, o vice-Presidente da República, Saulos Chilima, que entrou em rota de colisão com Peter Mutharika, admitiu a possibilidade de liderar a criação de uma coligação eleitoral para concorrer às eleições, tendo Joyce Banda como candidata.
Porém, essa tentativa não teve sucesso e a própria Joyce Banda decidiu não só manter a recusa em candidatar-se como passou a apoiar o principal partido da oposição e o seu líder, Lazarus Chakwera.
Primeira mulher a desempenhar o cargo de Presidente do Malawi, Joyce Banda esteve no poder entre 2012 e 2014, altura em que foi obrigada a abandonar o país, depois de ver o seu nome envolvido num escândalo de corrupção, denominado “Cashgate”, tendo apenas regressado a casa em 2018.

 

 

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