Reportagem

Pescadores de Massangano com esperanças renovadas

Isidoro Natalício | Ndalatando

Jornalista

Três investimentos de realce, designadamente o Projecto de Apoio à Pesca Artesanal Continental (AFAP) e a construção dos centros de Formação e Processamento de Peixe, e de Larvicultura, caracterizam a intervenção do Governo na melhoria da actividade pesqueira em Massangano, no Cuanza – Norte.

31/12/2020  Última atualização 13H20
Nilo Mateus| Edições Novembro
Colela Cuangua, 66 anos, sai de casa de segunda a sábado, no período entre as quatro e seis horas da manhã, para pescar cacussos e bagres na lagoa Cazanga, aldeia com o mesmo nome, comuna de Massangano, município de Cambambe, no Cuanza-Norte. Há dez anos, o pescador capturava, no mínimo, 50 quilos de peixe por dia. "Era uma actividade muito lucrativa. Ganhava-se o suficiente para a alimentação, vestuário, medicamentos, e para a formação dos filhos, que estudavam na sede municipal, no Dondo”, diz, para sublinhar que a realidade actual é diferente, porque apanha menos pescado.

 Nos dias que correm, Colela apanha, no máximo, apenas 20 quilos de cacusso. Há dias que captura menos de 15 quilos. Como principais causas do problema, aponta às inundações registadas na lagoa Cazanga, devido à intensidade das chuvas que caem frequentemente sobre a região. "Ao contrário do cacusso, o aumento do caudal favorece a pesca do bagre”, explica. Há 36 anos no exercício da actividade, Colela Cuangua afirma que a realidade de Cazanga é semelhante a da lagoa Ngolome, também localizada em Massangano, e tida como a maior da região e a segunda maior de África.

 Outro pescador, de 46 anos, referiu que as cheias acontecem nos meses de Fevereiro, Março e Abril. Paulo António fala de outras dificuldades que afectam na pesca artesanal desenvolvida na aldeia, sobretudo na redução da quantidade de cardume na lagoa, que torna ainda mais complicado o arresto de cacussos de maior tamanho, que renderia muito mais no mercado. Paulo António esclarece que a situação se deve ao uso, pelos pescadores, de redes com malhas de 25 milímetros, fechadas. Os pescadores de Cazanga capturam muito peixe miúdo, e como consequência disso, reduz o crescimento de milhares de tilápias.

 "É um problema que ameaça a continuidade da pesca na região. Precisamos de apoios em redes de malhas mais apropriadas, e de câmaras para a conservação do peixe”, solicita o pecador, que exerce a actividade há 35 anos.  Apesar da recolha compulsiva das redes fechadas, pelos fiscais, na aldeia Cazanga, a actividade piscatória continua. Enquanto alguns olham para a quantidade de peixe capturado, outros primam pela qualidade (tamanho) do cardume.

 O chefe do departamento de Aquicultura e Pesca, da Direcção Provincial da Agricultura, disse que a solução do problema passa pela mudança de consciência dos próprios pescadores. "Por serem todos da mesma família, ninguém denuncia o outro”, alerta Patrício Constantino. A par da consciencialização, Patrício Constantino admite que o quadro pode melhorar com a recente entrega, aos pescadores, de redes que evitam o arresto de espécies miúdas. Orientados a punir os infractores, alguns fiscais, equipados com rádios de comunicação, vigiam a actividade pesqueira desenvolvida na zona.
 Irregularidade das chuvas

Se nalguns períodos do ano o caudal da lagoa Cazanga sobe significativamente, noutros, a escassez de água deixa desanimado os pescadores. Patrício Constantino lembra que, devido à irregularidade das chuvas, a lagoa secou durante quase quatro anos. "A isso, associa-se a obstrução do canal do muigi, onde passa água proveniente do rio Lucala, tida como a principal fonte de abastecimento da bacia de Cazanga”, disse Patrício Constantino, que defende a necessidade de manutenção do canal para evitar que se descarregue o insuficiente, para enchê-lo.

 Num encontro com os pescadores da região, o director do Gabinete Provincial de Desenvolvimento Económico, Humberto Mesquita, em representação do governador do Cuanza-Norte, Adriano Mendes de Carvalho, prometeu trabalhar com a Administração Municipal de Cambambe, no sentido de encontrar as soluções mais viáveis com vista a preservação da vida das populações ribeirinhas.

 A pesca activa, que começa em Maio, depois do ritual dirigido por um quitoco (mais velho de reconhecida idoneidade), que roga a Deus e aos ancestrais para que as acções de captura do pescado decorram com êxito, termina em Dezembro."Durante a cerimónia, alimentos e bebidas alcoólicas são despejados na lagoa, para alegrar as sereias”, sustenta o pescador Paulo António, natural e residente na aldeia Cazanga, em Massangano. Da pesca à comercialização

 A municipalidade de Cambambe, principal região pesqueira do Cuanza-Norte, tem registado 39 lagoas, cujos níveis de captura se desconhecem por dificuldades de monitoramento, segundo Patrício Constantino, chefe do departamento de Aquicultura e Pesca. "Temos um corpo de inspectores que, de vez em quando, reportam os dados”, sublinha. Face aos alteamentos das barragens hidroeléctricas de Cambambe (município com o mesmo nome) e de Laúca, na província de Malanje, o responsável está convencido do surgimento de mais bacias nos próximos tempos.

 Mãe de três filhos, Marisa Paciência Nhanga é uma das principais referências no tratamento do pescado, em Cazanga. "Manejo a canoa para ir comprar peixe em vários pontos”, disse a peixeira, que chega a escalar cerca de 500 cacussos por dia, salgando igual quantidade em picado. Ao contrário do escalado, o peixe picado em sal não deve ser completamente aberto. Retira-se-lhe os intestinos. Escolhida pela comunidade, para exercer a função de chefe das quitandeiras, Marisa Nhanga atesta que o peixe bagre só aparece em grandes quantidades, no período das cheias, no primeiro trimestre de cada ano. Vende a centena de cacusso grosso no valor de 30 mil kwanzas.  O monte de peixe mais pequeno custa cinco mil, enquanto o picado vende a dois mil kwanzas. 

"O negócio ajuda-me muito, sobretudo neste período em que o meu marido está desempregado”, destaca a peixeira, cuja maior parte dos clientes sai da cidade de Ndalatando. De quando em vez, desloca-se até a sede do município, no Dondo, para comercializar a outra parte do produto. Por outro lado, na aldeia Ngolome, a comercialização de cacusso pequeno está na ordem do dia, e o seu impacto tem reflexos negativos nos lucros.

Como disse o pescador e soba desta localidade da comuna de Massangano, João Carvalho, "hoje a centena de cacusso fresco é vendido no valor de mil e 500 kwanzas, contra os cinco mil no ano antepassado”.
 Segundo a autoridade tradicional, "quando é chopa (cacusso com quase meio quilo de peso) o preço varia entre 250 a 500 kwanzas cada. O peixe também é comercializado salgado, picado ou fumado, a numerosos compradores oriundos do Dondo, sector de Cassoalala e da República do Congo.

Centro de Formação e Processamento de Peixe

Outra iniciativa governamental, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura (FAO) permitiu a construção, em 2015, pelo então Ministério das Pescas, do Centro de Formação e Processamento de Peixe, na aldeia do Ngolome. Orçado em um milhão e 390 mil dólares norte-americanos, a sua principal missão é a produção de pescado, através de 50 gaiolas. Cada jaula tem capacidade para dois mil peixes, facilitando a fumagem de 500 unidades por dia e escalar outra quantidade igual.

 O centro possui um armazém, área de fabrico de gelo, preparação, lavagem, embalagem, cozedura de vísceras, túnel de expedição de peixe fresco e seco, espaço de arrefecimento e lojas para venda de cacusso e material de pesca, entre outros compartimentos. No momento da sua inauguração, a ex-ministra das Pescas, Vitória de Barros Neto, disse que a unidade marcava o início do desenvolvimento da pesca artesanal continental, em Angola, pelo facto de ser o primeiro do género no país. Na mesma ocasião, o representante da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura  (FAO) em Angola, Mamadou Diallo, considerou a infra-estrutura como sendo um dos projectos de referência em África, financiados pela sua instituição, tendo garantido que alguns técnicos da organização já trabalhavam em Roma (Itália), para fazerem do centro um recinto de excelência para a formação e vulgarização da cadeia integrada de pesca continental, para toda a África.

 A dura realidade é que o centro está paralisado, depois de funcionar algum tempo, logo após a inauguração. Em meados da década presente, produzia-se, mensalmente, na lagoa do Ngolome, cerca de 6.700 quilos de peixe, entre cacussos, bagres, mussolos e tainhas. Técnicos da empresa que assume a gestão do estabelecimento revelam que, estão já preparados os alevinos, para as gaiolas, e a alimentação dos mesmos, para o arranque dos trabalhos nos próximos tempos. Os alevinos chegam do Centro de Larvicultura do Mucuzo, a cinco quilómetros a norte do Dondo, com capacidade para produzir dois milhões de larvas de cacussos por ano. Quando foi inaugurado, em Março de 2015, sob a gestão do extinto Ministério das Pescas, a instituição previa o fomento da pesca continental e potenciar a aquicultura, com a produção de larvas de cacusso, que seriam colocadas no mercado, tão logo o peixe atingisse os 15 gramas.

 O centro está dotado de dois tanques de três mil metros quadrados para a reprodução, durante os meses mais quentes, e quatro tanques de 500 metros quadrados, com cobertura específica, para o tempo frio. Possui cinco depósitos para albergar os alevinos, e quatro para a mudança de sexo das larvas. Dispõe ainda de equipamentos para tratar os ovos dos peixes até ao nascimento das larvas, 23 aquários para a perversão sexual, reprodução, laboratórios, e uma fábrica com capacidade para 400 quilos de ração por hora. Com a aposta do Governo na gestão das lagoas, saneamento, rigor nas capturas, melhorias nas vias de escoamento, entre outras acções, renovam-se as esperanças dos pescadores da histórica comuna de Massangano.
Melhorada a situação nas lagoas

Três investimentos de realce caracterizam a intervenção do Governo para melhorar o quadro piscatório na comuna de Massangano, designadamente, a implementação do Projecto de Apoio à Pesca Artesanal Continental (AFAP), e a construção dos centros de Formação e Processamento de Peixe, e de Larvicultura. O AFAP, em parceria com o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), arrancou, em 2017, em 13 comunidades, com acções de formação em matéria de alterações climáticas, boas práticas e manuseamento de pescado, processamento, transformação de pescado, dentre outras disciplinas. Um ano depois, o AFAP passa de projecto de desenvolvimento a um outro de gestão participativa, confinado à localidade de Cazanga, que beneficiou 132 pessoas, dentre os quais 65 pescadores e 40 processadoras de peixe e quitandeiras. Constituiu-se o Conselho Comunitário de Pescas (CCP), grupo de fiscais, monitoria e equipa de saneamento básico da lagoa. 

O Projecto de Apoio a Pesca Artesanal e Continental foi, há dias, ao "porto pesqueiro” do Cazanga distribuir redes, botas, anzóis, bóias, lonas de protecção contra chuva e meios de comunicação aos pescadores locais. Era visível a satisfação e emoção no rosto dos contemplados. O pescador Paulo António disse que só faltaram anzóis grandes, para matar os bagres, e redes maiores para facilitar a captura. "Estamos a arrancar com esse projecto, para ver se voltamos a replicar em algumas lagoas. No Ngolome perde-se muito, em termos de estatística, por falta de prestação de contas”, disse o chefe do departamento de Aquicultura e Pescas, Patrício Constantino. Na ocasião, o director do Gabinete Provincial de Desenvolvimento Económico, Humberto Mesquita, valorizou a constituição do Conselho Comunitário de Pesca, que tem a responsabilidade de assegurar a gestão, a sua sustentabilidade, e garantir que as gerações vindouras beneficiem dos recursos provenientes da pesca realizada na localidade. 

Uma nota do Governo Provincial do Cuanza-Norte dá conta de que o AFAP, que também cobre algumas comunidades das províncias do Bengo, Luanda e Malanje, prevê impactar 15 mil e 220 pessoas. O objectivo é permitir que cada um dos beneficiários melhore as suas economias, através de créditos bancários, segurança alimentar, nutrição e alfabetização. AFAP prioriza a realização de acções de sensibilização sobre a igualdade do género, segurança alimentar, HIV/SIDA, saneamento básico, perigo de minas e sobre alterações climáticas.
Lucala e Cazengo

O sucesso da pesca artesanal, em Massango, e as potencialidades hídricas dos municípios de Cazengo e Lucala, levaram o Governo a incentivar, em 2015, a produção de cacussos na zona. Na altura, pelo menos 11 investidores criaram a Cooperativa de Aquicultores de Cazengo e Lucala (COPLCA) que escavava os tanques e assegurava a disponibilidade de água, enquanto o Governo fornecia alimentação (inicialmente gratuita) para os peixes e alevinos, e formação técnica aos criadores.  Com 14 tanques, que perfazem 381 metros quadrados, a quinta Dona Maira foi uma das mais engajadas. O responsável da referida zona de produção disse que o melhor ano foi o de 2018, porque comprava o saco de 25 quilos de ração no valor de oito mil kwanzas.

"Desta forma, tive a possibilidade de alimentar o peixe sem grandes dificuldades”, disse Jeremias Bartolomeu, para acrescentar que o sonho é produzir 18 toneladas por ano, mas, para o efeito necessita de cerca de 100 mil alevinos e 360 sacos de ração. "Solicitei um crédito no valor de 50 milhões de kwanzas, para cavar mais tanques, comprar alevinos, montar mini-fábricas de ração e relançar a produção mas, por burocracia do banco, continuo sem dinheiro”, lamenta o produtor de peixe.

 Situação semelhante vive o pescador Simão Campos, proprietário de dois tanques. Começou com 24 mil peixes. O investidor avançou ao Jornal de Angola que, devido à fome, morreram pelo menos três mil cacussos. O quadro da criação de cacussos e bagres é sombrio e de enormes incertezas, devido a subida para 15 mil e 500 kwanzas o preço da ração do peixe adulto, e 17 mil para a de  alevinos. Para Jeremias Bartolomeu, o relançamento da pesca artesanal, em Ndalatando e Lucala, passa pela motivação dos produtores, apoio em assistência técnica especializada e concessão de créditos bancários.

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