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Personalidade pode ser influenciada por aquilo que acontece nos intestinos

Se tem uma tendência para estados de alma mais deprimidos, comportamentos ansiosos ou, pelo contrário, irradia boa disposição ou controla facilmente as emoções, saiba que isso talvez se fique a dever, em parte, ao seu microbioma intestinal.

02/11/2021  Última atualização 10H10
© Fotografia por: DR
Até há bem pouco tempo, a ideia de que algumas doenças mentais ou simples traços de personalidade pudessem estar relacionadas com o que se passa nos nossos intestinos poderia parecer um absurdo ao comum dos mortais, mas os avanços da ciência têm deixado essa relação cada vez mais demonstrada. A influência do ecossistema intestinal na saúde e bem-estar é de tal forma evidente, aliás, que os transplantes de massa fecal são já uma estratégia terapêutica utilizada em algumas patologias (ainda raras).

No Instituto de Investigação e Inovação em Saúde i3S, no Porto, uma equipa liderada pela investigadora Benedita Sampaio-Maia estuda essa relação entre o microbioma intestinal e as características de personalidade e lança agora um apelo à comunidade para participar numa iniciativa que visa desvendar um lado ainda oculto das neurociências. O objectivo, diz, é "relacionar perfis microbianos, nomeadamente, a diversidade e a quantidade relativa de diferentes grupos de bactérias que habitam no nosso intestino, com traços da nossa personalidade”.

O nosso corpo serve de habitat a milhões de microorganismos. No intestino, habitam diferentes bactérias, fungos e vírus que compõem o chamado microbioma intestinal. Aí, eles encontram o ambiente propício à sua sobrevivência e, se mantidos num equilíbrio saudável, proporcionam também uma série de benefícios ao organismo, desde o combate a outros tipos de microorganismos que causam doenças até à produção de nutrientes (como vitaminas).

Esta "caixa de Pandora”, como descreve Benedita Sampaio-Maia, foi aberta pela comunidade científica a partir da primeira década deste século, quando o avanço das tecnologias à disposição da investigação permitiu perceber que "a quantidade e a diversidade dos microorganismos que colonizam o homem é muito maior do que se conhecia até então”. Ora, esta descoberta abriu portas quase a uma nova ciência, "foi uma revolução na microbiologia associada ao homem e à doença humana”.

Passo a passo, foi-se descobrindo que os microorganismos que habitam o nosso corpo estão relacionados com estados inflamatórios e com doenças crónicas como a obesidade, a diabetes, a síndrome do intestino irritável, entre muitas outras. Mais recentemente, começaram a ficar demonstradas também ligações a várias doenças mentais e do neurodesenvolvimento, destacando um novo conceito estrela na ciência: o eixo intestino-cérebro.

"Verificou-se, por exemplo, que, em crianças com autismo, havia alterações desse perfil microbiano. Mas também em doenças como Alzheimer ou depressão, começam a surgir evidências dessa relação”, diz a investigadora do i3S e da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP). Uma descoberta que vem alterar o padrão de investigação sobre a saúde mental? "Não diria alterar, porque há outros mecanismos importantes a influir nessas doenças, além do microbioma, mas vem acrescentar dados muito importantes à investigação”, destaca.

Além destas relações já estabelecidas, surgem agora novas hipóteses, como a que a equipa do i3S quer esclarecer neste projecto que será desenvolvido ao longo de quatro anos: "Como as diferenças individuais na personalidade estão associadas a diferenças na função cerebral e como as bactérias do intestino conseguem comunicar com o cérebro, através do eixo bidireccional intestino-cérebro, o microbioma pode estar relacionado com diferenças de personalidade”, sustenta Carolina Costa, que também integra a equipa.

A ambição deste projecto vai mais além do estudo do microbioma intestinal e "vai contemplar também o microbioma oral, o urinário e o sanguíneo”, revela Benedita Sampaio-Maia, sublinhando a importância de se conhecer mais sobre esses ecossistemas, ainda não tão estudados quanto o intestinal, e apontando, por exemplo, que, "no caso do microbioma oral, já se encontraram também co-relações com a doença de Alzheimer”.

Para isso, a equipa apela à participação da população adulta, com a maior diversidade possível de personalidades na amostra. Os voluntários "serão submetidos a um conjunto de questionários para avaliar a personalidade” e deverão fornecer amostras clínicas de fezes, urina, saliva e sangue.

Num futuro próximo, a regulação microbiana intestinal pode vir a ser "uma terapêutica usada para melhorar quadros de saúde mental”, fazendo "reduzir a dependência” de outras vias farmacológicas, como o uso de antidepressivos, nota Benedito Sampaio-Maia.

Para já, sabe-se que a adequação de hábitos alimentares e o uso de produtos bióticos (pró, pré e pós-bióticos) contribuem para essa regulação. Mas há outras estratégias terapêuticas, como a terapia fágica (vírus bacteriófagos, que matam bactérias) ou "os transplantes de massa fecal”, diz a investigadora, já usados em alguns casos, como o de "pessoas colonizadas por um microorganismo muito resistente, que é o Clostridioides difficile”.

Os primeiros não-humanos a serem declarados "pessoas”
São os primeiros seres não-humanos alguma vez distinguidos desta forma: de acordo com uma sentença ditada no passado dia 15 de Outubro, por um tribunal dos Estados Unidos, mais de 80 hipopótamos na Colômbia são agora... pessoas, como divulgou esta semana o Huffington Post. Algo que acontece pela primeira vez na ordem jurídica - e na história - dos EUA e provavelmente do mundo.

Os animais são descendentes dos "Hipopótamos de Cocaína”, os quatro animais de estimação que Pablo Escobar mandou vir de África, exclusivamente, para seu bel-prazer, ilegalmente importados, na altura. Em 1993, após a morte do Barão da Droga, os animais, que podem ser bastante agressivos se acossados, foram soltos e deixados à sua sorte.

De lá para cá, multiplicaram-se, a comunidade de hipopótamos ultrapassou já as oito dezenas e alegadamente está a causar a devastação no ecossistema local. A solução para o Governo colombiano é exterminar os animais.

Em Julho passado, um advogado colombiano, Luiz Maldonado, interpôs uma acção num tribunal colombiano, em nome dos animais, para impedir a sua morte, alegando que a esterilização seria uma melhor solução.

Entretanto, como a lei dos EUA permite que uma parte num processo judicial estrangeiro pode recorrer a um tribunal federal norte-americano, para obter documentos que deem razão ao seu caso, Maldonado entrou com uma acção no Tribunal Federal de Ohio, a par da Fundação de Defesa Legal do Animal (Animal Legal Defense Fund), para provar a sua argumentação.

O tribunal federal ouviu peritos em esterilização de animais selvagens e decidiu, na quinta-feira, que, neste caso, os animais tinham o direito de ser reconhecidos como "pessoas”, para protecção dos seus próprios interesses, já que em causa estava a sua morte e/ou esterilização.

Mais: decidiu ainda que não estava provado que tipo de droga seria usado pelo Governo colombiano, caso fosse decidida a esterilização, e quão prejudicial seria, pelo que deveria optar-se por um contraceptivo com resultados comprovados para hipopótamos, o PZP (porcine zona pellucida), e a operação seguida por organizações internacionais.


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