Uma estrada devidamente asfaltada, bordejada de árvores e capim longo e verdejante, dá acesso ao Lucusse. São 133 quilómetros do Luena à sede da comuna. Neste percurso, não vislumbramos um buraco, contrariando a nossa expectativa.
Imaginávamos um caminho esburacado, com perigo de minas, por se tratar de uma zona onde foram travados duros combates entre as Forças Armadas Angolanas (FAA) e as extintas forças da UNITA, para o controlo da cidade do Luena. Mas a realidade é bem diferente.
O traçado rodoviário está tão impecável que convida o condutor a carregar o acelerador a fundo. De vez em quando, dava algumas cotoveladas ao Samuel Manuel, o director provincial do Jornal de Angola no Moxico, que ia ao volante de um Toyota Hilux, para diminuir a velocidade, mas ele procurava manter-nos tranquilos. Em menos de cinquenta minutos, percorremos o trajecto.
A fraca actividade comercial faz com que a via seja pouco utilizada por camiões. As poucas viaturas que por lá circulam dirigem-se ao campo, à busca de produtos agrícolas para a cidade. Talvez seja por esta razão, aliada à qualidade do trabalho efectuado, que a estrada, reabilitada há cerca de oito anos, continue com um asfalto invejável, contrastando com a maioria das vias rodoviárias do país.
Um controlo policial, com cones e barreira, que fecha a estrada a toda a largura, anuncia a entrada à sede da comuna. O obstáculo é removido apenas depois da identificação dos ocupantes, prática que nos faz lembrar o passado, quando vigorava no país o regime de partido único. Logo que é dada a ordem de prosseguir a marcha, a via é novamente obstruída e assim sucessivamente.Trata-se de um exercício permanente, aparentemente cansativo. Mas as autoridades acham que a segurança da localidade passa por este procedimento.
A chuva é quase incessante no Lucusse e, de um modo geral, em toda a província do Moxico, onde os dias nascem mais cedo e as noites chegam mais depressa, como em toda a região Leste do país. Diariamente, pode chover duas ou três vezes, para gáudio dos camponeses. Quase sempre, os dias são cinzentos, carregados de nuvens negras. A temperatura varia entre os 26 e 24 graus, fascinante para quem sai de uma cidade quente como Luanda.
Na comuna, a população entrega-se com prazer aos afazeres diários. Não é difícil compreender que a principal actividade seja a agricultura, mas há, também, outras, como a apicultura, caça e pesca. Mulheres e homens com instrumentos de trabalho na mão vão ao campo cultivar a terra.
Ao longo da estrada, baldes e bacias com produtos agrícolas são expostos para venda. Aqui e acolá vêem-se bidons ou garrafas de plástico com mel, um dos principais negócios da população. O preço varia de acordo com o recipiente. Uma garrafa de meio litro custa 500 kwanzas, de um litro e meio é vendido a 1500 kwanzas e o bidon de 5 litros a seis mil kwanzas.
Pela proximidade com o Luena e pelas potencialidades económicas, Lucusse é considerado o pulmão da capital do Moxico. De lá saem os principais produtos agrícolas que alimentam a cidade. Mas a população queixa-se de falta de meios de escoamento. O soba Bernardo Camiji, 62 anos, afirma que este ano houve muita produção, mas grande parte apodrece no campo, por falta de meios de escoamento.
"A terra é fértil, mas a produção acaba por estragar-se por falta de escoamento", lamenta, ao mesmo tempo que se queixa dos baixos preços dos produtos do campo. "Assim, acabamos por não ganhar nada".
Com uma população estimada em cerca e 12 mil habitantes, distribuídos em 11.278 quilómetros quadrados, Lucusse faz parte do Parque Nacional da Kameia, rico em bacias hidrográficas e animais. Após a conquista da paz, a localidade conheceu alguns avanços no domínio social. Novas escolas foram construídas, centro de saúde reabilitado e ampliado, mas a população quer mais acções de impacto social.
Augusto Caiombo Vunda, outro membro da autoridade tradicional, reconhece que a livre circulação de pessoas e bens é um dos maiores ganhos da paz.
"Hoje, as pessoas circulam sem medo. Vão à lavra ou à apicultura sem receio de serem atacadas, o que anteriormente era impossível", disse.
Lembrou que, no tempo da guerra, "todo o mundo tinha fugido da comuna. "Até a administração do Estado tinha sido retirada. Aqui, havia um destacamento militar das FAA e meia dúzia de habitantes. Ninguém podia passar por esta estrada. Hoje andamos à vontade", recorda.
Aos 75 anos, Caiombo Vunda ainda desenvolve a agricultura com vigor. "Esta é a minha vida, não sei fazer outra coisa, a não ser cultivar. Daqui sai o meu sustento e o da minha família", explica com satisfação
O ancião lamenta a falta de serviços essenciais básicos e de emprego para jovens. "Muitos estudaram e são camponeses como os pais", acentua.
Acrescenta que uns tentam oportunidades de trabalho nas grandes cidades, como Luanda, já que o Luena também não tem muito para oferecer.
"Os que não podem, permanecem aqui mesmo", sublinha. No domínio da educação, afirma "que há poucas escolas e a comuna é grande".
Coríntio Sapalo Mutoyi junta-se à conversa e diz que uma sala pode ter 60 a 70 alunos e, no centro médico, nunca há medicamentos.
"Só passam receita. O paciente tem que desenrascar”, lamenta.
Outro problema que a comuna enfrenta, refere, é a falta de água potável e de energia eléctrica. O motor-gerador fornece electricidade apenas à administração, mas a população espera por dias melhores.
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