Cultura

Pepetela nos seus 80 anos: Vida e obra inteiramente dedicadas a Angola

Isaquiel Cori

Jornalista

De lá para cá, Pepetela, através dos seus romances, construiu um impressionante universo tecido de memórias sobre Angola desde a época pré-colonial aos nossos dias. Deu vida a personagens marcantes, inesquecíveis, alguns dos quais parecem dotados de mais vida que figuras reais, de carne e osso.

31/10/2021  Última atualização 04H30
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o escritor Pepetela © Fotografia por: DR
Pepetela jamais contornou os temas mais "difíceis” da história de Angola e, como talvez nenhum outro escritor angolano, esmiuçou e caracterizou a natureza do poder em Angola e pôs a nu, em tom ora sarcástico ora com rigor forense e sociológico, os males e os vícios da elite que se propôs a construir um país novo.



Pepetela confessou-se uma vez ter sido bastante influenciado pelo cinema americano de acção. Os seus romances caracterizam-se por uma entrada sem delongas na acção. E pelo profuso recurso a diálogos. Aliás, a própria acção muitas vezes não surge através da descrição mas decorre do desdobrar dos diálogos. Isso revela a influência na sua obra, que ele assume, da literatura norte-americana, de nomes como Ernest Hemingway, William Faulkner e John dos Passos. Espanta o facto de nenhum dos seus romances até aqui ter sido adaptado ao cinema. 


Tanto a vasta bibliografia como a biografia de Pepetela estão profusamente disponíveis na Internet, para onde remetemos o leitor.


Curiosidades


- É no livro "O Cão e os Caluandas”, escrito em 1979/1980, que Pepetela começa sistematicamente a fazer uso da ironia como arma.

- A cidade de Calpe é recorrente em vários romances de Pepetela, surge imaginada em "Muana Puó”, "O Cão e os Caluandas” e "A Parábola do Cágado Velho”. É uma cidade que não se confunde ou não deve ser confundida com Luanda, pois é puro fruto da imaginação do autor.


- O tema da religião é recorrente em várias das suas obras, nomeadamente em "A Geração da Utopia”, "O Quase Fim do Mundo”, "A Sul. O Sombreiro” e "Predadores”. Isso apesar do escritor assumir que não acredita em forças sobrenaturais: "acredito apenas no homem”.

- O pai de Pepetela era guarda-livros, a mãe doméstica.
- Depois de vários anos em compasso de espera em Argel, com outros companheiros de ascendência portuguesa, finalmente Pepetela é despachado para o teatro de guerra em Angola. Pepetela contou assim, em entrevista à revista brasileira Caju, em Dezembro de 2011, o longo período de espera (1963/1969) em Argel: "Era uma questão de cor. O MPLA tinha medo de enviar brancos para a guerrilha porque não sabia qual seria a reacção da população: branco é filho de colono. Era preciso trabalhar as populações para nos aceitarem. Isso foi feito e em 1969 chamaram-me”.
E quando pega a arma para participar pela primeira vez em combate ainda não tinha treino militar, "só tinha visto a guerra no cinema.”


"Achei que aquilo era pesado demais, incómodo. Nem deu tempo para experimentar, foi já em acção que comecei a carregar no gatilho. Nem sei se acertei nalguma árvore, via-se muito pouco, muito mato, muita confusão. Mas meteu medo. A adrenalina sobe e depois a pessoa não sente mais nada.”

- Ele que escreve "para perceber o mundo”, começou a escrever "Mayombe” ainda durante a guerrilha, inspirado num comunicado de guerra que fez para a rádio. Achou-o tão interessante que o continuou, já com personagens.
- Se na "Geração da Utopia” Pepetela põe em actuação uma geração, por sinal a sua, que se movia por ideais (utópicos), em "Predadores” surge uma outra geração que só pensa em enriquecer a qualquer custo, para seu único e exclusivo benefício.

- "Sua Excelência de Corpo Presente” é uma prova de que Pepetela não tem medo de "mexer” nas questões ainda quentes da actualidade.


Na primeira pessoa


Ao longo das duas últimas décadas Pepetela abriu-se em várias entrevistas, falando sobre os seus romances e o país. A seguir, algumas das suas afirmações.

- "A minha linguagem é muito próxima do português padrão, mas de vez em quando há umas fugas. A elite angolana tem dois registos de linguagem. Se estamos em Portugal, falamos de uma maneira, se estamos lá (em Angola), entre amigos, falamos de outra. Não gosto de usar demasiado certas formas de calão, expressões que não me dão garantia de sobrevivência dos livros.”

(Entrevista a Isabel Lucas, Diário de Notícias, 07/11/2005)


- "Um escritor não pode limitar-se à sua própria visão. É preciso dar a visão dos personagens, porque cada um deles é um outro. Eu descobri isso já em "Mayombe”. Estava a escrever e de repente vem um personagem e diz "Eu, o narrador, sou Teoria” e conta um pouco da sua história pessoal. Depois outros personagens-narradores foram aparecendo, um pouco de maneira inconsciente.”


"Eu escrevi ‘Mayombe’ na guerrilha, à mão, e ele resistiu à chuva e outras coisas.


Quando tive tempo de revê-lo, após a independência, fui passar a história para a máquina de escrever e pensei bastante se mantinha do mesmo jeito ou não, então vi que tinha que ser assim. No fundo é isso: dar a voz aos personagens.”
"Aproveito a ficção para dar recados.”

"Deixem fazer manifestações, deixem fazer todos os sábados, é bom.”
(Entrevista a Júlia Dias Carneiro, 2011, BBC Brasil, aquando do lançamento do romance "O Planalto e A Estepe”)


 - "Um mês depois da Independência. (A UEA) foi a primeira associação a ser criada em Angola. (...) (A ideia foi) do Luandino Vieira. Depois fomos cinco a escrever a proclamação: o Luandino, o Costa Andrade, que já faleceu, o Arnaldo Santos, o Manuel Rui Monteiro e eu. Quando começaram a discutir eu ainda estava na guerra, em Benguela. Depois da independência arrumei a arma e nunca mais lhe peguei. Hoje em dia até sou contra os caçadores. Sou muito ecológico [risos]. O Luandino perguntou-me se me juntava a eles. Disse logo que sim.” 


"Quando [Agostinho] Neto ainda era vivo, falei com ele, disse-lhe que queria ser escritor, que tinha que sair das funções oficiais para me dedicar a outra coisa, para viver outra coisa e para escrever. Disse-me para esperar, que ainda era cedo, não estava nada consolidado. Depois morreu. E eu não ia chegar logo ao novo Presidente e dizer que queria sair. Aguentei um ano. Depois escrevi-lhe. E ainda demorou cerca de um ano até me libertarem.”
(Entrevista concedida a Rita Silva Freire, originalmente publicada na Revista Caju, 30 de Dezembro de 2011).



ACADEMIA ANGOLANA DE LETRAS
"Embaixador da intelectualidade”


"Membro fundador da Academia Angolana de Letras e Presidente da sua Mesa da Assembleia Geral, Pepetela é um dos principais autores de língua portuguesa da actualidade, um dos maiores embaixadores das Letras e da Intelectualidade angolanas, sendo um dos escritores angolanos mais estudados no Brasil e no mundo por meio de teses e dissertações sobre a sua vida e obra”, exprimiu a Academia Angolana de Letras, em nota assinada pelo presidente do seu Conselho de Administração, o sociólogo Paulo de Carvalho, por ocasião do 80º aniversário do autor de "Mayombe”.


"O seu empenho no processo de luta de libertação para a conquista da Independência Nacional, a sua trajectória nos mais de 50 anos ao serviço da Cultura Angolana, a sua fidelidade à visitação aos factos socio-históricos de Angola, assim como o seu carácter, fazem com que seja merecedor da estima e carinho com que é tratado e referenciado em Angola e pelos Angolanos”, acrescenta a nota, em que se augura a Pepetela votos de saúde, felicidades, novos sucessos literários e muitos anos de vida.


Breve nota aos 80 anos de Pepetela
Carmen Lucia Tindó Secco*


Pepetela merece todas as saudações e votos de vida longa, cheia de saúde para continuar a nos presentear com suas obras. Aos 80 anos, continua a ser um dos escritores mais lúcidos que conheço. Tem a perspicácia e a sabedoria de seu "Cágado Velho”. Seu olhar, constantemente agudo e crítico, reflecte acerca da história e da geografia não só de Angola, mas do planeta Terra. Seus posicionamentos tanto políticos, como literários são sagazes e sua escrita literária é capciosa, prenhe de engendramentos ficcionais inovadores e sedutores.


Desde Muana Puó, passando pelas Aventuras de Ngunga, Mayombe, Yaka, O cão e os calus, Lueji, A geração da utopia, Os predadores, O planalto e a estepe, O quase fim do mundo, Sua excelência de corpo presente, entre outros, os narradores e personagens de Pepetela vão, criticamente, reflectindo sobre o passado, o presente e o futuro de Angola. Põem em discussão o colonialismo, a formação de Angola, as etnias que habitam o actual território angolano e não foram respeitadas pela Conferência de Berlim. Em Mayombe, são destacadas contradições no bojo do próprio MPLA, durante a luta de libertação.


Em Parábola do cágado velho, são questionadas as guerras civis que destruíram Angola por décadas, deixando o povo com fome e sem perspectivas de futuro. São analisados nos romances os contrassensos e as incoerências presentes no tecido social angolano, mesmo após a independência. São denunciados problemas econômicos e desigualdades sociais que persistiram no seio da sociedade angolana.

Pela relevância do conjunto de  sua obra literária e de seus  trabalhos acadêmicos, pelo reconhecimento como intelectual de prestígio internacionalmente, e, também, por ter pugnado, na Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, e na luta contra o colonialismo português, o racismo, a escravidão, a tortura, empenhando-se sempre na edificação de uma sociedade mais humana, democrática e justa, Pepetela foi aclamado por unanimidade, em 13 de maio de 2021, sendo agraciado com o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Segundo o escritor brasileiro António Callado, "a  função  da  arte  é refundir o homem, torná-lo de novo são e incitá-lo à permanente escalada de si mesmo.  (...) A  arte  é  necessária para  que  o  homem  se  torne  capaz  de  conhecer  e  mudar  o  mundo.  Mas  a  arte  também  é  necessária em virtude da magia que lhe é inerente” .


As obras de Pepetela cumprem plenamente essas funções da arte: incitam os homens a profundas reflexões sobre si e sobre o mundo. Fascinam os leitores por sua magia e não esquecem o sonho. Contudo, este nada tem de romântico; é sempre perpassado por uma consciência social, política, existencial.


*Professora de Literaturas Africanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Brasil
  CALLADO, Antônio. Introdução. In: FICHER, Ernest. A necessidade da arte. Trad. Leandro Konder. 6.ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1977, p. 8.




Prémios e distinções académicas

Autor de mais de duas dezenas de romances, duas obras dramáticas, dois livros de crónicas e um estudo sobre a cidade de Luanda e os seus habitantes, Pepetela ao longo desses 80 anos recebeu inúmeros prémios e distinções. Vamos discriminar alguns:
- Prémio Camões, 1997.
- Prémio Nacional de Literatura, pelo romance "Mayombe”, 1980.
- Prémio Nacional de Cultura e Artes, 2002.
- Prémio Correntes de Escrita, 2020, pelo romance "Sua Excelência de Corpo Presente”.
- Prémio Rosalia de Castro do Centro PEN Galiza, 2014.
- Prémio Especial dos Críticos de São Paulo, Brasil, 1993.
- Prêmio Prinz Claus, Holanda (1999)
- Prémio Internacional da Associação dos Escritores Galegos, 2007.
- Prémio Fonlon-Nichols Award da Associação Africana de Literatura, 2015.
- Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve, Portugal, 2010.
- Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, 2021.

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