Opinião

Pensar em alternativas ao BPC

Ismael Mateus

Jornalista

Na última semana correram, novamente, reportagens jornalísticas e, nas redes sociais, vídeos de denúncia do modo como os utentes do Banco de Poupança e Crédito (BPC) são alegadamente tratados.

26/07/2021  Última atualização 07H55
Reportaram longas filas feitas de madrugada por mais velhos reformados para a entrada nas agências. Ouviram-se, também, queixas de utentes por dificuldades de acesso aos seus parcos rendimentos, sem contar com as reclamações que vêm de municípios sem agências bancárias, onde os funcionários públicos são obrigados a viajar centenas de quilómetros para levantarem os seus salários.

Em 2019, o actual Conselho de Administração do BPC dizia-se focado em ultrapassar as dificuldades operacionais, tendo anunciado a modernização dos sistemas de informação, a melhoria dos processos de negócio-chave, o reforço dos controlos internos e de recuperação do crédito vencido.

O Ministério das Finanças fará, certamente, uma avaliação criteriosa sobre os outros objectivos, mas no ponto das dificuldades operacionais, o BPC vai de mal a pior. Todas as semanas os clientes são submetidos às desagradáveis experiências, desde o desaparecimento de dinheiro das suas contas a um péssimo serviço de balcão, que  leva os mais velhos a passarem a noite em filas, como se vêem nos relatos.

O actual presidente do Conselho de Administração do Banco, André Lopes, havia, e bem, destacado a confiança como um pilar basilar da relação bancária. "Só com confiança se estabelecem relações de negócios profícuas e duradouras”. Num cenário de concorrência com outros bancos, em que a confiança é determinante para a relação com o cidadão, a imagem e a reputação do BPC estão a um nível tão baixo, que temos dúvidas de que algum dia o banco público se consiga voltar a erguer com condições para exercer o seu papel na economia angolana.

Mais do que nunca, a economia angolana necessita de um banco público, mas, com tanta publicidade negativa, com o nome, a marca e a confiança tão comprometidos, talvez seja mais prudente pensar-se em alternativas ao BPC, quer na vertente comunicacional como de possíveis fusões com outros bancos com participação do Estado.

A principal expectativa que temos sobre o papel de um banco público é que possa atender às necessidades da sociedade e não praticar, como os bancos privados, políticas para retorno financeiro imediato. O seu principal objectivo deveria ser apoiar empreendimentos industriais e de infra-estrutura nas áreas prioritárias como a agricultura, comércio, financiamento de micro, pequenas e médias empresas e de investimentos sociais na Educação, Saúde e saneamento básico.

Um banco público deve ser um dos órgãos de fomento do desenvolvimento económico, mas também, com prazos e taxas diferenciadas, assumir-se como um instrumento para a melhoria da competitividade no sistema financeiro e a elevação da qualidade de vida das pessoas.

Se tivesse uma estratégia adequada, o BPC actuaria como um factor de correcção de falhas do mercado e direccionamento de crédito a sectores da economia e regiões do país pouco financiados, principalmente ao nível dos pequenos produtores e empreendedores e de projectos de desenvolvimento regional e local.

Em termos de infra-estruturas, os bancos públicos costumam ter muitas agências e o nosso BPC não foge à regra. É o banco com a maior rede capilar de agências do país, mas tinha a obrigação de estar em todos os municípios do país e nalguns deles, naqueles que possuem grande actividade económica e densidade populacional, deveria ter uma presença bem marcante.

O BPC também deveria ser o banco com a maior carteira de créditos, mas também com a oferta de crédito em condições mais favoráveis, mas dada a sua situação financeira actual isso não está a acontecer. Os créditos de um banco público são fundamentais para o desenvolvimento da economia, por causa dos seus juros e das suas políticas de correcção das assimetrias na geografia do crédito.

Para além das persistentes e arreliantes dificuldades operacionais que colocam a imagem e a reputação do banco de rastos, a estratégia de recuperação do banco não parece conduzir ao banco público que todos esperam.

Mais de 130 unidades, entre agências, postos de atendimento e centros de empresas, vão ser encerradas; o crédito à economia está suspenso ou extremamente reduzido e o atendimento aos funcionários públicos, reformados e segmentos mais desfavorecidos é o pior do mercado.

Tendo sobretudo em conta a profunda crise económica em que vivemos, necessitamos de um banco comercial público como instrumento de contrapeso e de apoio à política económica.
O estado frágil e de muito má fama do BPC não permite ser o banco público de que necessitamos. "De que nos vale, então, ter um banco publico que não cumpre o seu papel”?

 

 

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