Opinião

“Pensamento inclusivo!”

Caetano Júnior

Jornalista

Partidos políticos que hoje constituem Governo, nos mais diferentes lugares espalhados pelo Globo, estão longe de ter sido edificados no calor da Luta de Libertação dos respectivos países, nem foram fundados sob os actos de heroísmo dos seus membros.

07/11/2021  Última atualização 08H57
 Desde o fim da II Grande Guerra, tendo pelo meio a luta de nações africanas e latino-americanas pela autodeterminação, pela soberania, até aos dias correntes, o Mundo transformou-se assustadoramente.

Hoje, assiste-se, à escala internacional, ao surgimento de partidos políticos cujos ideais assentam sobre premissas que, no passado, sequer seriam consideradas. Nestes tempos, uma formação partidária chega a ter um histórico muito breve, até fora da política propriamente dita, hasteando a bandeira em defesa da natureza, de animais, de minorias, do extremismo, enfim, do que quer que seja que anime a convicção dos membros. Mesmo as denominações que as identificam são tanto fora do formato, quanto estranhas, muito diferentes das de partidos que se conhecem como tradicionais. Saem do "Vamos” ao "Chega”, passando por "Liberdade” e "Venceremos”.

Como se vê, são partidos com denominações simples, directas, fundados com o objectivo claro de mudar (para qualquer direcção, não se importam) o cenário político nos respectivos países. Na grande maioria dos casos, em nada se identificam com formações políticas que tradicionalmente lideram conjunturas locais - nem com elas esboçam alianças - e, em outros, representam uma abordagem, para muitos, pouco ortodoxa, nada convencional, num mundo que acorda todos os dias surpreendido por novos desafios; que dá à luz, a cada instante, outras perspectivas de liberdade.

É que o Homem, sobretudo o Novo, tem o pensamento em permanente ebulição. A nova geração nem sempre considera o sofrimento consentido por quem ajudou a escrever a História do país; sequer, em muitas situações, sabe que sangue de nacionalistas regaram as fundações da nação. E mesmo que conhecesse, seria passado. Para ela, a pátria está em edificação e o futuro é que importa. O presente é de desafios e de resposta aos anseios dos cidadãos. É assim que agora também se pensa. É neste diapasão que deve alinhar quem hoje faz política activa, quem é militante ou até simples simpatizante de um partido. Não há alternativa ao "pensamento inclusivo”, que abra a porta para que entrem todas as tendências que o Mundo impõe como desafio.

Há muito que países que ontem impulsionaram o pensamento único, totalitário, corrigiram o sentido, proclamando a abertura para outras tendências, outras sensibilidades, outras propostas, contraditórias ou dissonantes, convergentes ou coincidentes … Os desafios que hoje a política coloca obrigam a que líderes abram a mente, abracem a diferença ideológica, como elemento que chegou para ajudar a melhorar perspectivas, a ajustar o olhar. Os progressos que o Mundo regista são exactamente resultados de visões distintas, que, conjugadas, conformadas, resultam em vantagens para todos, permitindo-lhes coabitar. É a força do "pensamento inclusivo”!

É preciso que nos detenhamos exaustivamente no facto de que partidos formam governos e estes orientam estratégias, criam projectos, que têm como fim único beneficiar o cidadão, independentemente da cor partidária. No pensamento contemporâneo, as minorias devem ser ouvidas, os derrotados de uma eleição também merecem espaço, até para continuar a exercer a cidadania. Afinal, têm os mesmos direitos e deveres que os demais compatriotas, independentemente de o emblema para o qual votaram estar no leme do país. Este é o sentido do "pensamento inclusivo”. Não deve haver excluídos, entre os beneficiários do país que se constrói.

Portanto, é este o caminho a seguir por fazedores de opinião e líderes de organizações. O discurso de exclusão é contraproducente. O realismo e a sensatez são imperativos na hora de aconselhar quem dirige. A verdade, acima de tudo, por tão incómoda que se apresente. O Poder, a governação, é também exercido por quem tem espaço para ser ouvido, seja num artigo de jornal, num programa de rádio ou numa transmissão televisiva.

É contra o "pensamento inclusivo” extremar posições, como já se viu. Mas o pior é, um dia, alinhar o discurso num sentido e, no outro, movê-lo para a direcção oposta, ao ritmo de conveniências. Aliás, um testemunho do "pensamento inclusivo” deu-o, há cerca de duas semanas, o Presidente da República, em entrevista ao jornal "Financial Times”. Disse João Lourenço que "as manifestações no país reflectem o bom estado da democracia e mostram que os cidadãos não estão proibidos de se manifestar”. Uma eloquente prova de inclusão; um exemplo de coabitação na diferença.

Mas aceitar a diversidade de ideias não é permitir que se subverta a Lei, nem que se ultrapassem os marcos do respeito e do tolerável. Quem beneficia da liberdade de expressão e de pensamento e do direito de se manifestar está obrigado a fazê-lo dentro dos limites legais e mesmo morais. O "pensamento inclusivo” deve, pois, ser obrigação de todos e de cada um. E de quem faz oposição, claro!

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