Opinião

Pelas mãos de Carpentier até Guillén

Osvaldo Gonçalves

Jornalista

Da vida nada levamos, mas é uma grande injustiça deixarmos de desfrutar do que outros nos legaram, seja por que motivo for. Ver alguém pôr de parte um livro, um disco, um quadro, uma peça de artesanato, um filme, uma série, um espectáculo musical ou de teatro, enfim, é algo que muito nos preocupa.

29/05/2021  Última atualização 06H00
Numa livraria da Baixa de Luanda, encontrámos um exemplar de "Os Passos Perdidos”, do escritor cubano Alejo Carpentier, editado em 1981, pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), na colecção "Vozes da América Latina”.
O primeiro contacto que mantivemos com a obra de Carpentier aconteceu ainda na adolescência, através da novela "Concerto Barroco”, escrita em 1974. Foi este escritor que nos abriu as portas para a literatura cubana, no geral, mas, sobretudo, para a poesia de Nicolas Guillén, de quem já lemos alguns livros, inclusive de entrevistas e conferências, dadas um pouco por todo o Mundo.

Tanto assim é que, mal chegámos a casa, fomos à busca do livro "Nicolas Guillén - Obra Poética 1920-1958 – Tomo I”, editado em 1972, Ano Internacional do Livro, pelo Instituto Cubano de Livro, na colecção "Letras Cubanas”. Este exemplar de capa grossa, com ilustrações do autor e na língua original, chegou até nós há já uns bons anos, através do jornalista e editor Arlindo Isabel ou do jornalista e crítico de arte Adriano Mixinge - vá-se lá saber de quem é a culpa - e tem ocupado desde então um espaço privilegiado na minha mesa-de-cabeceira.

Todas as oportunidades são boas para folheá-lo e ler alguns poemas, escritos com o vigor incomparável de Guillén, na linguagem que lhe é característica. Alguns dos poemas até já sabemos de cor, tantas foram as vezes que os lemos, com destaque para os do livro "Motivos de Son” (1930), como "Mulata” (pág. 104) ou "Mi Chiquita” (pág. 108) ou ainda "Canto Negro” (pág. 122), de "Sóngoro Cosongo”.
Deste livro, publicado em 1931, retenho, entre outras coisas, o Prólogo. Nele, Guillén escreveu:
"Prólogo? Sim. Prólogo…
Mas nada grave, porque estas primeiras páginas devem ser frescas e verdes, como ramos jovens.
Realmente, eu sou partidário de colocar os prólogos no fim, como se fossem epílogos. E em todo caso, deixar os epílogos para os livros que não têm prólogo.

Por outro lado, um prólogo alheio tem certa intenção provisional de coisa emprestada. Depois de impresso o livro, o autor que pôs no início umas linhas do amigo deve viver com o sobressalto de que este lhe peça:
- Diz o Menéndez que quando você terminar o prólogo, envie-o.
E talvez, seja para empregá-lo noutra obra. Para emprestá-lo a outro amigo.
O meu prólogo é meu”.
(…)
Considerado um ardente defensor da revolução dirigida por Fidel Castro, foi preso várias vezes e viveu exilado durante o regime de Fulgencio Baptista, na década de 1950. Director de longa data da União de Escritores e Artistas de Cuba, foi membro do Comité Central do Partido Comunista Cubano.
Nascido a 10 de Julho de 1902, em Camaguey, Nicolas Guillén Baptista começou a escrever aos 15 anos, segundo o seu próprio testemunho. Nessa altura, conciliava os estudos com o trabalho de tipógrafo numa gráfica provinciana. A sua poesia foi sempre considerada de protesto social.

Nicolas Guillén era filho de mulatos, o pai era jornalista e nasceu com a independência formal de seu país, na Cuba da emenda constitucional que concedia aos Estados Unidos o "direito” de intervenção, facto que marcaria a sua vida política e literária como intelectual comprometido.
É citado como sendo "portador de uma sensibilidade ímpar, cantou Cuba com a beleza multicor do lirismo, por carregar consigo o espírito revolucionário de seu povo, com fortes tons sociais, contestando o imperialismo e a corrupção governamental vigente na sua época”.

Insatisfeito com o mero retrato do quotidiano dos pobres e com as amarguras dos soldados cuja existência se  resume a serem carne para canhão, denunciou tais situações em vários volumes, como "Sóngoro Cosongo” (1931), "West Indies Ltd” (1934), "Cantos para Soldados e Sones para Turistas” (1937) e "Espanha” (1937), com base na sua experiência na Guerra Civil Espanhola, onde lutou ao lado dos republicanos contra as tropas de Franco.
 É também clara a sua admiração por Che Guevara, como fica patente em pelo menos quatro poemas, um dos quais, diz assim:
"No porque hayas caído
tu luz es menos alta.
Un caballo de fuego
sostiene tu escultura
guerrillera
entre el viento y las nubes de la Sierra.
No por callado eres silencio.
Y no porque te quemen,
porque te disimulen bajo tierra,
porque te escondan
en cementerio, bosques, páramos,
van a impedir que te encontremos
Che Comandante,
amigo”.
"Poeta da totalidade cubana”, os seus textos destacam-se, sobretudo, pelo som que dá ritmo ao tradicional octossílado.
"Tratei de incorporar à literatura cubana, não como simples motivo musical, mas, sim, como elemento de verdadeira poesia, o que poderia chamar-se poema-son, baseado na técnica desse tipo de dança tão popular em nosso país”, como explicaria anos depois.
Em verso, o próprio escreveu:
Tengo el alma hecha ritmo y armonía;
todo en mi ser es música y es canto,
desde el réquiem tristísimo de llanto
hasta el trino triunfal de la alegría.

 "Os meus poemas-sonetos - agregaria - servem-me ademais para reivindicar o único que nos vai ficando que seja verdadeiramente nosso, sacando-o à luz e utilizando-o como um elemento poético de força”.
 "Não ignoro, é evidente, que estes versos lhes repugnam a muitas pessoas, porque eles tratam assuntos dos negros e do povo. Não me importa. Ou, melhor dizendo: me alegra”, escreveu Guillén em "Las grandes elegías y otros poemas”.

 Filho de mulatos (o pai era jornalista) e líder do movimento afro-cubano, até 1930, foi chamado "poeta da negritude”, mas, na realidade, como ele mesmo dizia, o que sempre quis reivindicar foi a "cor cubana” da "mestiçagem branquinegra, como fica claro no Prólo de "Sóngoro Cosongo”: "A injecção africana nesta terra é tão profunda, e cruzam-se e entrecruzam em nossa bem regada hidrografia social tantas correntes capilares, que seria trabalho de miniaturista desenredar o hieróglifo”.
Nicolas Guillén Baptista morreu a 16 de Junho de 1989, em Havana, aos 87 anos.

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