Entrevista

“Peço aos artistas que reflictam como sobreviver sem o Ministério da Cultura”

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Dança. A coreógrafa e directora da Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDCA), Ana Clara Guerra Marques, acredita que o público de Luanda consegue descodificar as suas criações porque são sobre Angola e sobre os angolanos, muito enraizado na sua visão e vivência, embora tenha admitido existirem mensagens do campo privado, podendo ser menos tangíveis.

29/04/2020  Última atualização 08H35
Rui Tavares |CDCA © Fotografia por: Coreógrafa afirma que o público de Luanda consegue descodificar as suas criações artísticas

Como vão comemorar o 29 de Abril, e qual é mensagem numa altura em que a Covid-19 assola também artistas?

À semelhança do que fizémos o ano passado, tínhamos preparado um programa com apresentações, “masterclasses” e encontros a que chamámos Conversas Alargadas de acesso livre para falarmos sobre aspectos originais e não muito discutidos sobre a dança. Neste contexto, este ano não será possível. Entretanto a CDC realizou uma campanha, na Internet, durante 13 dias neste mês de Abril, de prevenção contra a Covid-19.
Peço aos artistas que não parem de pensar, que não parem de criar mas, sobretudo, peço para que reflictam bem sobre o papel das Artes, o que é ser artista e como poderemos sobreviver sem o nosso Ministério da Cultura.

Se não tivesse surgido a pandemia Coronavírus, como seria a programação?

Para além do programa de comemorações do 29 de Abril, a CDC Angola iria estrear, no mês de Junho, em França, seguindo para Portugal, uma nova peça, a qual seria apresentada em Angola no mês de Setembro, seguindo-se uma segunda tournée em Outubro. Esta peça (agora temporariamente adiada) é uma co-criação assinada por mim e pela coreógrafa do Burkina Faso IrèneTassembèdo.


Alguma ideia de um espetáculo em formato digital, para ser exibido pela Internet?

Infelizmente essa ideia só é realizável em países onde o sinal da Internet é bom, acessível a todos e com custos suportáveis pela maioria. Não é o nosso caso. Claro que o processo criativo não seria igual. Os ensaios seriam difíceis. A dança é uma actividade essencialmente física e de grupo. Neste sistema o pensar em conjunto, o experimentar e descartar movimentos, o ter diversos corpos a trabalhar juntos e em diálogo real, não é possível. Ou seja, seria possível, mas teríamos de repensar todas as metodologias de trabalho.
Mas isto pode ser um prenúncio de mudança futura de paradigma.

É possível ensaiar com os bailarinos pela Internet?

No nosso país é muito difícil pelo que acima referi. Há alguns bailarinos da CDC Angola que nem têm acesso regular à Internet.

Do ponto de vista de receitas e impacto da mensagem artística há ou não vantagens num espetáculo via online?

Tenho visto muitas reposições de espectáculos que as compahias de dança, de teatro e de ópera puseram à disposição online. Mas são gratuitos. Do ponto de vista do impacto.... não há nada que se compare a um espectáculo ao vivo num bom teatro! Ainda não consigo substituir a fruição numa plateia por um visionamento precário num telemóvel ou tablet.

Dançar para um público virtual não dá prazer, é enfadonho?

Quando dançamos, em palco, não vemos a plateia. Dançamos para o escuro, mas sabemos que há gente viva do outro lado que nos vai aplaudir no fim. É a nossa recompensa pela magia que criamos. O público virtual também não se vê. A diferença é que certamente não vão aplaudir, não vai ver até ao fim e podem estar a fazer uma infinidade de coisas ao mesmo tempo. De todas as formas, marcamos a nossa presença; e isso é importante, para nós e para quem tem a paciência e o interesse de nos ver até ao fim.

Quais são os danos do ponto de vista de performance artística, e financeiro, com o surgimento da Covid-19?

Antes de maistenho a preocupação de que os bailarinos não percam a sua forma física e a sua condição técnica. Atendendo ao espaço, é muito difícil substituir uma sala de ensaios de grandes dimensões pelo comparimento de uma casa ou apartamento. Depois, os profissionais precisam de aulas presenciais com um professor, o que não está a acontecer. De todas as formas, os bailarinos estão a trabalhar com um programa de treino que eu estou a enviar e a supervisionar via internet e via sms. Mas não é, rigorosamente, a mesma coisa. Do ponto de vista financeiro... Existe um conjunto de espectáculos que não serão realizados. Apesar do apoio permanente do Banco BAI, sem o qual não sobreviveriamos, a CDC Angola continua a debater-se com a falta de financiamento e isto compromete, ainda mais, a nossa própria existência.

Em Janeiro, foi convidada a representar Angola no FIDO, que decorreu em Ouagadogou. Relata-nos a sua participação.

Tive a honra de ser convidada para ser a Madrinha da edição de 2020 do Festival Internacional de Dança de Ouagadougou. Digo honra, pois este convite só é endereçado a personalidades que se distingam pelo seu percurso e obra desenvolvidos nos domínios da dança. Para além de proferir o discurso de encerramento, tive a oportunidade de partilhar com os presentes a minha experiência profissional e o trabalho de quase 29 anos com a Companhia de Dança Contemporânea de Angola, o qual foi muito bem recebido, muito elogiado, tendo causado grande surpresaentre os participantes, que não tinham a noção de que em África existia um trabalho criativo e intelectual em dança, com a qualidade técnica e com as opções estéticasassumidas por esta companhia angolana. Fora de portas, Angola ficou, uma vez mais através da nossa companhia, bem na fotografia!

Qual deve ser o perfil do espectador para que o mesmo compreenda as obras da CDCA?

Qualquer pessoa é dotada de sensibilidade. Qualquer receptor fica tocado pelo que vê e qualquer espectador tem a sua interpretação das nossas peças. Por vezes, nem são os mais “letrados” os que melhor entendem pois estão contaminados com ideias pré-concebidas.


“As nossas obras são sobre Angola e sobre os angolanos”

Acredita que o público de Luanda consegue descodificar as suas obras?

Sim, porque as nossas obras são sobre Angola e sobre os angolanos. O meu trabalho coreográfico é muito enraizado na minha visão e na minha vivência enquanto angolana. Por isso, existem sempre pontos de contacto e “links” entre as minhas criações e o público que assiste.Claro que, como em qualquer outro contexto social e geográfico, existem mensagens que são do campo privado de quem cria. E essas, se não são partilhadas de outra forma, talvez sejam menos tangíveis.

No decurso do processo criativo, como planifica a recepção do que vai exibir em palco?

Nem sempre... Acho que, para além de ser um acto privado, a criação tem também algo de egoísta, no sentido em que, enquanto criadora, sinto-me no direito de fazer o que quero! É uma espécie de ter liberdade absoluta de expressão. No entanto, no nosso país, em que ao longo de todos estes anos não se preparou o público para este nível de descodificação, e como desejo que as pessoas que assistem aos espectáculos estejam em sintonia comigo enquanto autora, obrigo-me aalgumascontenções. A minha ideia é ter a cumplicidade do público pois, os temas que escolho são, quase sempre, relacionados com as inquietações de qualquer angolano.

Improvisação, emoção, crítica e sátira são os elementos que, de alguma forma, dominam as suas coreografias?

Sim. Sempre! É preciso manter o humor neste caos em que vivemos e é fundamental que se utilize a arte enquanto arma de denúncia e de crítica social. É imprescindível que se “abanem” as pessoas que as afastemos do perigo do estado letárgico em que os mundos e as vidas virtuais nos colocam. Um pouco como fazem os jornalistas! Na nossa, como em todas as sociedades, existem sempre personagens que nos confrontam com o que há de mais insólito. Esse é o melhor material para se trabalhar: nós, o ser humano com as nossas virtudes e defeitos.

Sendo a dança, por si só, uma arte de difícil descodificação, na sua opinião como devem agir corégrafo e bailarinos para melhor veicularem a mensagem dançante?

Cada um deve fazer o seu trabalho. Se o coreógrafo for claro na mensagem que quer transmitir, se o bailarino for competente na sua prestação técnica e interpretativa, se a composição musical, o figurino, o desenho de luzes forem os adequados, então a peça será entendida. Estamos a falar de um trabalho e de competências profissionais.Depois, é como disse mais acima, cabe ao público fazer as suas múltiplas leituras.

Como descreveria dança contemporânea africana?

A ideia actual não é de compartimentar a dança contemporânea africana, da mesma forma como não se compartimenta a dança contemporânea europeia, americana ou asiática. Isso seria um atentado à diversidade (mesmo dentro de África) e uma forma demasiado restrita de olhar os profissionais de dança no nosso continente. As pessoas circulam. Bailarinos africanos dançam na europa, bailarinos europeus dançam na ásia e coreógrafos africanos fazem criações na américa.
No nosso continente, no início dos anos 90 a CDC Angola era uma das únicas companhias do género e uma das primeiras a ser fundadas em África. Depois o movimento de criação contemporânea em dança foi-se expandindo, justamente com esta circulação e partilha, resultando num cenário de dança contemporânea muito rico em todo o continente. Mas, essencialmente, os criadores e artistas africanos devem querer ser vistos como criadores e artistas, pois a sua africanidade estará, certamente, nas suas obras, estará na sua interpretação.

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