Entrevista

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Paulo Hipalenu, o guerrilheiro salvo por uma rocha em Balombo

Domingos Calucipa | Ondjiva

Jornalista

Paulo António Hipalenu. O nome por si só pode ser desconhecido por muitos. Para outros apenas o apelido diz-lhes alguma coisa, pois identifica-se com a etnia ovakwanyama, na provincia do Cunene, uma das mais conservadoras dos seus valores culturais. Mas já quando entramos para a história da luta de libertação nacional certamente uns tantos vão se lembrar.

18/11/2021  Última atualização 12H20
© Fotografia por: DR
A figura de que se trata tem um percurso na história da luta de libertação nacional contra a ocupação do regime colonial português, nas disputas territoriais entre os três movimentos de libertação e na acérrima guerra civil que culminou com os Acordos de Paz de 2002.
Decorria o ano de 1972, quando Paulo Hipalenu, deixou Ondjiva, no Cunene, depois de concluir a 4ª classe na Missão Católica de Omupanda, mesma localidade de onde também é natural, e rumou à cidade do Huambo, enviado pela avó materna, com a finalidade de prosseguir com os estudos.

No Huambo, frequentou o primeiro e o segundo anos. Ao concluir o segundo ano, em 1974,  surgem, em força, os três movimentos de libertação:  MPLA, UNITA e FNLA. "Deixámos de estudar e nos enquadrámos nos movimentos. Ingressámos nas Forças Armadas ainda jovens. Vivíamos aquela emoção. Naquele momento, os jovens movimentavam-se uns para as forças do MPLA, as FAPLA, e outros para as forças da UNITA, as FALA”, lembra.

Paulo Hipalenu enfatiza que a revolução popular de 25 de Abril de 1974, em Portugal, despertou a consciência dos jovens em Angola. "Você não queria ver como é que a emoção de querer ingressar nas Forças Armadas tomou os jovens. Cada um queria pegar numa arma, com o espirito de que já estava a libertar o país, a correr com os colonos portugueses”.

Paulo ingressou na UNITA em 1974, uma vez que o movimento tinha grande influência no Centro e Sul do país. O Instituto do Huambo, onde estudava, era o centro de adesão e os jovens que lá estudavam ali acabaram por ingressar na organização. Daí foram todos para treinos militares em lugares discretos.

Conta que, quando surgem os primeiros confrontos em Luanda entre as forças do MPLA e da UNITA, os elementos desta última organização foram corridos da capital. Muitos chegaram ao Huambo a pé. Outros de boleias de camiões. Na altura, segundo conta, o território do Planalto Central estava calmo.Alguns dias depois, lembra, a situação ficou má, ao surgirem intensos confrontos entre forças da UNITA e do MPLA.
A rocha milagrosa

Com a eclosão dos combates no Huambo, Paulo Hipalenu foi indicado para a frente no Balombo, via que dá para o Lobito (Benguela). A região era palco de fortes combates contra as forças do MPLA. Foi lá onde quase perdeu a vida.

Numa manhã de sexta-feira, numa zona entre as vilas de Balombo e Bocoio, no meio de um confronto, um obus de roquete bateu numa rocha que servia de barreira de protecção para Paulo Hipalenu. O impacto tranformou a rocha em pó. Estatelado no chão e coberto de detritos que sobraram da rocha, o guerrilheiro foi declarado morto, pelos colegas.

   "Os outros pensaram que eu estava já sem vida e me abandonaram aí. As forças do MPLA também passaram por mim, eu aí estendido, e não fizeram caso, a pensar, também, que eu estava morto. Quando me espantei, todo coberto de pó, notei as peugadas dos nossos adversários, ao lado de mim. A minha arma também ao lado, eles nem a viram. Dai fui ao encontro do meu grupo. Ao me verem, apanharam susto”, relata o entrevistado.

Depois de um tempo, o grupo seguiu para o Lobito, Num confronto à entrada, na zona das salinas, o seu comandante, que se chamava Américo, morreu em combate. A alternativa  era recuar, para se reforçar.No Lobito, o grupo permaneceu até 1976, com a Independência já proclamada. Relata que a guerra continuou, porque já não havia entendimento entre os três movimentos de libertação.

"A FNLA tinha uma parte da sua força aliada a Mobutu, do Zaíre, que seguiu para aquele país. A outra parte refugiou-se na Namíbia. Também uma parte da força da UNITA entrou na Namíbia. Nós que estávamos no interior passamos pelo Lobito, depois Lubango e pelo Cunene. Mas uma boa parte já não passou por cá, foi por  Menongue. Apanhámos a rota que vem até ao Caiundo e Savate, no Cuando Cubango, e fixou-se no país vizinho”, lembra Paulo Hipaleu.

Os que tinham força para manter-se na tropa, como foi seu caso, ficaram no Cuando Cubango. A escolha desta província, segundo conta, tem a ver com o facto de ter uma mata e um território vasto, que permitem o guerrilheiro sobreviver.
Atrocidades do colono
Paulo Hipalenu recorda de várias práticas más feitas pelo regime colonialista. Lembra que em 1971, aos 16 anos, depois que terminou o ano lectivo, deslocou-se à aldeia natal, Omupanda, na cidade de Ondjiva, à procura de um emprego temporário doméstico. O objectivo era conseguir dinheiro para comprar material escolar e vestuário.

 "Fiquei aqui em Ondjiva dois meses a trabalhar. Chegado o momento de receber o que me é devido e regressar à aldeia, cobrei o meu dinheiro e a resposta foi apenas barrotes para  cima de mim, e saí daqui a pé até a casa, a nove quilómetros”, lembra.

Paulo Hipalenu nunca chegou a receber o dinheiro. A avó teve de vender um cabrito para comprar os cadernos, que lhe permitiu concluir a 4ª classe.

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