Cultura

Passeio pela memória musical dos bares

Analtino Santos

Jornalista

Como nas edições anteriores, neste concerto temático o palco foi transformado com a alma de bar, com Salú Gonçalves a fazer conversa fiada com as convidadas Cristina Miranda e Ana Moçambique, duas jornalistas que mexem com a audiência das rádios.

12/09/2021  Última atualização 07H50
O Bar do Show do Mês Live Hospitality © Fotografia por: Dombele Bernardo | Edições Novembro
 Yuri Simão não se esqueceu de Kizua Gourgel, um dos senhores da música de bar em Angola. Salú Gonçlves entende da seguinte forma o bar: "não é apenas o copo, é uma extensão de nós quando queremos dar um grito, extravasar, espantar os males”.
Cristina Miranda afirmou ter o bar como lugar de relaxe e convívio "onde os artistas vão buscar as suas capacidades e aprimoram as suas aptidões e é lugar também onde executivos fecham negócios. Proporciona aos artistas uma rotação incrível e predisposição para chegar ao topo. Bar quer dizer criatividade em todas as ciências”.

A radialista acrescentou: "muitos artistas passaram pelos bares e foram lançados nos programas de rádio, que tinham uma grande força. Nós tínhamos o privilégio de ouvi-los pela primeira vez e conviver com eles. E púnhamos o público a ouvir e a gostar [a sua música]. Isto para nós é muito regozijante”. 

Ana Moçambique, apresentadora do Compasso Luandense, um programa da Rádio Luanda moldado ao ambiente de bar, com muita música, também prestou o seu depoimento: "o bar traz inspiração para os artistas e para todos nós”.
Jornalista da nova geração, que aposta nos "pocket show” em estúdio, mais adiante realçou: "eu particularmente tenho um programa que defino como um bar, com artistas em voz e violão, sem muito roteiro e com conversa fiada, como acontece num bar”.

Foram escalados cinco artistas para actuar, sendo Katiliana a estreante. Cidy Daniel pela segunda vez foi chamado e fez a ponte depois de brilhar no concerto dedicado à música antilhana. Lethus está cada vez mais presente. Desta feita regressou depois de uma curta apresentação no Show Piô e de ter atingido o pico no concerto Mamã África. Jay Lourenzo e Gelson Castro são artistas com uma certa regularidade no Show do Mês.

Katiliana,  a jazzwoman, afirmou que o bar é uma escola e que cantou em bares em Portugal e Inglaterra. Neste último país formou-se em Jazz, mas começou a cultivar a música quando ainda miúda em Angola. Na primeira passagem ela entrou a matar interpretando e dramatizando "Monami” de Lourdes Van-Dúnem, com Luís Vasco a dar o seu show nos sopros.

Como nos bares de New Orleans ou nos famosos Café-Jazz com Benny Makanzo muito presente nas suas actuações, emprestou a sua voz em "Somebody Like You” de Adele, acompanhada apenas pelos desenhos sonoros dos teclados. Entrou na onda das trilhas sonoras e dançou em "Fame” do filme Fama. Ainda na cena das músicas de cinema pegou em "Time Of My Love” num dueto com Jay Lourenzo.

João Diwongele Sady Lourenço é artisticamente Jay Lourenzo, ele que se define como luandense-berlinense, um músico que bem viaja pelo Jazz e seus afluentes da cena "Blackmusic” americana. Jay Lourenzo não deixou de falar do bar como lugar de aprendizado e do que ele próprio colheu nos 20 anos que viveu na Alemanha.  No Bar reviveu James Brown em "Man’s in the World”.

Com a marca do Rei do Funk deu uma outra vibe em "Um assobio meu” de Teta Lando, contando com Riboberto no saxofone. Em "Still Got the Blues” Jay Lourenzo mostrou o seu lado de bluesman, com Teddy Nsingui a arrasar nos solos. O luandense-berlinense entrou num outro dueto, desta feita com Lethus, ao ritmo dos Rastafari, com o sucesso "Don’t Wanna Dance” do reggaeman Eddy Grant. Foi mesmo para pôr todo o mundo a pular.

Lethus, artista que está a ser moldado no movimento musical dos bares luandenses, na sua primeira intervenção trouxe ao écran toda a doce melancolia do tema "Overjoyed” de Steve Wonder. Interpretou maravilhosamente o clássico "What a Wonderful World” e depois a mui dançante lambada "Meu Nome é Liberdade”. Para fechar chamou os colegas em "All Night Long”.  
Lethus diz que foi uma professora que o convenceu a interpretar músicas, pois achava que tinha boa voz. "Uma vez sugeriu que fosse cantar num bar para substituir um colega que não tinha tempo e foi assim que comecei e continuo até hoje”.

Cidy Daniel também levou a audiência para o Brasil, interpretando a interventiva e sempre actual   "Nos Barracos da Cidade” de Gilberto Gil. Passeou pelos sucessos do romântico italiano Eros Ramazzoti "Una Historia Importante” e "Un Altrate” com Teddy Nsingui, mais uma vez, a fazer chorar a guitarra. Foi às Antilhas e trouxe de lá "La Filó” de Ralph Tamar e Malavoi, com a secção de cordas a não decepcionar.

Cidy Daniel é um dos veteranos do circuito dos bares, onde já leva mais de 20 anos. Recorrendo à memória, disse: "tudo iniciou com a Banda Apocalipse fazendo shows populares no Cuanza-Sul e depois em Luanda, na Vila Alice, em casa do amigo Pedro Nzage, depois no Miami Beach, no Arco-Íris, no Embarcadouro e noutros locais, sempre fazendo voz e violão”.
Lázaro, o trompetista cubano, deixou a marca dos ritmos da América Latina em canções como "Bachata Rosa” e "La Bilirrubina” do dominicano Juan Luis Guerra. Esteve também em evidência em "Nos Barracos da Cidade”. Bruno Netho foi a surpresa ao interpretar "Unchained Melody”.

Outro senhor dos bares, Gelson Castro "El Maravilhoso”, mais uma vez prendeu a assistência em "Mungueno”, aproximando-se ao timbre inconfundível de Waldemar Bastos. Numa outra releitura Gelson Castro soltou a voz em "Uejia Ki Usokana”. Em perfeita sincronia com Teddy Nsingui na guitarra co-interpretou "Mobali Na Ngai Nzai”, um dos mais expressivos cartões-de-visita da Rumba Congolesa.

Teddy Nsingui  foi um bluesman em  "Still Got The Blues” mas regressou à base em "Lamento de Duia” alusivo ao pai da guitarra angolana. E depois solou o que Mestre Luambo Makiadi "Francó” fez na Rumba Congolesa, num dueto com "El Maravilhoso” Gelson Castro.

Yuri Simão reconheceu ter sido desafiante fazer o Bar e elogiou o esforço da banda, que, em quatro dias, teve de preparar 26 músicas. A banda foi composta por Benny nos teclados, Bernas e Alexandre na percussão, Nsangu Nsaka na guitarra, Jack na bateria, Rigoberto, Lázaro e Luís Vasco nos sopros, Raquel Lisboa e Gigi nos coros e a secção de cordas com jovens cheios de potencial ao lado dos experientes Teddy Nsingui e Mias Galheta. 


Vêm aí As Gingas!  

O esperado Show do Mês com As Gingas do Maculusso acontece no próximo sábado (18) e marcará o fim da presença do Show do Mês Live no CHE - Complexo Hoteleiro da Endiama.  Será feita uma viagem à trajectória musical da "girl band” angolana idealizada e dirigida pela professora e dinamizadora cultural Rosa Roque. Paula Daniela, Gersy Pegado, Patrícia Faria e Josina, como artistas individuais, já actuaram no Show do Mês.

Rosa Roque é detentora do Prémio Nacional da Cultura e Artes. Professora, é formada em Psicologia pelo ISCED, tendo sido funcionária do Ministério da Cultura. O seu envolvimento no meio cultural está associado ao movimento da música infantil, com a criação das Gingas do Maculusso em 1982.

As cantoras que emergiram no bairro Maculusso  têm em conjunto um vasto reportório musical, que, de certa forma, revolucionou a música angolana, com enfoque para o Semba. Têm as seguintes obras discográficas: "Mbanza Luanda”, "Malanje Natureza e Ritmos”, "Xyami” e "Luachimo”.

Rosa Roque tem igualmente as digitais bem marcadas nas obras discográficas que reuniram vários artistas: "Ndolo”, "Estrelas Dispersas”, "Pérola Azul” e "Brincadeira Azul”, dedicadas à canção infantil. Também desenvolveu o projecto "Avilupa Kuimbila”. É autora de um livro que conta a trajectória das Gingas do Maculusso

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