Opinião

Passar das reflexões a acções mais práticas

Ismael Mateus

Jornalista

O Governo voltou a organizar esta semana uma grande conferência com o objectivo de produzir mais uma grande reflexão. Juntaram-se num hotel caro como o Intercontinental empresários, académicos e governantes num Fórum Nacional da Indústria e Comércio.

06/02/2023  Última atualização 06H55

O Governo precisa de compreender que estamos todos um pouco fartos deste tipo de encontros. Não se trata de os considerar importantes ou não, mas já existem reflexões suficientes e todos aspiramos por passos mais concretos em vez de mais consultas, estratégias e políticas gerais. Queremos medidas práticas que sejam capazes de proporcionar o aumento de infra-estruturas comerciais e de fomentar a criação de pequenas industriais. Se nenhuma outra reflexão existisse, bastaria operacionalizar a máxima de Agostinho Neto "a agricultura é a base e a indústria o factor decisivo” para implementar um plano operacional (prático e concreto) para envolver mulheres, jovens e pequenas empresas na industrialização do país.

Nada de grandes e ambiciosos planos que sejam referência em África ou no mundo, como tanto gostámos. Poderíamos, com os pés bem assentes na terra, desenvolver um Programa de Microcrédito Produtivo Orientado, que fosse capaz de identificar e potenciar aquelas pessoas com provas dadas. Muitas mulheres, cooperativas e pequenas empresas beneficiaram de microcréditos e conseguiram não só devolver o dinheiro à banca como alavancar os seus negócios. Muitos empresários começaram do nada, com apenas uma moto táxi; um carro no processo e conseguiram multiplicar os seus negócios. Um programa de microcrédito produtivo orientado deve priorizar essas pessoas com provas dadas, indicar um técnico bancário que os acompanhe e dar-lhes pequenas indústrias para desenvolver. O Governo decretou e bem a "veda” da exportação da madeira.

O Ministério da Indústria bem poderia identificar nos municípios mais populosos alguém com esse perfil para beneficiar de um microcrédito orientado para produzir carteiras para o seu município numa primeira fase e "exportar” para outros mais tarde. O mesmo pode acontecer com a manutenção das estradas. Um indivíduo que de um único carro a fazer serviço de táxi passou a uma frota de 10 ou 20 carros deveria ganhar a confiança do Estado para, por exemplo, gerir um pequeno negócio de manutenção de estradas. O país tem uma rede de estradas asfaltadas de cerca de 30 mil quilómetros, se cada 50 quilómetros for entregue aos cuidados de uma pequena empresa, teríamos no mínimo 600 pequenas empresas para realizar trabalhos de tapa-buracos, reciclagem e limpeza de estradas.

Esta é a lógica que deve presidir à acção do Governo, em vez de continuar a realizar mais encontros de reflexão, debates e conferencias nos hotéis de Luanda.

Um programa de microcrédito produtivo orientado deveria criar linhas de crédito para envolvimento de micro e pequenos empreendedores angolanos, sobretudo mulheres e jovens, na criação de projectos industriais em áreas prioritárias, como por exemplo a Agropecuária; Indústrias de necessidades básicas; Indústrias de desenvolvimento de riquezas naturais e energias renováveis.

Tendo em conta a realidade concreta do nosso país, o crédito para essas micro e pequenas empresas deve ser prestado sem as exigências do sistema tradicional, mas pelo contrário criando um sistema de confiança e de treinamento dos gestores para uma melhor utilização dos fundos e acompanhamento dos actos de gestão, a fim de evitar falências, desperdícios e desvios.

Aqui sim, pede-se que o Estado tenha uma intervenção que garanta que o processo tenha menos burocracia para a concessão do financiamento, garanta as menores taxas de juros do mercado, possibilidades de expansão dos negócios e uma melhor gestão financeira das empresas, incluindo o pagamento regular de impostos e uma boa relação com os bancos credores.

Na essência, o que se pede do Governo é uma visão clara dos problemas, sem necessidade de novos debates e novas reflexões a cada vez que chega novo(s) protagonista(s) ao processo. Pretende somente que exista um programa concreto, pequeno como é a nossa economia, que nasça das nossas deficiências (para que as possamos remediar) e dos nossos pontos fortes (para que possamos tirar o máximo proveito deles). Por isso mesmo defendemos um levantamento imediato de todos os pequenos e micro empresários de sucesso, que não são necessariamente aqueles que se apresentam nesses encontros do Intercontinental Hotel. Micro empresários de sucesso são os casos de gente que tendo começado a vender camisas numa praça hoje expandiu o seu negócio para uma rede de lojas ou quem com 2 hectares de agricultura consegue tirar grande produtividade da terra e fazer crescer o negócio.

Enquanto não tivermos capacidade de crescer a partir dessas experiências, a industrialização e a privatização das nossas empresas ficarão sempre muito dependentes de estrangeiros, criando também um outro problema que cedo ou tarde se vai colocar, que é a desapropriação dos angolanos e a tomada das estruturas económicas por empresários estrangeiros.

Um programa de microcrédito produtivo orientado, como o que aqui defendemos, permite claramente que a industrialização do país passe a ser a mola impulsionadora da transformação económica e tecnológica do país, envolvendo a economia familiar na criação de empregos e em pequenos processos de industrialização nos sectores prioritários citados;

O facto de serem micro empresas e empresas familiares, lidando com financiamentos de pequeno valor, permite também multiplicar o número de beneficiários, aumentando também a competitividade e a concorrência a vários níveis.

Pelas características da nossa economia, a formalização do informal, as micro e pequenas empresas e os micro e pequenos empreendedores é que devem ser a chave do sucesso e o público alvo principal da industrialização. Os projectos megalómanos, equiparados às grandes economias do mundo, com milhões e milhões de dólares, acabam geralmente num retumbante fracasso.

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