Entrevista

Entrevista

Partido “Njango” pretende eleger 25 deputados em 2022

Bernardino Manje

Jornalista

Eduardo Jonatão Samuel “Dinho” Chingunji faz parte de uma família histórica da UNITA. É filho de Samuel Piedoso Chingunji, também conhecido por “Kapessi Kafundanga”, co-fundador daquele partido e primeiro chefe do Estado-Maior das FALA.

03/12/2020  Última atualização 13H05
© Fotografia por: DR
A comissão instaladora do seu projecto político, Njango, foi credenciada pelo Tribunal Constitucional. Quais são as motivações para a criação do partido político?

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Jornal de Angola pela oportunidade que temos de explicar o nosso projecto político Njango. Nós fizemos a entrada para o credenciamento da comissão instaladora, no dia 24 de Setembro. A lei diz que a aprovação ou credenciamento leva 30 dias. No dia 19 deste mês de Novembro fomos  levantar a notificação, um dia depois de termos sido informados que tínhamos sido aprovados. Muitos perguntam qual é o nosso objectivo. É igual ao dos outros partidos que pretendem utilizar a via do instrumento político para disputar o poder e apresentar os programas de como se pode estruturar e melhorar o país...

E como será o vosso projecto?

Não é um projecto novo em termos de pensamento e trabalho. Isso é para esclarecer aquelas pessoas que dizem que surgimos de um dia para outro. Os primeiros passos deste projecto foram dados em 2011, quando, olhando para o tecido político nacional, fiquei convencido que era necessário que se criasse um partido que não seja partido-movimento, mas um novo que pudesse defender classicamente uma ideologia como visão para transformar o país, utilizando os programas e visão que todos os partidos de centro-direita têm. Durante o conflito armado, entre o Governo e a UNITA, eu, mesmo estando lá fora, comecei a analisar, sobretudo a partir de 1992, e constatei que a África, mesmo depois das independências, tem os mesmos problemas. Muitos dizem que os nossos problemas têm como origem questões tribais. Claramente que isso também conta, mas não é bem assim, porque há países que não têm essas diferenças tribais e regionais e têm o mesmo fim...

Qual é esse fim?

Pelas minhas pesquisas, identifiquei que os nossos países não funcionam e têm os mesmos problemas porque cometemos um erro. Embora chamemos os movimentos pelas independências de partidos, na prática eles são mesmo movimentos para a luta da independência. O objectivo da luta de independência é totalmente diferente do objectivo de governação. A adesão aos movimentos nunca esteve baseada numa ideologia. Muitos deles diziam que são comunistas ou socialistas porque, na sua maioria, foram criados com apoio de países do Leste, como a ex-União Soviética e a China. Além disso, um partido que nascesse numa zona do país, facilmente era identificado com as pessoas daquela zona, porque é lá onde começa o recrutamento. Por outro lado, cada um de nós que sentisse que estava farto do colonialismo seguia alguém: ou a família ou vizinhos. Era assim que se entrava nos movimentos...

Então o que devia ser feito?

O objectivo da independência era tirar o colono do poder para instalar uma governação dos africanos. Antes disso, devíamos ter um programa, onde devia ser dito como é que seria feita a política e qual seria a ideologia. Porque a política exerce-se com ideologias. Foram os franceses quem introduziram a teoria e como se faz isso. Por isso existe famílias da esquerda, do centro e da direita. Olhando para a nossa cultura, em termos gerais, quer em Angola, quer no continente, identificamos qual seria a ideologia que está próxima das nossas tradições...

E qual é a ideologia que mais se aproxima a nós?

Identificamos a ideologia centro-direita como a mais adequada e próxima da nossa realidade. Embora a tendência desta ideologia seja o capitalismo, tem uma responsabilidade social. Olhando para as nossas culturas, sempre tivemos isso. Nas nossas comunidades e aldeias, havia sempre a propriedade privada. Tínhamos, nas famílias, a criação de gado, mas a comunidade tinha aquele sentimento de responsabilidade social, onde os mais fracos, quando precisassem, a comunidade resolvia. Um dos exemplos clássicos disso e que continua até hoje é a questão dos óbitos. A pessoa pode não ter algo mas a comunidade vem e ajuda. Tudo isso é contrário ao socialismo, em que as coisas mais importantes da sociedade pertencem ao Governo e é este quem faz os programas e os aplica. Também não vamos para o capitalismo clássico, como dos Estados Unidos da América, onde, por exemplo, os custos com a saúde e educação têm de ser suportados pelos cidadãos. De resto, quem não tiver seguro, nos Estados Unidos, não consegue ter acesso ao serviço público. Isso está a ser confirmado agora mesmo, com a pandemia da Covid-19, pois quem está a sofrer mais são as pessoas pobres e os cidadãos negros, que têm menos capacidade financeira...

Portanto, ao alcançarmos a Independência, errou-se na opção tomada?

Em 1975, o que se devia dizer era: já atingimos a Independência, agora temos de criar partidos. Isso iria facilitar a estabilidade porque quem se sentisse capitalista, iria entrar num partido de direita e aqueles que se sentissem no meio ou entravam no centro-direita ou no centro-esquerda. Por exemplo, tenho alguns parentes que dizem: "olha Dinho, acreditamos que tem mesmo de se criar uma força diferente e moderna, mas como sou da esquerda, não vou poder mais do que dar-lhe apenas o meu apoio moral (risos)”. É isso que queremos... naquela altura, teríamos capitalistas do MPLA, da UNITA e da FNLA num partido e outros num outro e não teríamos esta carga trazida das independências, ficando sempre agarrados aos movimentos. Pessoas que se identificavam como sendo da esquerda são, hoje, os tais milionários! São pessoas que defendem que se trabalhe com um investimento público mínimo. Em contrapartida, depois surgem os colégios e clínicas mais caros. São pessoas que nunca tiveram o sentimento de que o Governo investisse muito na Saúde e Educação. No mundo, o único movimento que vejo que cumpriu, desde sempre, a ideologia que defende é Cuba! Os cubanos são, de facto, socialistas; nós não! Já perguntei a muitos políticos angolanos qual era a sua ideologia. Podiam até dizer, mas não conseguiam explicar em que pilares estão assentes tais ideologias. Por isso, viemos com o nosso projecto, Njango, com uma ideologia clara. A única coisa que pedimos a quem pretende aderir ao projecto é, em primeiro lugar, aceitar a nossa ideologia, seja quem for, ainda que seja a minha esposa ou filho, para que não haja confusão no partido e o nosso trabalho tenha os resultados que precisamos...

Quais são as principais vantagens do centro-direita?

Como centro, somos capazes de tirar aquilo que achamos que é prático e que consegue resolver o nosso problema, ainda que seja algo típico da esquerda. Para o nosso país, pensamos que a Educação e Saúde são cruciais. Temos alguns países como espelho, como a Suécia e Suíça, que apesar de predominar a actividade privada, os governos intervêm muito na questão da Saúde e Educação. É isso que também pretendemos aplicar em Angola, quando tivermos a oportunidade de governar.

Quais são as individualidades que estão na criação do projecto?

Sou o mentor! Fizemos questão, com o grupo com qual temos trabalhado desde 2011, não puxar individualidades porque, aqui em Angola, já têm um passado nos partidos existentes, ou seja, estão com um currículo pesado. Significa que, de uma forma ou outra, estão ligados aos problemas que temos hoje. Quando as pessoas vão ao encontro de uma personalidade o que acontece é que esta pessoa vai ter complexo de superioridade; não vai querer que as ideias dos outros vinguem. Por isso, nós estamos a convidar somente pessoas baseadas na ideologia e que têm sentimento de querer contribuir positivamente para um ambiente novo com princípios universalmente aceites.

Com o que acaba de dizer, está afastada, por exemplo, a hipótese de convidarem uma figura como Abel Chivukuvuku para integrar o vosso projecto político?

Esta completamente afastada esta hipótese porque a nossa visão é diferente da dele e vice-versa. Além disso, é uma pessoa enquadrada mas individualidades que citei atrás. Não pretendemos ir por aí porque defendemos que os quadros e a liderança criam-se. O nosso objectivo é formar uma nova geração de líderes, criar sustentabilidade, um novo pensamento e nova cultura. Para tal, tem de se começar do zero. A política não é exclusiva a certas individualidades ou famílias. Qualquer angolano que achar que tem capacidade de contribuir pode entrar e começar a trabalhar para ser considerado político.

Acredita que, até 2022, o Njango estará em condições de participar nas eleições gerais?

Sim, sim, porque o processo de organização está no fim. As discussões e troca de impressões sobre a viabilidade do projecto já foram feitas. Quando começamos com o projecto, em 2011, a intenção inicial era participarmos nas eleições do ano seguinte, em 2012, mas como não somos imediatistas ponderamos e nem mesmo em 2017 achamos que era oportuno. O nosso partido não será para resolver os problemas pessoais ou tentar acomodar umas três, quatro ou cinco pessoas no Parlamento. Queremos algo que se torne numa máquina que pode ajudar o país a desenvolver-se. Para tal, é preciso muito trabalho e calma. Portanto, em 2018, numa reunião magna, acordamos criar o partido e decidimos que seria oportuno participar nas eleições de 2022, até porque o próprio país está a mudar, as atitudes do passado estão a ser ultrapassadas. Acreditamos que a recolha de assinaturas será concluída em breve e no prazo exigido pelo tribunal.

Como está a ser a adesão?

Muito boa. Desde 19 de Novembro que demos a conhecer, publicamente, que a comissão instaladora foi aprovada, já temos quase 500 assinaturas. Esta é uma indicação que fomos bem acolhidos e há muita gente à espera de um projecto como este. Vamos trabalhar para ter um grupo parlamentar modesto, a partir de 2022 e, cinco anos depois, disputar o poder político. Mas, para começar, estarmos no Parlamento será um grande passo porque é lá onde são aprovados os programas do Executivo.

Como meta, quantos deputados esperam eleger em 2022?

Se fosse há alguns anos atrás, diríamos que seriam por aí uns cinco deputados - e até já seria uma grande vitória -, mas, hoje, acreditamos que vamos conseguir, no mínimo, entre 25 e 30 deputados. Seja como for, no fim do dia, quem vai decidir é o povo. O importante é trabalharmos para que o resultado das eleições seja favorável.

Que avaliação faz do programa do Executivo de combate à corrupção?

Em primeiro lugar, temos de reconhecer que, hoje, estamos num ambiente totalmente diferente que poucos esperavam. Acredito que, em 2017, antes das eleições, as pessoas não acreditavam que pudéssemos ter o combate à corrupção, tocando no que se tocou. Sem dúvida que ninguém diria que seria possível, principalmente com o mesmo partido no poder, porque a corrupção era mesmo endémica. Hoje já não há aquelas pessoas que eram consideradas semi-deuses, intocáveis e temidas por pessoas iguais. Ainda assim, no caso das punições existem algumas dúvidas porque a expectativa era muito alta. Outra coisa que tenho como preocupação é saber quais são os efeitos deste combate. Temos de sentir que há benefícios para o cidadão comum. A crise, que vem desde 2014, agravou-se com a Covid e continua a provocar descontentamento porque o nível de vida sobe dia após dia. Para nós, o mais importante e imediato é resolver os problemas socio-económicos. O que importa neste momento é garantir o pão para a mesa do cidadão e só depois vermos o luxo.

Nome
Eduardo Jonatão Samuel Chingunji

Nasceu
Setembro de 1964

Cidade natal
Lubango (Huíla)

Estudou
Engenharia Civil na Southbank University, em Londres

Família e a política
É, hoje, o mais velho da martirizada família Chingunji, cujo patriarca foi um dos fundadores da UNITA e teve em "Tito” Chingunji um dos mais famosos dirigentes do movimento de Jonas Savimbi e que acabaria por ser assassinado por ordem do líder.  
 
Expatriado
Radicado em Londres por, alegadamente, a sua vida estar, em risco, é convidado a regressar ao país, no âmbito do processo de reconciliação entre o partido e a sua família, depois da morte de Jonas Savimbi, em Fevereiro de 2002.
 
O regresso à pátria
Chega a Luanda em 2003 e pouco depois é nomeado ministro da Hotelaria e Turismo, no quadro do Governo
de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN), integrado por membros dos partidos concorrentes nas eleições de 1992.

Saída da UNITA
Em 2008, decidiu abandonar o partido no qual cresceu, por, supostamente, o processo de reconciliação não ter surtido efeito

Partido Njango
Em 2011, começa a esboçar o seu projecto político,  P-Njango. A 24 de Setembro deste ano, deu entrada, no Tribunal Constitucional,
dos documentos para o credenciamento da comissão instaladora e 19 de Novembro o pedido foi aceite.

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